Por que a invasão da Venezuela interessa mais à Nvidia do que à Exxon. Artigo de Álvaro Machado Dias

Protestos na Venezuela (Fonte: Wikipédia)

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14 Janeiro 2026

"Trump fala em petróleo porque o seu público adora isso. Mas a aposta também é pela infraestrutura do futuro", escreve Álvaro Machado Dias, em artigo publicado por Folha de S.Paulo e reproduzido por André Vallias em seu Facebook, 13-01-2026.

Álvaro Machado Dias é neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind.

Eis o artigo.

Os manuais de história ensinam que, sob a regra implacável dos impérios, a soberania dos fracos dura até que suas riquezas se tornem necessárias. Trump parece não ter lido os manuais. Invadiu a Venezuela com o objetivo declarado de roubar o petróleo do país, como se ainda estivéssemos em 1973.

A Venezuela tem as maiores e as piores reservas de petróleo do mundo: 303 bilhões de barris, extrapesado, caro de extrair e refinar. A infraestrutura está em ruínas, com oleodutos de 50 anos sem manutenção. Retomar o patamar dos anos 1990 custaria US$ 110 bilhões e levaria 5-7 anos, sendo que o consenso até ontem era de que o óleo estaria morto antes de 2040. Quando consultadas às vésperas da invasão, as petroleiras recusaram. Quem diria.

Trump tem mais três anos de mandato, o retorno do investimento leva o dobro, forçando a aposta a incorporar a política externa de seu sucessor e a passividade futura de um país que segue bolivariano até segundo aviso. Para piorar, o crude venezuelano gera um desconto sobre o Brent que chega a 34% do valor antes de qualquer lucro.

Na terça-feira (6), Trump anunciou que a Venezuela entregará "30-50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade" aos EUA, "com o dinheiro controlado por mim". Isso equivale a dois dias e meio de demanda. A conta não fecha.

O petróleo importa, mas não só dessa maneira. Cortar o fluxo à China, que compra 76% das exportações venezuelanas, e asfixiar Cuba são objetivos reais. Pequim, que quer Taiwan, protesta em público mas anota o precedente. Minerais críticos e gás dão o empurrão que falta.

Em 12/2024, a China baniu exportações de gálio, germânio e antimônio aos EUA, os quais são essenciais para os semicondutores. Quatro meses depois, adicionou sete terras raras, levando os americanos a retroceder na guerra tarifária.

Há um mês, a administração Trump lançou a iniciativa Pax Silica para assegurar essas cadeias, calcanhar de Aquiles na geopolítica da IA. A Venezuela tem coltan, ouro, bauxita e reservas de terras raras ainda não mapeadas, concentradas no Arco Minero del Orinoco, que possui 300 mil toneladas desses minérios, atualmente explorados por garimpeiros ilegais e compradores chineses. O secretário de Comércio americano foi direto: "Vocês têm todos os minerais críticos" (...) Trump vai consertar isso".

Na segunda-feira, enquanto a Chevron subia 5% com a promessa de reconstruir a indústria petroleira, as ações da USA Rare Earth dispararam 14%, apostando que a mudança de presidente abrirá acesso ao neodímio venezuelano, insumo dos ímãs que a empresa produzirá em Oklahoma a partir deste ano. A conexão com a Groenlândia é óbvia: Trump ameaçou invadi-la no dia seguinte à captura de Maduro. Timing é tudo.

O mesmo raciocínio vale para o gás natural: datacenters americanos devem triplicar seu consumo de energia até 2030, com gás respondendo por mais de 40% da matriz. A Venezuela tem 200 trilhões de pés cúbicos que nunca exportou.

Um gasoduto de 16 km conectaria o campo Dragon ao terminal de GNL de Trinidad, transformando o Caribe em entreposto energético americano em 18 meses, uma fração do tempo que o petróleo exige.

Trump fala em petróleo porque o seu público adora isso. Mas a aposta também é pela infraestrutura do futuro.

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