13 Janeiro 2026
Para Brasília, a adesão do presidente argentino ao ataque a Caracas e ao posterior sequestro de Nicolás Maduro reveste-se de gravidade máxima.
A reportagem é de Darío Pignotti, publicada por Página|12, 13-01-2025.
O confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei chegou a um ponto sem retorno. Estamos diante da conjuntura mais tensa em dois anos e um mês de relações hostis, iniciadas com a posse do argentino, da qual Lula não participou.
Para Brasília, a adesão do presidente argentino ao bombardeio estadunidense sobre a Venezuela e ao posterior sequestro de Nicolás Maduro reveste-se de gravidade máxima. Inédita.
A posição adotada pelo político libertário excede seus atos em algumas das festividades extremistas que ele frequentava em Miami, Madri ou no muito bolsonarista Balneário Camboriú.
O ataque ordenado por Donald Trump contra a Venezuela (celebrado pelo governante argentino) é também uma ameaça à soberania brasileira, país que compartilha mais de dois mil quilômetros de fronteira com o país caribenho, alertam do governo do Partido dos Trabalhadores.
Embaixada em Caracas
A resposta concreta a essa adesão mileísta às forças invasoras foi o anúncio do fim da custódia da embaixada argentina em Caracas, iniciado em agosto de 2024.
No mar de informações falsas, próprias de toda guerra, a CNN atribuiu a decisão de abandonar a embaixada argentina à irritação de Lula frente às declarações de Milei e a um vídeo em que o brasileiro aparece ao lado de Maduro.
Essa versão dos fatos apresenta um Lula mercurial reagindo ao seu homólogo platino sem medir as consequências de uma medida tão importante para o vínculo do Brasil com a Argentina, com repercussões certas nas relações com a Venezuela e os Estados Unidos.
No entanto, os fatos, segundo informaram fontes do governo brasileiro, não ocorreram como contou a CNN e, ecoando essa rede, outros meios sul-americanos.
Lula e sua equipe avaliaram durante dias as consequências de deixar a embaixada argentina em Caracas, decisão que só foi notificada a Buenos Aires entre os dias 8 e 9 de janeiro, ou seja, quase uma semana após a invasão estadunidense.
Uma fonte do PT comentou a este jornal que “conhecendo Lula, ele jamais sairia da embaixada argentina por uma simples irritação. Ele sempre foi cerebral, desde quando era sindicalista”.
Consultado sobre o mesmo tema, um membro do serviço exterior respondeu ao portal Carta Capital que abandonar a missão argentina não foi em nenhum caso uma resposta às “provocações” de Milei, mas sim um sinal sobre a “reorganização” da política para a Venezuela.
O diplomata reconheceu, falando sob anonimato, que a proteção da embaixada argentina, onde se esconderam assessores da oposicionista Corina Machado, afetou a relação entre Lula e Maduro.
Delcy Rodríguez
Se a retirada da embaixada argentina, à frente da qual possivelmente ficará o governo italiano a partir de quinta-feira, foi anunciada depois de vários dias de análise, a decisão de falar com as autoridades venezuelanas foi muito menos demorada. Lula telefonou à então vice-presidente Delcy Rodríguez no mesmo sábado, 3 de janeiro, horas após os bombardeios.
Ele fez isso, segundo comentou a seus colaboradores, para conhecer em primeira mão o que havia ocorrido, sabendo que em torno desse tipo de ofensiva circulam versões falsas.
A ofensiva norte-americana constitui uma “flagrante violação da soberania venezuelana” e estabelece um “precedente” grave para toda a região, afirmou naquele sábado, do Rio de Janeiro, enquanto conduzia à distância reuniões de ministros convocadas em Brasília.
Sheinbaum no Brasil?
Enquanto fazia a transição entre suas férias cariocas e o reinício de seus compromissos em Brasília, Lula e seus diplomatas continuaram realizando consultas reservadas com governos latino-americanos e europeus.
