21 Janeiro 2026
"— Agora é tudo Estados Unidos da América. O continente inteiro", escreve Frei Betto, escritor, autor de “O Estranho Dia de Zacarias” (Cortez), entre outros livros.
Eis a crônica.
O sol da tarde entrava a fatias pela janela, desenhando retângulos de luz quente no tapete azul-marinho do quarto. Naquele campo iluminado, um menino se entretinha com seu quebra-cabeças em forma de mapa-múndi.
As peças se espalhavam no chão do amplo quarto. No centro, a América do Norte perfeitamente encaixada. Sentado com as pernas cruzadas, cabelos loiros revoltos refletindo a luz, estava Donny, de oito anos, olhos fixos nas peças coloridas.
Mary Anne, sua mãe, observava da porta, com um copo de suco na mão. Ela notava a tensão nos ombros do filho balofo, aquela rigidez que surgia sempre que o mundo, em sua imensa injustiça, ousava não se curvar à sua vontade.
— Donny, suco? — ofereceu ao entrar no território.
— Depois — respondeu ele, sem desviar os olhos das peças. — Estou terminando o mapa do hemisfério ocidental.
Mary Anne sentou-se na cama, a uma distância segura do jogo estirado sobre o tapete macio.
— E os outros países?
— São meus também.
— Entendi — disse a mãe, tomando um gole do seu suco. — Juanito está aí embaixo, sabe. Veio para brincar com você.
A menção do nome fez com que Donny franzisse o nariz, como se sentisse o cheiro de algo azedo. Juanito, o vizinho moreno de sete anos, era um invasor em potencial. Sua presença significava compartilhar com o filho de imigrantes mexicanos. E compartilhar era um conceito que Donny considerava insuportável, uma falha grave na organização do universo.
— Ele pode brincar com as coisas dele. As minhas são minhas.
— Donny, amor, ele veio aqui para brincar com você. Não trouxe os próprios brinquedos. A graça é brincarem juntos.
— Eu brinco melhor sozinho. Ninguém estraga, ninguém muda as regras.
Mary Anne respirou fundo. Aquele era o cerne da questão: as regras. As do filho eram absolutas, intocáveis, e mudavam de acordo com a conveniência dele. As do mundo exterior eram elásticas, chatas e insuportavelmente democráticas.
— Mas não é sempre bom brincar sozinho. Às vezes, ter uma companhia, dividir as ideias…
— Minhas ideias são melhores — ele cortou, finalmente olhando para a mãe. Seus olhos claros brilhavam com a convicção absoluta dos tiranos e das crianças mimadas. — O Juanito quer que a Groenlândia fique com a Dinamarca. Isso é burrice. Aquela ilha pertence a nós, americanos. Além disso, ele ganhou na escola a medalha com a redação sobre a paz e eu é que merecia ganhar.
— Mas, filho, o professor considerou que o trabalho dele era o melhor da classe.
— O meu era melhor. Pelo menos ele devia ter me dado a medalha. E ele não quer admitir que o Golfo do México é nosso. Insiste que é do país dele.
— Talvez seu amigo queira fazer uma partilha melhor do mundo. É uma ideia diferente, não burrice.
— É burrice e ele não vai me fazer mudar! — A voz dele subiu carregada de uma raiva súbita e desproporcional. Os punhos se fecharam. — É o meu mundo! São meus jogos! Ele não pode chegar e querer ser dono!
— Ele não quer ser dono, filho. Ele quer ser amigo. Participar. Quando você vai à casa dele, você brinca com os brinquedos dele, não brinca?
— É diferente.
— Por que é diferente?
— Porque é! — rugiu, e a peça do Golfo do México se encaixou junto à Flórida. Era um ato de rebelião contra a lógica insuportável que sua mãe insistia em apresentar.
Mary Anne deixou o silêncio se instalar por um momento. O retângulo de sol no tapete havia mudado de lugar, subindo pela lateral do armário.
— Filho, vem cá — disse, suave.
— Não quero.
— Vem. Sente-se aqui do meu lado.
Relutante, arrastando os pés como se carregasse grilhões, Donny deslocou-se alguns centímetros para fora do perímetro do quebra-cabeças e sentou-se de frente para a mãe, ainda com o queixo teimoso erguido.
— Você sabe o que é empatia? — perguntou a mãe.
Donny fez que não com a cabeça, desconfiado.
— É quando a gente tenta se colocar no lugar do outro. Imaginar como a outra pessoa está se sentindo. Tenta agora: como você acha que a Juanito está se sentindo, lá embaixo, esperando você chamá-lo para brincar, sabendo que você não quer dividir nada com ele?
Donny encarou o mapa-múndi. Sua mente rápida se agitou. Ele não queria pensar no vizinho. Pensar no amigo era abrir uma brecha. Era admitir que Juanito existia, com sentimentos no mesmo nível que ele.
