07 Janeiro 2026
A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela parece redefinir a estratégia de mudança de regime para o século XXI. Como entender o que aconteceu nos últimos dias e o que pode ocorrer no futuro imediato? O que a estrutura do Estado venezuelano nos diz sobre o dia seguinte à captura de Maduro pelas forças militares norte-americanas?
O artigo é de Andrés Izarra, jornalista venezuelano, foi ministro Comunicação e Informação em três ocasiões durante o governo de Hugo Chavez e ministro de Turismo durante o governo de Nicolás Maduro entre 2013 y 2015. Atualmente vive no exílio, publicado por Nueva Sociedad, janeiro de 2026.
Eis o artigo.
A madrugada de 3 de janeiro, Donald Trump fez o que muitos dizíamos que ele não poderia fazer sem pagar um alto custo: uma mudança de regime na Venezuela. Helicópteros Chinook com forças Delta entraram em Caracas, sequestraram Nicolás Maduro e o depositaram horas depois em uma cela no Brooklyn. No dia 5 de janeiro, ele foi apresentado a um juiz federal sob acusações de narcoterrorismo.
Impecavelmente suspeita
Para levar o presidente panamenho Manuel Antonio Noriega em 1989, os Estados Unidos tiveram que arrasar El Chorrillo e matar centenas ou milhares de pessoas. A operação levou quase um mês.
Onde estava agora o Exército “chavista”? Os coletivos armados? A Milícia Bolivariana? Os sistemas antiaéreos russos? A “guerra popular prolongada” que prometiam? “O difícil não é entrar, é sair”, alardeavam. Mas os norte-americanos entraram, saíram e levaram Maduro sem a mais mínima resistência.
A história ainda terá de esclarecer os detalhes da negociação que abriu as portas de uma prisão federal de segurança máxima nos Estados Unidos para Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
O êxito tático não foi apenas das forças especiais norte-americanas. A única explicação para tamanha precisão parece ser uma traição perfeitamente executada.
O triunfo estratégico
Essa operação redefine a “mudança de regime” para o século XXI à luz dos pântanos do Iraque e do Afeganistão. Seu triunfo estratégico é alcançar o controle efetivo da Venezuela sem pagar o custo do nation building. Não há reconstrução institucional, nem desarmamento de milícias, nem criação de novas forças de segurança. Não há ocupação com milhares de soldados por uma década. Não há insurgência, nem vazio de poder, nem caos a administrar.
Trump disse sem rodeios: trata-se da captura de recursos, começando pelo petróleo. A democracia pode esperar.
O que Trump busca executar hoje, com a colaboração entusiasmada dos irmãos Delcy e Jorge Rodríguez — nova presidenta interina da República e presidente da Assembleia Nacional, respectivamente — não é uma libertação: é uma apropriação neocolonial. Donald Trump se arroga, pela pura força, o direito de governar o país. De decidir quem manda e quem não manda. De abrir o subsolo venezuelano às suas petroleiras. De administrar um país de 30 milhões de pessoas como se fosse uma concessão.
Se isso fosse uma transição democrática, se Delcy Rodríguez fosse a ponte temporária que alguns imaginam, haveria eleições em meses, e não um período de acomodação à ocupação petrolífera norte-americana. Por isso, María Corina Machado foi tirada do jogo pelo mandatário norte-americano, que não se privou sequer de humilhá-la dizendo que ela não tem a “legitimidade” nem o “respeito” do país. Ou seja, a possível chegada ao poder da outrora elogiada líder oposicionista gerava o risco de que os Estados Unidos tivessem de se envolver demais na manutenção da ordem no país, com os riscos que isso implica — e as dificuldades de Trump para justificá-los internamente.
Curiosamente, Machado — que deixou a Venezuela com apoio dos Estados Unidos para receber o Prêmio Nobel da Paz na Noruega — continuava fora do país, ao qual deveria retornar também com apoio norte-americano quando a operação militar foi concretizada.
A mudança de regime não foi para a democracia venezuelana. Foi para estabelecer o controle ianque.
Isto não é República Dominicana
Dizem que Delcy seria uma Balaguer: a continuísta que prepara a transição democrática. A analogia, repetida nesses dias, refere-se a Joaquín Balaguer que, surgido das entranhas do regime dominicano, assumiu a Presidência em 1960 como fantoche do ditador Rafael L. Trujillo e o sucedeu após seu assassinato em 1961. A transição recaiu sobre ele, e não sobre o opositor Juan Bosch. “Em vez de romper com Trujillo, [Balaguer] adaptou o trujillismo a uma nova linguagem, mais suave, mais apresentável à comunidade internacional, mas com a mesma lógica de controle clientelista, personalismo e verticalidade do poder.” Foi uma “ponte invisível entre épocas, entre a ditadura e a democracia”.
Mas Delcy Rodríguez não é Balaguer.
Trujillo construiu um regime personalista, encarnava o Estado. Quando o mataram, o vazio era inevitável. Balaguer funcionou como amortecedor enquanto a transição era organizada.
O madurismo é outra coisa. Não é um regime personalista, mas patrimonial: uma rede de militares, burocratas e empresários que capturou o Estado para administrá-lo como espólio. Um regime não se define pelos nomes que o ocupam nem por sua retórica. Define-se por como o poder funciona: a quem deve lealdade, sob que pressões opera, quais são os limites do que pode fazer ou dizer.
Durante anos, o madurismo se legitimou, ao menos no discurso, por sua “resistência” aos Estados Unidos. Podia ser corrupto, autoritário ou incompetente, mas era “anti-imperialista”. Essa ficção lhe dava coesão interna e respaldo político. Mas ela acabou.
Delcy Rodríguez não representa uma sucessão pessoal, como Balaguer, mas a continuidade de um projeto político que foi capturado.
Não destruir o Estado, capturá-lo
A nova presidenta interina da Venezuela está onde está porque Trump a colocou ali. Deve o cargo a Washington. Pode repetir palavras de ordem, manter o gabinete, invocar Hugo Chávez, até mesmo liderar a campanha “Free Maduro”. Mas a substância do regime mudou. De fato, trata-se de um poder subordinado às diretrizes norte-americanas.
O triunfo de Trump foi tirar Maduro do volante com o carro em movimento e sentar-se ele mesmo.
Quando cai o líder de um regime personalista, o sistema colapsa. Não há Estado sem ele. Quando cai o chefe de uma máfia, a estrutura não colapsa: adapta-se. Busca um novo patrão. Negocia sua sobrevivência. As lealdades não são ideológicas nem morais. São contratuais. O que importa é continuar no negócio.
Por isso Trump pôde tirar o chefe sem desmontar a estrutura. Não destruiu o aparato chavista para construir algo novo. Capturou-o e o colocou para trabalhar para si. Esse é o câmbio de regime perfeito. Não porque seja moralmente aceitável ou legalmente justificável, mas porque alcança o objetivo: controlar um país sem arcar com os custos que afundaram os Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
Não será preciso explicar por que há tropas morrendo em Caracas daqui a cinco anos. Nem justificar trilhões de dólares em reconstrução. Haverá petróleo fluindo, contratos assinados e um governo local que obedece sem que Washington precise governar diretamente. Por isso isso é histórico. Não pela operação militar, mas pelo modelo que inaugura.
Não destruir Estados. Capturá-los.
Não ocupar territórios. Controlar elites.
Não construir nações. Redirecionar as existentes.
E tudo funcionou porque o regime de Maduro não era revolucionário, mas mafioso. E Estados mafiosos, por sua própria natureza, são transferíveis.
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