07 Janeiro 2026
"Uma nova ordem mundial está emergindo. Uma nova ordem na qual potências cada vez mais autoritárias usam a força bruta para subjugar seus vizinhos e roubar seus recursos".
O artigo é de Owen Jones, colunista do jornal The Guardian, publicado por The Guardian e reproduzido por El Diario, 06-01-2026.
Eis o artigo.
Enquanto o horizonte da Venezuela se iluminava sob os bombardeios americanos, testemunhávamos os sintomas de um império em declínio. Pode parecer contraditório. Afinal, os Estados Unidos sequestraram um líder estrangeiro e Donald Trump anunciou que irá "governar" a Venezuela. É verdade que, à primeira vista, parece mais um frenesi de poder do que um império em declínio: à primeira vista, vemos uma superpotência eufórica com sua própria força.
Mas a maior virtude de Trump, se é que se pode chamar assim, é a sua franqueza. Os presidentes americanos anteriores mascaravam o seu egoísmo com a linguagem da "democracia" e dos "direitos humanos". Trump evita disfarçá-lo. Em 2023, ele já havia dito: "Quando terminei meu primeiro mandato, a Venezuela estava prestes a entrar em colapso. Nós a teríamos tomado, teríamos ficado com todo aquele petróleo, tínhamos bem ao lado". E não foi um comentário impensado. Essa lógica de apropriação do petróleo, e muito mais, está claramente delineada na Estratégia de Segurança Nacional de Trump, publicada recentemente.
O documento reconhece algo que Washington há muito nega: que a hegemonia global dos EUA acabou. "Após o fim da Guerra Fria, as elites da política externa americana se convenceram de que a dominação permanente dos EUA sobre o mundo inteiro era do melhor interesse do país", declara com evidente desprezo. "Mas os dias em que os Estados Unidos dominavam a ordem mundial como o titã Atlas acabaram." Esse é o epitáfio pouco cerimonioso que o governo Trump escreve em sua Estratégia Nacional para o fim de uma era de superpotência americana.
O que substituirá essa era de domínio absoluto é um mundo de impérios rivais, cada um com sua própria esfera de influência. E para os Estados Unidos, essa esfera de influência é o continente americano. “Após anos de negligência”, proclama a estratégia nacional, “os Estados Unidos reafirmarão e implementarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. A Doutrina Monroe, formulada no início do século XIX, tinha como objetivo impedir o colonialismo europeu. Na prática, ela lançou as bases para a dominação americana sobre a América Latina.
A violência na América Latina patrocinada por Washington não é novidade. Meus pais acolheram refugiados que fugiram da ditadura de direita que se instaurou no Chile após a queda do presidente socialista Salvador Allende em um golpe apoiado pela CIA. "Não vejo por que devemos ficar de braços cruzados e assistir a um país se tornar comunista por causa da irresponsabilidade de seu povo", declarou o então secretário de Estado americano Henry Kissinger. Uma lógica semelhante justificou o apoio dos EUA a regimes assassinos no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, bem como na América Central e no Caribe.
Mas, nas últimas três décadas, esse domínio foi desafiado. A chamada “maré vermelha” de governos progressistas, liderada pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, buscou consolidar uma maior independência regional. E, nesse contexto, a China, principal rival dos Estados Unidos, ganhou poder em todo o continente. O comércio bilateral de bens entre a China e a América Latina foi 259 vezes maior em 2023 do que em 1990. A China é agora o segundo maior parceiro comercial do continente, atrás apenas dos Estados Unidos. No final da Guerra Fria, sequer figurava entre os 10 maiores. O ataque de Trump à Venezuela é apenas o primeiro passo em uma tentativa de reverter essa situação.
A experiência do primeiro mandato de Trump levou muitos a concluir que seu papel como um "homem forte" na Casa Branca era pura bravata. Durante aquele mandato, Trump fez um acordo com a elite republicana tradicional: implementar cortes de impostos e desregulamentação em troca de seus constantes discursos inflamados nas redes sociais. O segundo mandato de Trump, no entanto, é um regime de extrema-direita em pleno vigor.
