Vozes de Emaús: Tecer saberes plurais: projeto ético-político-poético. Artigo de Rosemary Fernandes da Costa

Arte: Lauren Palma | IHU

16 Janeiro 2026

"Trazemos para nossa mediação um princípio africano, como estrutura e inspiração para um caminho dialógico: a filosofia Ubuntu. O filósofo Mogobe Ramose apresenta a filosofia Ubuntu como raiz da filosofia africana, como uma fonte da qual flui a ontologia e a epistemologia africana. Não faremos uma análise linguística ou filosófica, mas trazemos a metáfora que o próprio autor apresenta que consiste em contemplar uma árvore - como o solo, a raiz, os ramos, folhas, flores e frutos dão organicidade e significado para o que entendo como árvore."

O artigo é de Rosemary Fernandes da Costa, teóloga, assessora do MEL (Movimento de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras), professora na PUC-Rio, membro da Comunidade Batismo do Senhor, Caxias, Rio de Janeiro. 

Rosemary Fernandes (Foto: Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo. 

O mundo ocidental tem vivido ainda mergulhado na cosmovisão eurocêntrica, ancorado em lógicas colonizadoras, que tantas vezes decorrem em posturas preconceituosas e invisibilizadoras de saberes decoloniais ou não colonizados. Podemos pensar que seja ignorância, ausência de conhecimento, receio das alteridades, estranhamento, mas já devíamos perceber o quanto de fechamento representa esse monólogo epistêmico.

Para conhecer as alteridades, os caminhos já foram desdobrados em muitas linguagens – aproximação, leitura, reverência, escuta profundas das narrativas, estudo, desconstrução de dualismos, desapego a pensamentos aparentemente consolidados, abertura para novas ontologias, visões de mundos, aproximações, espiritualidades.

Trazemos para nossa mediação um princípio africano, como estrutura e inspiração para um caminho dialógico: a filosofia Ubuntu. O filósofo Mogobe Ramose apresenta a filosofia Ubuntu como raiz da filosofia africana, como uma fonte da qual flui a ontologia e a epistemologia africana. Não faremos uma análise linguística ou filosófica, mas trazemos a metáfora que o próprio autor apresenta que consiste em contemplar uma árvore - como o solo, a raiz, os ramos, folhas, flores e frutos dão organicidade e significado para o que entendo como árvore. Assim é a filosofia Ubuntu, concebe o ser como um movimento perpétuo e universal de compartilhamento e intercâmbio das forças da vida. Ela conduz para um nível de diálogo e integração que dialoga com o passado, com o presente e com o futuro. Dialoga com a ancestralidade e seus saberes; enraíza no presente, no cotidiano, com seus desafios e suas possibilidades; e ainda arremessa para o futuro, pois o amanhã se faz no hoje.

A tessitura de saberes invisibilizados pela colonialidade convoca à cidadania coletiva, sem acepção de pessoas, credos, formas de vida e, portanto, à ética comunitária e cósmica. Tecer saberes se torna não apenas conhecer, mas assumir pessoal e coletivamente as consequências dessa reverência, abrindo caminhos para o enfrentamento das consequências das colonizações, seu enraizamento e perpetuações. Enfim, para os povos que foram colonizados, ativar em todas as dimensões o princípio de decolonizar.

Antonio Bispo dos Santos alerta para a própria linguagem e suas armadilhas conceituais como, por exemplo, os conceitos de raça, de humano, de bem/mal, de religião. Sua estratégia é a criação de novos vocábulos, polifônicos, que desconstruam a monofonia do pensamento colonial e enraíze um mundo com novas palavras. Ele chama de saber orgânico, que se contrapõe aos saberes sintéticos.

Cida Bento – unida a Frantz Fanon e Alberto Memmi -, nos oferece as mãos para caminharmos para fora das continuidades simbólicas e institucionais das relações coloniais de dominação: “são pontos comuns nos estudos sobre a colonização: a crítica ao eurocentrismo, a revisão da narrativa histórica colonial e a defesa da emergência de ‘outras’ vozes e saberes advindos do Sul global”.

La colonização não é um fato estático, definido e acabado, mas um processo histórico. Estamos em movimento, portanto, é possível repensar o fluxo dos saberes, as formas de conhecimento, desmanchar aprendizados que fecharam olhos, corpos, vidas, memórias. Buscar uma nova pedagogia do viver, conscientes do que foi feito até aqui, encontrar as brechas presentes no mundo e trabalhar coletivamente.

Luiz Rufino convida a conhecer a Pedagogia das Encruzilhadas. Um saber praticado nas margens, com suas tecnologias e poéticas de abrir caminhos. Olhando nosso tempo, essa é uma perspectiva cotidianamente presente e desafiadora: vivemos em encruzilhadas. Os saberes ancestrais declaram que aqui estão os pontos de força, a dinamicidade do universo, as intersecções e possibilidades. Ao contrário de impotência, há potencialidade, busca constante e inacabada de caminhos, sempre coletivos e circulares, sem definições e pontos finais, sem linearidade. São saberes que falam da vida em sua radicalidade, em seu movimento de beleza e potência presente em todas, todos, em todo o pluriverso.

No sábio refrão – Ninguém larga a mão de ninguém – os povos colonizadores e colonizados largaram a mão de muitos irmãos e irmãs, largaram a mão dos seres vivos, dos elementos fundamentais do viver. Esse sistema provocou isolamento, desconfiança, medo das relações. Retomando o alerta do escritor uruguaio Eduardo Galeano, o monge Marcelo Barros se refere a este momento como um tempo marcado pelo desvínculo, provocando certa imunização, que é o contrário de comunhão. Precisamos passar da imunização à comunhão. O vínculo é relação, se apoia na interdependência entre as pessoas, entre estas e o ambiente, é uma relação comunitária. Retomemos as aproximações, a construir confiança, ao diálogo fecundo, à não manutenção de fronteiras.

Essa tessitura pode nos conduzir a um novo projeto – ético-político-poético – tendo os princípios da comunicação, da expansão e do inacabamento como forças sagradas, como ensina Luiz Rufino.

“Se o passado não tem nada que dizer ao presente,
a história pode ficar adormecida,
sem incomodar, no roupeiro
onde o sistema guarda os seus velhos disfarces.”
Galeano, O Livro dos Abraços

Referências

BARROS, Marcelo. A dimensão libertadora da espiritualidade na militância e na pastoral. In: Curso de Verão 2020. Disponível aqui. Acesso em 5 jan 2026.

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022

GALEANO, Eduardo. O Livro dos Abraços. Porto Alegre: L&PM, 2002

RAMOSE, Mogobe. A filosofia do Ubuntu e Ubuntu como uma filosofia. In: African Philosophy through Ubuntu. Harare: Mond Books, 1999. Tradução para uso didático por Arnaldo Vasconcellos.

RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2019

SANTOS, Antonio Bispo. As fronteiras entre o saber orgânico e o saber sintético. In: OLIVA, CHAVES, FILICE e NASCIMENTO (orgs) Tecendo redes antirracistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2019

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