Venezuela: a hora da perplexidade. Artigo de Omar Vázquez Heredia

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07 Janeiro 2026

A operação norte-americana na Venezuela parece ter surpreendido a todos: tanto aqueles que pensavam que ela afinal não ocorreria quanto os que acreditavam que a “extração” de Nicolás Maduro abriria o caminho para que María Corina Machado chegasse ao Palácio de Miraflores. Agora se inicia um processo complexo, com a então vice-presidenta, Delcy Rodríguez, à frente de um poder tutelado pelo próprio Trump, que se gaba de ser quem “manda” no país.

O artigo é de Omar Vázquez Heredia, publicado por Nueva Sociedad, janeiro de 2026.

Omar Vázquez Heredia é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e cientista político pela Universidade Central da Venezuela (UCV).

Eis o artigo.

A ação militar dos Estados Unidos, no âmbito da qual foram bombardeadas diferentes áreas do centro da Venezuela e capturado o presidente Nicolás Maduro, foi recebida com perplexidade e em modo de sobrevivência pela população venezuelana. O dia seguinte à invasão do território nacional foi marcado por uma curiosa calma. A vice-presidenta Delcy Rodríguez assumiu o poder, não houve presença militar nas ruas — e a de policiais e grupos paramilitares foi escassa —, e Donald Trump e Marco Rubio deixaram de lado María Corina Machado para a transição: “Acho que seria muito difícil para ela ser a líder. Ela não tem o apoio nem o respeito do país”. Uma reação aparentemente surpreendente para um presidente que havia reconhecido Edmundo González, o candidato de Machado, como vencedor das eleições presidenciais de 2024.

Um setor da população venezuelana encontra-se desconcertado porque muitos haviam descartado a possibilidade de uma operação militar norte-americana em território venezuelano após cinco meses do início das ameaças verbais de Trump, no contexto de um enorme deslocamento naval dos Estados Unidos no Caribe, próximo às costas da Venezuela. Outro setor está perplexo porque acreditava que a captura de Nicolás Maduro, em uma operação armada “cirúrgica”, implicaria a queda de todo o regime bolivariano e o início imediato de uma “transição democrática” sob a liderança de María Corina Machado e de um governo de Edmundo González.

A população venezuelana, treinada pela escassez e pela hiperinflação, dirigiu-se imediatamente a se abastecer em supermercados, farmácias, padarias e mercearias. Nesses locais, sem presença militar ou policial, observaram-se longas filas de pessoas em silêncio, com calma, aguardando sua vez para realizar compras com dólares em espécie ou, onde havia energia elétrica, com cartões de débito.

Mas aos problemas atuais soma-se agora a incerteza diante da possibilidade de Trump ordenar um novo ataque militar contra o território venezuelano para atingir o governo nacional liderado por Delcy Rodríguez. Nesse sentido, os venezuelanos sabem que suas liberdades e direitos democráticos seguem suspensos e restringidos, e também que o acesso a bens básicos, como energia elétrica, água, medicamentos e alimentos, provavelmente continuará sendo afetado pela ingerência norte-americana materializada nas sanções econômicas e, agora, nas operações militares.

O governo de Delcy Rodríguez tentou demonstrar que mantém a unidade da direção governamental: o Tribunal Supremo de Justiça determinou que a vice-presidenta assumisse como presidenta interina e, posteriormente, ela foi empossada diante da nova Assembleia Nacional. Dessa forma, tentou-se ocultar a perplexidade reinante após a captura de Nicolás Maduro — sem reação das Forças Armadas —, que leva os dirigentes a agir movidos pelo instinto de sobrevivência.

Delcy Rodríguez foi, na juventude, integrante da Liga Socialista, onde foi companheira de militância de Nicolás Maduro. Essa organização marxista-leninista, dissolvida em 2007 no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), foi fundada pelo pai da nova presidenta, Jorge Antonio Rodríguez. Esse antigo dirigente estudantil da Universidade Central da Venezuela foi assassinado em 1976, quando era torturado por agentes policiais durante o primeiro governo de Carlos Andrés Pérez (1973–1979). Delcy Rodríguez assumiu importantes responsabilidades no governo de Hugo Chávez, como o Ministério do Gabinete da Presidência. No entanto, permaneceu no cargo por apenas seis meses, deixando-o em meio a tensões com o então presidente.

