• Início
  • Sobre o IHU
    • Gênese, missão e rotas
    • Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros
    • Rede SJ-Cias
      • CCIAS
      • CEPAT
  • Programas
    • Observasinos
    • Teologia Pública
    • IHU Fronteiras
    • Repensando a Economia
    • Sociedade Sustentável
  • Notícias
    • Mais notícias
    • Entrevistas
    • Páginas especiais
    • Jornalismo Experimental
    • IHUCAST
  • Publicações
    • Mais publicações
    • Revista IHU On-Line
  • Eventos
  • Espiritualidade
    • Comentário do Evangelho
    • Ministério da palavra na voz das Mulheres
    • Orações Inter-Religiosas Ilustradas
    • Martirológio Latino-Americano
    • Sínodo Pan-Amazônico
    • Mulheres na Igreja
  • Contato
close
search
  • Início
  • Sobre o IHU
    • Gênese, missão e rotas
    • Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros
    • Rede SJ-Cias
      • CCIAS
      • CEPAT
  • Programas
    • Observasinos
    • Teologia Pública
    • IHU Fronteiras
    • Repensando a Economia
    • Sociedade Sustentável
  • Notícias
    • Mais notícias
    • Entrevistas
    • Páginas especiais
    • Jornalismo Experimental
    • IHUCAST
  • Publicações
    • Mais publicações
    • Revista IHU On-Line
  • Eventos
  • Espiritualidade
    • Comentário do Evangelho
    • Ministério da palavra na voz das Mulheres
    • Orações Inter-Religiosas Ilustradas
    • Martirológio Latino-Americano
    • Sínodo Pan-Amazônico
    • Mulheres na Igreja
  • Contato
search

##TWEET

Tweet

Testemunhas do Evangelho dos Pobres: bispos que fazem falta. Artigo de Gabriel Vilardi

Mais Lidos

  • A sedução dos primeiros lugares. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • A conspiração neorreacionária de Curtis Yarvin. Artigo de Ava Kofman

    LER MAIS
  • A deriva de Trump e os silêncios do mundo. Artigo de Nathalie Tocci

    LER MAIS

Vídeos IHU

  • play_circle_outline

    21º domingo do tempo comum – Ano C – Na prática da justiça, o Reino se faz presente entre nós

close

FECHAR

Revista ihu on-line

Entre códigos e consciência: desafios da IA

Edição: 555

Leia mais

A extrema-direita e os novos autoritarismos: ameaças à democracia liberal

Edição: 554

Leia mais

Arte. A urgente tarefa de pensar o mundo com as mãos

Edição: 553

Leia mais

COMPARTILHAR

  • FACEBOOK

  • Twitter

  • LINKEDIN

  • WHATSAPP

  • IMPRIMIR PDF

  • COMPARTILHAR

close CANCELAR

share

30 Agosto 2025

Oxalá que as comunidades eclesiais, as dioceses e a Cúria Romana se preocupem menos com a “desgraça da falta de padres” e possam se sensibilizar mais com a chaga do clericalismo, elitista e ultrapassado. Com todo o grato reconhecimento aos pastores compromissados com o Povo de Deus, a Igreja do futuro sobreviverá ao acentuado declínio dos padres. Mas sobreviverá à insensibilidade aos mais pobres?

O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, bacharel em Direito pela PUC-SP e bacharel em Filosofia pela FAJE. É mestrando no PPG em Direito da Unisinos e integra a equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. 

Eis o artigo.

O Papa Leão XIV disse recentemente que “a falta de padres [...] no mundo, é uma grande infelicidade!”. “Uma desgraça para a Igreja!”, reiterou o pontífice. Palavras que se poderia dizer um tanto exageradas, considerando a situação catastrófica que o mundo enfrenta, com a carnificina na Ucrânia e o extermínio em Gaza. Um mundo que parece prestes a irromper em um conflito atômico, enquanto o desvario do presidente da ainda maior potência global insiste em atacar países aliados, migrantes indefesos e as soluções climáticas multilaterais. Será que a desgraça mais latente não está na falta de cristãos e pastores profundamente comprometidos com o coração do Evangelho?

