09 Janeiro 2026
A então ministra das Relações Exteriores de Caracas – agora presidente interina – ordenou à Citgo Petroleum, subsidiária americana da petrolífera estatal PDVSA, que pagasse US$ 500.000 ao comitê de posse presidencial de Donald Trump.
A informação é de Laura Lucchini, publicada por La Repubblica, 08-01-2026
Em 2017, enquanto Donald Trump se preparava para entrar na Casa Branca como um presidente "anti-establishment", alguém em Caracas já havia compreendido que o mundo estava diante de uma mudança de paradigma e que a diplomacia tradicional logo se tornaria obsoleta. Essa pessoa era Delcy Rodríguez, então ministra venezuelana das Relações Exteriores, uma figura em ascensão no chavismo e agora presidente interina após a histórica captura de Nicolás Maduro pelos EUA.
A mudança
A Venezuela já estava à beira do colapso. A hiperinflação consumia salários e poupanças, e a indústria petrolífera — a espinha dorsal do país — lutava sob o peso de anos de má gestão e sanções iminentes. Nesse contexto, Rodríguez decidiu tentar uma manobra que, para um governo que se proclamava anti-imperialista, cheirava a blasfêmia política: aproximar-se de Trump.
Ela fez isso da maneira mais direta possível. Ordenou que a Citgo Petroleum, subsidiária americana da estatal petrolífera PDVSA, pagasse US$ 500 mil ao comitê de posse presidencial de Trump. Formalmente legal — comitês de posse podem receber doações de empresas registradas nos Estados Unidos —, a medida foi politicamente explosiva. A notícia, divulgada alguns meses depois por registros federais americanos, causou mais alvoroço em Caracas do que em Washington.
Na Venezuela, onde faltavam remédios e alimentos, aquela doação pareceu um insulto. Mas para Rodríguez, foi um investimento. A ideia era simples e imparcial: Trump não tinha laços ideológicos com a América Latina, não se interessava tanto por retórica democrática quanto seus antecessores e falava a língua dos negócios. Se houvesse uma maneira de salvar a indústria petrolífera venezuelana por meio de Washington, ela precisava ser aproveitada imediatamente.
Outras tentativas
A doação foi seguida por outras ações. Lobistas republicanos foram contratados para sondar o terreno, ex-assessores de Trump foram contatados e congressistas conservadores receberam sinais de abertura. Rodríguez chegou a tentar contato com a cúpula da ExxonMobil. Ex-diplomatas americanos a descreveram na época como "ideológica, mas não dogmática".
A tentativa, no entanto, fracassou. Trump, incentivado pelo senador Marco Rubio e pela ala cubano-americana do Partido Republicano, optou por uma linha dura. As sanções se intensificaram, a Venezuela tornou-se um caso simbólico na luta contra os "regimes autoritários" no Hemisfério Ocidental e a porta que Rodríguez tentara fechar abruptamente.
Contudo, esse fracasso não significou o fim para ela. Pelo contrário. Tornou-a visível, reconhecível e comercializável. Nos anos que se seguiram, Maduro a promoveu a vice-presidente, confiando-lhe o dossiê mais sensível: gerir a economia sob sanções. Rodríguez contratou consultores, reorganizou partes da cadeia de abastecimento de petróleo e congelou — pelo menos parcialmente — a hiperinflação. Durante essa fase, alguns a chamavam de "a Deng Xiaoping do chavismo".
O momento da verdade
Quando Maduro foi capturado em uma operação militar dos EUA, era quase natural que ela assumisse seu legado institucional. Constitucionalmente nomeada presidente interina, com o apoio das Forças Armadas e da Suprema Corte, Rodríguez se viu frente a frente com o mesmo homem que tentara seduzir nove anos antes.
Em retrospectiva, 2017 parece menos um acidente e mais um ato fundador. Foi o momento em que Delcy Rodríguez compreendeu que, para sobreviver, o chavismo precisava aprender a negociar com o inimigo. Mas a história dessa fase ainda está por ser escrita.
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