Já quando Nicolás Maduro assumiu a liderança do chavismo em 2013, após a morte de Hugo Chávez, Delcy Rodríguez alcançou postos de primeira linha, entre eles a Vice-Presidência da República, o Ministério das Relações Exteriores e o estratégico Ministério do Petróleo e Mineração. Sempre atuou em tandem com o também poderoso Jorge Rodríguez, seu irmão, outro alto funcionário do madurismo, razão pela qual muitos se referem a eles como “os Rodríguez”.

Agora, o discurso oficial para justificar a nomeação de Delcy Rodríguez como presidenta interina recorre ao artigo 234 da Constituição Nacional, que estabelece os mecanismos para substituir o presidente em caso de falta temporária. Num primeiro momento, a então vice-presidenta reiterou sua lealdade a Maduro ao assumir o novo cargo e exigir sua libertação e retorno à Venezuela. No entanto, circula insistentemente uma versão — impossível de confirmar ou refutar hoje — de que teria havido um acordo com os Estados Unidos para levar adiante uma transição pós-Maduro, impulsionada por supostas negociações realizadas no Catar.

Não seria a primeira vez que surgem rumores sobre deslealdades a Maduro e se destaca o suposto empenho secreto de “os Rodríguez” em promover uma transição política ordenada e negociada. Em 2024, especulou-se que Jorge Rodríguez, recém-reeleito presidente da Assembleia Nacional, teria sido o responsável pela superestimação do apoio eleitoral ao oficialismo e quem recomendou permitir a participação de Edmundo González na eleição presidencial de 28 de julho daquele ano, em vez de bloquear a inscrição de qualquer candidato apoiado por María Corina Machado — ela própria inabilitada. Além disso, como ex-presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Jorge Rodríguez também não teria alertado sobre a necessidade de não entregar aos fiscais de mesa da oposição as atas eleitorais, que evidenciavam um resultado desfavorável ao governo. Na falta de informações, diversas versões de analistas venezuelanos e estrangeiros ocupam hoje as análises dos jornais.

Entretanto, o governo interino ratificou seu controle militar e policial sobre o território venezuelano, seu principal ativo em qualquer negociação com Donald Trump e que também parece ser o fator que provocou o não reconhecimento, por parte dos Estados Unidos, da legitimidade política de Machado.

O diálogo entre os governos de Trump e de Delcy Rodríguez já está aberto, e os primeiros sinais disso podem ser a continuidade da exportação de petróleo venezuelano ao mercado norte-americano, por meio da Chevron, e a manutenção dos voos de migrantes venezuelanos deportados dos Estados Unidos para a Venezuela. Trump anunciou que a nova mandatária pagará um alto preço “se não fizer a coisa certa” e, em linha com seu pronunciamento após o sequestro de Maduro — e com sua vontade de escrever um “corolário” próprio da Doutrina Monroe —, reafirmou que quer “acesso total a tudo” na Venezuela. Em uma entrevista, o magnata nova-iorquino declarou que é ele quem está “no comando” do país. Um grupo de quatro altos funcionários de sua máxima confiança ajudará a supervisionar essa “gestão”: o secretário de Estado, Marco Rubio, ideólogo da política de máxima pressão e da derrubada de Maduro; o chefe do Pentágono, Pete Hegseth; e seu assessor de política interna, o falcão Stephen Miller. Trump também confirmou que não haverá eleições na Venezuela nos próximos 30 dias. O presidente norte-americano quer todo o protagonismo, sem competidores.

Nesse contexto, o controle militar e policial do território venezuelano pelo governo de Delcy Rodríguez parece frágil por diferentes fatores: a captura de Nicolás Maduro sem uma resposta armada compatível com as capacidades defensivas da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) evidenciou as limitações de umas forças armadas nas quais o governo investiu somas enormes de dinheiro; os efetivos da FANB ainda se encontravam aquartelados dois dias após o ataque militar dos Estados Unidos; desde a eleição presidencial de julho de 2024 e sob o comando de Diosdado Cabello, houve um aumento do tamanho e do poder de fogo de componentes militares e policiais paralelos à FANB, como a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) e o Serviço Nacional Bolivariano de Inteligência (Sebin); por fim, é pouco provável que o resultado eleitoral de julho de 2024 — no qual o principal candidato oposicionista obteve, segundo as atas divulgadas, cerca de 70% dos votos — não se reflita nas preferências políticas dos oficiais e da tropa da FANB.