Neste 27 de agosto se celebrou a vida-testemunho de três seres humanos que se devotaram ao seguimento radical de Jesus de Nazaré, o companheiro fiel dos últimos e marginalizados. Três Bispos da Caminhada, pastores aliados das causas populares, que souberam encarnar o espírito do Concílio Vaticano II. Discípulos fieis que viveram, com especial abertura aos empobrecidos, “o amor universal até o dom de si tornar-se possível exatamente porque o ser humano se experimenta possuído em seu íntimo por Deus” (Almeida, 1996, p. 22).

Do litoral do Ceará passando pelo Rio de Janeiro até Recife, Dom Helder Câmara, o pequeno-gigante fez tremer os militares-ditadores. Das montanhas de Minas Gerais, com uma passagem por Araçuaí e seu longo ministério na Paraíba, o primeiro bispo negro, Dom José Maria Pires – batizado por Pedro Casaldáliga como Dom Zumbi, como o grande líder do Quilombo dos Palmares – ajudou a Igreja a se defrontar com a ancestralidade afro. E das praias cariocas, chamado para auxiliar o Cardeal dos Direitos Humanos em São Paulo, ao pastoreio na tradicional Mariana, Dom Luciano Mendes de Almeida tornou-se referência do diálogo afável aliado à profecia de uma Igreja Samaritana.

Quando se contempla a vida desses Bispos da Igreja em Saída facilmente se percebe o testemunho de santidade e serviço ao Reino. Cristãos generosos que não escolheram o caminho da falsa prudência calculista ou a comodidade covarde dos amigos do status quo. Entretanto, vale destacar que também esses homens, líderes admirados da Igreja, tiveram suas hesitações e contradições ou tiveram mesmo que redefinir seus caminhos.

Se mais tarde será chamado de bispo vermelho e terá um dos seus colaboradores mais próximos assassinados pela ditadura civil-militar – o jovem Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, barbaramente torturado –, Dom Helder teve seu “pecado da juventude”, o apoio ao abjeto integralismo. O contato com o líder fascista Plínio Salgado e sua Ação Integralista Brasileira (AIB) estava fundado em uma ideia de catolicismo triunfante, muito próximo da concepção de neocristandade tão em voga em alguns grupos ultra conservadores de hoje.

Chegara a escrever, inclusive: “violentos seremos, não o negamos, contra os inimigos de Deus” (Rampon, 2013, p. 75). Mais tarde confessaria, com a desconcertante humildade característica: “tinha vinte e cinco anos. Era um ingênuo [...]. Mas ainda muito jovem, percebi o grande equívoco daquela visão simplista do mundo” (Renedo apud Rampon, 2013, p. 51). Dom Helder tomou consciência de que “aquele catolicismo ‘estava fora de lugar’” e, por isso, irá romper com o integralismo e tal “catolicismo conservador que herdara do Seminário” (Rampon, 2013, p. 74).

No ano de 1936 lerá de Jacques Maritain, o Humanismo integral, que se posiciona contra todas as formas de totalitarismo e defende o pluralismo religioso. Tal livro deixará um forte impacto na sua compreensão de mundo e na abertura para a democracia e a diversidade. Foi nessa época também, por volta de 1937, que sentirá o desejo de ser jesuíta. Acompanhado espiritualmente pelo Pe. Leonel Franca, SJ discernirá que o Senhor tinha outros planos para ele (Rampon, 2013, p. 70). Bendito seja o Pe. Franca, caso contrário, provavelmente não conheceríamos o futuro grande artífice do Vaticano II!

“Essa nova visão de vida e de santidade revelam o grande desenvolvimento espiritual acontecido na vida do Pe. Helder entre os anos de 1936 a 1946”. Vale ressaltar que “foi nesse período também que Francisco de Assis se tornou uma referência fundamental para a sua espiritualidade” (Rampon, 2013, p. 75):