Dias depois, essa agenda incluiu conversas telefônicas com os presidentes Claudia Sheinbaum, do México, e Gustavo Petro, da Colômbia. Ambos ameaçados de forma mais ou menos explícita por Donald Trump em sua deriva da Doutrina Monroe.
Lula concordou com os líderes do México e da Colômbia sobre a necessidade de conter a desmesura imperial por meio de ações comuns, que começaram a ser esboçadas.
Busca-se, palavras mais, palavras menos, uma coalizão soberanista regional para antagonizar a administração republicana e, ao mesmo tempo, enfrentar a aliança de governos extremistas latino-americanos proposta por Milei.
Um passo importante para materializar essa coalizão seria uma cúpula entre as duas maiores potências regionais, Brasil e México, mais a Colômbia. Isso começou a ser insinuado com o convite de Lula para que Sheinbaum o visite no Brasil.
O encontro, caso ocorra, teria um peso considerável nessa guerra assimétrica, da qual o ataque à Venezuela seria apenas a primeira batalha.
Medicamentos
Antes de comunicar a Milei que o Brasil deixará de representar os interesses argentinos perante o governo bolivariano, Lula enviou sua embaixadora em Caracas à cerimônia de posse de Delcy Rodríguez como presidente interina.
Em seguida, a mandatária concedeu uma audiência privada à embaixadora Gilvana Maria de Oliveira. No encontro, e como gesto de descongelamento das relações, Oliveira teria informado à presidente sobre o fim da tutela da embaixada argentina e a doação de quarenta toneladas de medicamentos para reparar as perdas causadas pela destruição, durante o bombardeio norte-americano, de um depósito de insumos para diálise.
Outros carregamentos devem ser enviados em breve pelo Ministério da Saúde, que mencionou que há seis anos, apesar do boicote do então presidente Jair Bolsonaro, a Venezuela socorreu hospitais brasileiros com tanques de oxigênio, sobrecarregados pelos pacientes infectados com coronavírus.
Brasil na mira
O deputado petista Rogério Correa, possivelmente o legislador melhor informado sobre o golpe lançado três anos atrás por Jair Bolsonaro para estabelecer um regime militar, situou a ofensiva contra a Venezuela como um movimento de alcance regional do qual o Brasil pode ser uma das vítimas.
Não se considera provável, segundo esse raciocínio, a invasão de um território como o do Brasil, por suas dimensões continentais, mas sim a desestabilização do governo Lula por meio de uma ultradireita encorajada a partir do golpe contra a Venezuela e sempre vinculada ao trumpismo.
Interferência
O apoio de Buenos Aires à invasão do território venezuelano esteve em linha com as declarações dos irmãos Flavio e Eduardo Bolsonaro, feitas nos Estados Unidos.
O senador Flavio e o deputado exonerado Eduardo são porta-vozes e principais operadores políticos de Jair Bolsonaro, preso desde novembro, cumprindo uma condenação de 27 anos como chefe do levante golpista. Eles não hesitam, e assim escreveram após a operação armada norte-americana, em que o ocorrido em 3 de janeiro foi o “primeiro passo” rumo à recuperação do poder, que eles asseguram ocorrerá nas eleições brasileiras de outubro deste ano.
Embora qualquer análise racional descarte uma intervenção estrangeira no Brasil, não custa lembrar, especialmente em tempos em que o impensável acaba por ocorrer, que meses atrás Flavio Bolsonaro manifestou apoio ao desembarque de fuzileiros navais no Rio de Janeiro para combater o “narcoterrorismo”. O legislador disse estar admirado com as incursões norte-americanas em águas venezuelanas e criticou o regime “narcoterrorista” de Maduro.
Lembrando: Flavio foi escolhido por seu pai como pré-candidato para enfrentar Lula nas eleições de outubro, candidatura que já conta com o apoio de Javier Milei.
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