Em um “dia seguinte” de surpreendente tranquilidade, o governo de Delcy Rodríguez já faz esforços para restabelecer gradualmente a normalidade dos serviços públicos, do transporte e das atividades comerciais nas áreas residenciais mais afetadas pelo ataque militar. Isso parece indicar que o principal objetivo das ações do governo é demonstrar sua capacidade de governar a Venezuela. Essa é a carta que lhe permite se apresentar como o parceiro indispensável para manter a ordem pública no país e viabilizar o acesso dos Estados Unidos ao petróleo venezuelano — a obsessão de Trump —, em um contexto de deterioração da infraestrutura petrolífera da Venezuela.

Por fim, as diversas frações da oposição, tanto dentro quanto fora da Venezuela, mantêm posições variadas: o setor tradicional liderado por María Corina Machado celebrou a ação militar norte-americana, assim como a captura de Nicolás Maduro, mas mantém silêncio diante do não reconhecimento de sua liderança e da declaração de Trump na qual ele se assumiu como administrador colonial de facto da Venezuela. Isso é particularmente duro para uma dirigente que há anos vinha reivindicando uma ação militar de Washington e que, após sua bem-sucedida concretização, declarava estar pronta para “assumir o poder”. O setor oposicionista tradicional moderado também não questiona diretamente a ação militar dos Estados Unidos, mas exige o restabelecimento da democracia no país. Por fim, a oposição de esquerda e o chavismo crítico interpretam o ocorrido como um ataque imperialista, ao mesmo tempo em que evitam qualquer apoio a Maduro e, agora, a Delcy Rodríguez.

Infelizmente, tudo indica que, no curto prazo, o futuro da Venezuela dependerá das ameaças armadas de Donald Trump e da capacidade da presidenta interina de obter e conservar o respaldo do aparato militar e policial. Assim, parece que ainda estamos longe do momento em que o povo venezuelano, no exercício de sua soberania, possa decidir livremente seu futuro em eleições nacionais nas quais todas as correntes políticas existentes na sociedade venezuelana possam participar em condições de igualdade. O próprio Marco Rubio descartou uma convocação eleitoral no curto prazo, em nome da necessidade de resolver problemas mais urgentes.

Em consequência, os cenários políticos para a Venezuela parecem resumir-se a dois. No primeiro, Delcy Rodríguez — ou outro líder chavista, caso ela seja deslocada — consegue consolidar um madurismo sem Maduro, no qual se mantêm a suspensão e a restrição das liberdades e dos direitos democráticos enquanto, como já vinha fazendo desde a Vice-Presidência Econômica, a própria Delcy Rodríguez dá continuidade à abertura da economia em benefício do capital transnacional e nacional. Nesse sentido, para além dos atuais acordos da Petróleos da Venezuela (PDVSA) com a Chevron, também poderiam ser viabilizadas melhores condições para essa e outras empresas petrolíferas norte-americanas, assim como a suspensão da associação com capitais petrolíferos chineses e da exportação de petróleo venezuelano para a China.

No segundo cenário, Delcy Rodríguez aceita — ou é forçada a aceitar — o desmonte progressivo do madurismo, mantendo, porém, a abertura econômica com benefícios para o capital petrolífero norte-americano. Dessa forma, o governo poderia negociar, em troca de impunidade, uma anistia geral para todos os presos políticos, a devolução às suas legítimas direções nacionais dos partidos oposicionistas de direita e de esquerda que foram judicialmente intervencionados e, por fim, a convocação de eleições livres para todos os cargos eletivos.

A recente reeleição de Jorge Rodríguez como presidente da Assembleia Nacional para o ano de 2026 é outra demonstração do peso dos irmãos Rodríguez na sucessão de Maduro e no interior do emaranhado governamental chavista. Em caso de ausência da presidenta da República, Delcy Rodríguez deverá ser substituída por seu irmão.

A promulgação do Decreto de Estado de Comoção Exterior, assinado por Maduro em setembro passado, mas publicado após a intervenção militar norte-americana, também reafirma a continuidade da suspensão e restrição de direitos e liberdades democráticas, pois em seu artigo 5º ordena a busca e captura das pessoas envolvidas na promoção e no apoio ao ataque armado dos Estados Unidos, acusação que pode ser instrumentalizada para perseguir opositores.

Atualmente, as forças de esquerda e progressistas da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa, além de condenarem a ação militar de Donald Trump em território venezuelano, também deveriam fazer um chamado ao respeito aos direitos humanos e democráticos por parte do governo de Delcy Rodríguez. O anti-imperialismo é autoritário quando não vem acompanhado da exigência de respeito aos direitos fundamentais e quando nega a possibilidade de diálogo com a imensa maioria da população venezuelana.

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