“A busca do ‘novo estilo de santidade’ foi uma ‘luz’ na vida do Pe. Helder. Progressivamente, ele foi mudando seu pensamento e suas práticas, superando, ou melhor, abandonando a visão católica ultraconservadora. Em 1942, quando as Forças Armadas cessaram de dar apoio a Getúlio Vargas e crescia no país o movimento pela democracia através dos aliados contra os regimes nazifascistas europeus, o Pe. Helder não escondeu sua simpatia pelo movimento democrático. Em seu discurso, como convidado de honra dos laureados na Faculdade de Filosofia, em 1944, pediu aos cristãos para evitar o ‘farisaísmo de julgar que nós burgueses [somos] representantes de ordem social e da virtude, ao passo que os comunistas encarnam a desordem, o desequilíbrio e o desencadeamento das forças do mal’; e completou dizendo: ‘Nós, também, temos nossas falhas e os nossos pecados... pois encobrimos injustiças sociais gritantes com esmolas generosas e espetaculares’” (Rampon, 2013, p. 75).

Outra obra que marcará a sua vida será São Francisco de Assis e a revolução social, escrita pelo uruguaio Ernesto Pinto. Lido em 1940, “a vida de São Francisco de Assis tornou-se, portanto, uma importante fonte de inspiração no caminho espiritual do Pe. Helder”. Como observa Rampon (2013, P. 76), “o seu Santo predileto será inspiração para as mudanças que realizará na Arquidiocese de Recife durante e após o Vaticano II e para a sua missão de ‘peregrino da paz’ em busca da ‘Senhora Justiça’”.

Nos passos do concílio, “no lugar dos sinais de ‘Bispo-príncipe’ preferia os sinais de ‘Bispo-pastor’”. E como “’Bispo-pastor’ afirmou que não era preciso chamá-lo de ‘monsenhor’, ‘excelência’...“Padre Helder e basta’” (Rampon, 2013, p. 180-181). Afinal, “o Concílio, na concepção helderiana, não foi apenas um evento, mas um espírito, um programa de vida, uma concepção eclesial”. Seu desejo era “superar a era constantiniana, levando a Igreja aos ‘perdidos caminhos da pobreza’” (Rampon, 2013, p. 194).

O seu despojamento e simplicidade não foram somente uma opção pessoal, mas sim um modelo teológico-eclesial sonhado para toda a Igreja. O bispo sabia como as grandes e complexas estruturas podem engessar e impedir uma maior fidelidade ao Evangelho. Nesse sentido, confessou certa feita que:

“se sentia inspirado pelo Papa: ‘Paulo VI me declarou que só acredita que o Papa se possa livrar de excessos não evangélicos de sua apresentação externa se os Bispos do mundo inteiro derem o primeiro passo...’. O Arcebispo já havia se livrado da Aero Willys e aberto o Palácio aos pobres, mas também queria tirar o ‘nome’ e o ‘ar’ de Palácio do querido São José de Manguinhos, queria desfazer-se dos dois tronos, das cadeiras nobres, dos tapetes e aproveitar melhor as salas vazias: ‘Dom José lembra que eu preciso das salas para receber Comissões... Dessa maneira, o Santo Padre jamais se livrará do Vaticano!’” (Rampon, 2013, p. 177).

Mesmo limitado pelos condicionamentos das burocráticas cúrias e das oposições internas, Dom Helder tornou-se uma incansável voz universal. Confiante “na força da violência dos pacíficos”, apostou “não na violência das armas, mas na violência de Gandhi e de Martin Luther King: na violência de Cristo”. Acreditava que “somente os seres humanos que realizam em si mesmos a unidade interior: somente os seres humanos de visão planetária e coração universal serão instrumentos válidos para os milagres de serem violentos como os profetas, verdadeiros como o Cristo, revolucionários como o Evangelho, porém sem ferir o amor” (Rampon, 2013, p. 476).  

Por isso, jamais seguiu só no caminho, mas acreditava na força da comunidade. E um dos seus fieis companheiros era Dom Zumbi, o arcebispo da Paraíba. Juntos denunciaram as atrocidades do regime ditatorial. Mas também Dom José Maria Pires reconsiderou suas posições e ampliou seus horizontes, diante dos sinais gritantes da realidade. Nos primeiros anos após o golpe, sua posição era pró-militares, como apontou anos depois:

“Quem lhes fala nesse momento é um bispo que aplaudiu calorosamente a revolução de 1964. Nessa época eu vivia no interior de Minas Gerais, à frente da diocese de Araçuaí. Com antecedência me fora comunicado por funcionário do governo que Minas Gerais ia rebelar-se contra o Governo Federal e daria início a um movimento de salvação nacional visando combater a corrupção e toda sorte de desmando na área oficial e impedir que o comunismo tomasse conta do Brasil. Creio que toda a Hierarquia, salvo uma ou outra tímida exceção – e que houve-, sentiu um grande alívio com o triunfo da Revolução” (Sampaio, 2005, p. 157).