— Ele… ele deve estar com raiva — murmurou, relutante.
— Provavelmente. E triste também. Porque ele gosta de você, e veio aqui na expectativa de se divertir com o amigo. E o amigo está tratando-o como… como um inimigo.
— Ele não é inimigo! É inferior! — protestou Donny, confuso com a própria lógica que se virava contra ele.
— Mas é como você trata o Juanito. Como se você fosse o rei, e ele, um servo. Ninguém gosta de se sentir assim, filho.
— Mas eu sou rei aqui! É o meu quarto! — a teimosia voltava, alimentada pelo pânico de perder o controle. A ideia de ser rei era poderosa. Renunciar a isso era como desmontar o mapa, peça por peça.
— Você é o dono dos brinquedos, sim. Mas não é dono das pessoas. Nem do tempo dos outros. Juanito não é seu inimigo. É uma pessoa que gosta de você. Ele veio para brincar com o amigo Donny. Não com o Rei Donald.
O menino ficou quieto. Os punhos ainda estavam fechados, mas a raiva dava lugar a uma confusão profunda, mais difícil de lidar. A raiva era quente, direta. A confusão era fria, complexa. Sua mãe falava coisas que faziam um certo sentido, mas esse sentido exigia que ele saísse do trono. E o trono era muito confortável.
— E se ele estragar meu mapa? — a pergunta saiu em um sussurro, a última trincheira de sua defesa.
— E se ele só melhorar? — contra-atacou a mãe em tom gentil. — E se ele tiver uma ideia tão legal que o mapa fique ainda mais interessante? Você nunca vai saber se não deixar. O pior que pode acontecer é você não gostar. Aí, com calma, você explica como gosta de brincar. Mas tem que dar chance a seu amiguinho.
— Não quero dar chance! Quero que seja do meu jeito!
— Donny, o mundo não funciona assim. Na escola, você tem que dividir a atenção da professora, os livros, os lápis de cor. No parque, tem que revezar no balanço. Em casa, divide a TV com o papai, divide a minha atenção com seu irmão mais novo. A vida é cheia de divisões.
— Eu odeio divisões! — a expressão saiu como um desabafo. — É sempre tirem de mim! É sempre dê para o outro! Nada é só meu!
Mary Anne sentiu um nó na garganta. Havia uma angústia genuína naquela explosão. Para aquela criança intensa, possuir era sinônimo de existir, de ser seguro. Cada brinquedo que saía de suas mãos era um pedaço de si que se perdia.
— Eu sei que parece assim, amor. Mas não é ‘tirar’. É ‘multiplicar’. Quando você divide um lanche com um amigo, a fome de vocês some. Quando divide uma brincadeira, a diversão pode ficar melhor. O que é seu continua sendo seu. O carinho que eu tenho por você, por exemplo, é todo seu. Ninguém tira. Mas o meu carinho pelo seu irmão também existe, e não tira nada do seu. Entende?
Donny não respondia. Olhava para as mãos gorduchas. A tempestade interior era visível no seu rosto contraído.
— E se… — ele começou, devagar. — E se a gente brincar de uma coisa que eu escolhi primeiro. Depois a gente brinca de uma coisa que ele escolhe.
A mãe sentiu um impulso de abraçá-lo, mas se conteve. Seria uma concessão. Minúscula, frágil, mas era.
— Isso me parece um excelente acordo, filho. Justo. Você pode explicar isso para ele?
— Você explica.
— Não, Donny. A proposta é sua. A palavra é sua. Desça e converse com seu amigo. Rei nenhum manda mensagens pelo seu mensageiro real, não é? — disse ela, com um leve sorriso.
O filho olhou para ela, e pela primeira vez naquela tarde um lampejo de outra coisa, que não era raiva ou teimosia, passou por seus olhos. Era o orgulho de ser tratado como alguém capaz de uma missão diplomática. Era um vislumbre de crescimento.
Donny se levantou com a solenidade de um embaixador. Deu uma última olhada para seu mapa, seu reino de cartolinas coloridas. Talvez por uma tarde ele pudesse ser apenas Donald, e não o rei. Talvez o mundo não desabasse por causa disso.
— Tudo bem — disse, e dirigiu-se para a porta. Dali gritou para Juanito subir.
O menino mexicano chegou constrangido e fitou o mapa com estranhamento.
— Cadê meu país, Donny?
— Agora é tudo Estados Unidos da América. O continente inteiro. E mais a Groenlândia ali em cima. A América toda não foi dos índios? Depois, tudo abaixo do Rio Grande não foi da Espanha? Agora tem que ser tudo nosso.
Até a medalha que você ganhou tinha que ser minha.
Juanito se fechou em silêncio, entristecido.
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