Os sem religião superam os católicos em 11 municípios brasileiros. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Foto: David Kouakou | Pexels

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24 Setembro 2025

"Estes onze municípios brasileiros onde o grupo sem religião é maior do que católicos indica um processo importante de secularização, com menor influência das religiões organizadas nas escolhas cotidianas e instituições sociais, maior presença de pessoas com identidade religiosa frouxa ou nula (ateus, agnósticos, espiritualistas sem vínculo formal etc.) e também maior desinstitucionalização da fé, isto é, pessoas que mantêm crenças, mas não se identificam com igrejas ou doutrinas específicas" escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, em artigo publicado por EcoDebate, 24-09-2025.

Eis o artigo.

O Brasil é um país de maioria católica, com os evangélicos vindo como segundo grupo mais numeroso, seguido do grupo sem religião e do grupo das demais religiões, considerando a escala geográfica nacional. Em dois estados e em 245 municípios os evangélicos superam os católicos.

Mas a tabela abaixo mostra que existem 11 municípios onde o percentual de pessoas que se declaram sem religião superam os católicos, sendo que em três municípios os sem religião são o grupo majoritário em 2022.

Em primeiro lugar, pela ordem decrescente do tamanho da população de 10 anos e mais, a cidade de Belford Roxo, na região metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), com 417,6 mil habitantes (de 10 ano +) apresentou um percentual maior de evangélicos (36,3%), seguido pelo percentual do grupo sem religião (27%) superior ao percentual de católicos (26,7%) e com as demais religiões em quarto lugar (10%). Dado ao tamanho da população de Belford Roxo, a posição de terceiro lugar dos católicos é um indicativo de avanço da pluralidade religiosa no município.

Os três municípios seguintes da tabela são também da RMRJ e possuem características comuns com Belford Rocho, isto é, possuem maioria relativa de evangélicos, com o grupo sem religião superando o grupo de católicos.

O menor município, em termos demográficos, da tabela é Arroio do Padre, do Rio Grande do Sul (RS), com 2,4 mil habitantes (acima de 10 anos), mas é a cidade com o maior percentual de evangélicos do país. No caso não se trata de uma transição religiosa, pois o município de Arroio do Padre já surgiu com maioria protestante, uma vez que a maioria dos moradores é descendente de pomeranos e falam o dialeto trazido da Pomerânia (região histórica da Alemanha, hoje pertencente à Polônia). O percentual de católicos é o menor do Brasil, ficando abaixo do percentual do grupo sem religião.

Reprodução: EcoDebate

Cabe destacar que há três municípios cujo percentual majoritário é do grupo sem religião. Em Atalaia do Norte, cidade do Amazonas na fronteira com o Peru, as pessoas que se declaram sem religião são 26,2%, valor superior ao 25,8% dos católicos e 24% tanto dos evangélicos, quanto das outras religiões. Na cidade de Pedro Osório, no Rio Grande do Sul (RS) o percentual do grupo sem religião foi de 30,5% em 2022, acima de 29,9% dos católicos e de 25,4% dos evangélicos.

Mas, na tabela, o maior percentual de pessoas que se declaram sem religião (37,8%) ocorre em Chuí, a cidade mais meridional do Brasil na fronteira com o Uruguai, que tem 35,6% de católicos, 19,2% de outras religiões e apenas 7,4% de evangélicos. Chuí pode ser considerada a cidade mais secularizada do país.

Estes onze municípios brasileiros onde o grupo sem religião é maior do que católicos indica um processo importante de secularização, com menor influência das religiões organizadas nas escolhas cotidianas e instituições sociais, maior presença de pessoas com identidade religiosa frouxa ou nula (ateus, agnósticos, espiritualistas sem vínculo formal etc.) e também maior desinstitucionalização da fé, isto é, pessoas que mantêm crenças, mas não se identificam com igrejas ou doutrinas específicas.

Esse fenômeno mostra que a transição religiosa no Brasil não é só uma troca entre católicos e evangélicos. Há também um crescimento expressivo da não filiação religiosa, o que reflete novos valores ligados à autonomia individual, desconfiança nas instituições religiosas ou espiritualidade difusa.

Esses municípios podem funcionar como exemplos de locais onde o pluralismo, a tolerância e a liberdade de crença (inclusive a descrença) estão mais avançados. Esse fenômeno fortalece a noção de que o Brasil caminha para um modelo mais pluralista e descentralizado religiosamente — onde nenhum grupo será majoritário em todos os contextos.

Referências

ALVES, JED et al. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242, Aqui.

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI, Escola de Negócios e Seguro (ENS), (com a colaboração de Francisco Galiza), maio de 2022, Aqui.

ALVES, JED. A transição religiosa no Brasil: 1872-2049, Ecodebate, 09/06/2025, Aqui.

ALVES, JED. Transição religiosa em Japeri (RJ) e no Brasil, Ecodebate, 16/06/2025, Aqui.

ISER. Censo 2022: reflexões sobre religiões e sociedade. Debate com José Eustáquio Alves e Paul Freston, mediado por Christina Vital, 03/07/2025, Veja aqui.

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