Quando ele ameaça os presidentes democraticamente eleitos da Colômbia e do México, devemos acreditar nele. Quando ele declara, com entusiasmo mal disfarçado, que “Cuba está prestes a cair”, devemos acreditar nele. E quando ele afirma: “Precisamos da Groenlândia, sem dúvida”, devemos acreditar nele. Ele realmente pretende anexar mais de dois milhões de quilômetros quadrados de território europeu.
E o que acontecerá quando a Groenlândia for absorvida pelo império trumpista? Trump já tomou nota da lamentável resposta europeia ao seu ataque flagrantemente ilegal à Venezuela. Mas a confiscação, pelos EUA, de território soberano dinamarquês significaria, sem dúvida, o fim da OTAN, que se baseia no princípio da defesa coletiva. Um pedaço de território dinamarquês seria roubado pelos EUA com a mesma crueldade com que a Rússia devorou partes da Ucrânia. Para além de qualquer retórica emanada de Londres, Paris ou Berlim, a aliança ocidental estaria acabada.
Quando a União Soviética entrou em colapso, as elites americanas se convenceram de sua invencibilidade militar e de que seu modelo econômico representava o ápice do desenvolvimento humano. Essa arrogância levou diretamente às catástrofes no Iraque, Afeganistão e Líbia, e ao colapso financeiro de 2008. As elites americanas prometeram sonhos utópicos a esses povos e, em seguida, os arrastaram para um desastre após o outro. No âmbito interno, o próprio trumpismo emergiu da profunda desilusão resultante. Mas a resposta trumpista "América Primeiro" ao declínio americano consiste em substituir a dominância global por um império hemisférico.
O que resta, então, para os Estados Unidos? Quando os Estados Unidos derrotaram a Espanha no final do século XIX e tomaram as Filipinas, figuras proeminentes fundaram a Liga Anti-Imperialista Americana. "Sustentamos que a política conhecida como imperialismo é hostil à liberdade e tende ao militarismo", declararam, "um mal do qual gloriosamente nos livramos".
“Nenhuma nação pode perdurar por muito tempo sendo meio república e meio império”, declarou o Partido Democrata na eleição presidencial de 1900, “e alertamos o povo americano de que o imperialismo no exterior levará rápida e inevitavelmente ao despotismo em casa”. No fim, um império informal substituiu o colonialismo declarado, e a democracia americana, sempre profundamente falha, perdurou.
Diante do que está acontecendo, quem poderia dizer agora que aqueles alertas eram um exagero? O que acontece no exterior é inseparável do que acontece em casa. É o "bumerangue" imperial, como definiu o escritor martinicano Aimé Césaire ao analisar como o colonialismo europeu retornou ao continente na forma do fascismo.
Já vimos como o efeito bumerangue da “guerra ao terror” retornou ao seu país de origem: sua linguagem e lógica foram reaproveitadas nos EUA para repressão interna. “O Partido Democrata não é um partido político”, declarou Stephen Miller, um dos membros mais proeminentes da equipe de Trump na Casa Branca, neste verão. “É uma organização extremista doméstica.” Tropas da Guarda Nacional estão sendo mobilizadas para cidades governadas por democratas como força de ocupação, ecoando as ações militares no Afeganistão e no Iraque.
Nesse contexto, a tolerância de Trump às ambições russas na Ucrânia não é nenhum mistério. Segundo diversas reportagens, em 2019, a Rússia ofereceu aos EUA maior influência na Venezuela em troca da retirada de Washington da Ucrânia. Resta saber se esse acordo se concretizou.
O que é certo é que uma nova ordem mundial está emergindo. Uma nova ordem na qual potências cada vez mais autoritárias usam a força bruta para subjugar seus vizinhos e roubar seus recursos. O que antes poderia soar como uma fantasia distópica agora se desenrola diante dos nossos olhos. A questão é se temos os meios, a vontade e a capacidade de lutar contra isso.
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