Daí se pode depreender como o discurso moralizador e supostamente anti-corrupção possui raízes antigas e está atrelado a manipulações perigosas. Naquele início dos anos 1960 algumas forças políticas se aliaram para promover a instabilidade e boicotar um governo democrático, com sua agenda de reformas populares. Com a ingerência inaceitável dos Estados Unidos, as Forças Armadas embarcaram no projeto autoritário.

Um ambiente, a propósito, bastante similar ao que o país vem enfrentando nos últimos anos. Em 2022, apesar da insistente tentativa golpista do ex-presidente da República, os Estados Unidos foram firmes ao dizerem que não apoiariam qualquer deriva antidemocrática. Todavia, sob a nova presidência Trump o cenário mudou. Posições flagrantemente fascistas são cada vez mais comuns naquela que até então era tida como uma das maiores democracias do mundo. Relativizar as graves ameaças ao Estado de Direito que o Brasil tem sido submetido não passa de pura tolice irresponsável.

Dom José Maria Pires logo percebeu o engano em que havia caído e nos anos seguintes tornou-se um radical defensor da justiça social. O medo do comunismo foi se transformando na luta por maior igualdade e direitos para o povo oprimido. Nessa esteira defendeu em entrevista alguns anos após o golpe:

“A pouco e pouco vamos terminar batizando o socialismo. Não no que ele tem de materialista, mas no que apresenta de humano. Não admitimos um socialismo de estado que é mera transposição do capitalismo. O Estado passa a ser o grande patrão e todos os cidadãos, seus empregados. Nem um socialismo desumanizante, sem alma e sem Deus. Mas um socialismo por assim dizer inspirado no evangelho, um socialismo e São Francisco de Assis, para falar dos Antigos, ou a Jorge La Pira, para citar gente viva. Foi ele que afirmou mais ou menos o seguinte: ’Uma sociedade na qual o homem não tem sua casa é desumana, mas a sociedade em que deus não tem uma casa é igualmente desumana’” (Revista Veja, 1968, p. 53).

Um cristianismo que não se preocupa com os excluídos é um cristianismo autocentrado e esvaziado da força da Boa Nova. Como ensina o Papa Francisco, no número 180 da Evangelii Gaudium, “por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais”. Afinal, “a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano”. Logo, “não podemos evitar de ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para que os grandes princípios sociais não fiquem meras generalidades que não interpelam ninguém” (nº 182).

E Dom Luciano Mendes de Almeida foi um desses homens que buscou dar concretude ao Evangelho da Justiça. Ainda que para alguns o bispo jesuíta às vezes pudesse soar conciliador demais, porque insistia no diálogo e na escuta atenta. Isso lhe acarretou certas críticas daqueles que compreensivelmente esperavam respostas mais assertivas e contundentes. Todavia, mesmo circulando nas altas esferas do poder e contando com a simpatia de expoentes do episcopado conservador, nunca deixou de assumir o lado dos empobrecidos.

Segundo seu irmão Cândido Mendes (2007, p. 63), “o profetismo de Luciano evidenciava-se justamente por essa toma da palavra, a irradiar-se pela sua cautela-limite também do aguilhão do discernimento na limpidez das conclusões”. Por essa razão, era o “candidato ideal, ao mesmo tempo, para presidir encontros e, sobretudo, ser o relator de suas conclusões”.

No XI Congresso da Associação Nacional de Educação Católica (ANEC), em 1983, Dom Luciano já pontuava:

“Em primeiro lugar, a constatação é essa que Puebla lembrava: de injustiça social, uma injustiça que podemos perceber por meio de três aspectos característicos: 1) O primeiro no Brasil é a situação da terra, essa terra que está, ainda hoje, mal repartida, terra que tem sido o lugar da iniquidade, da ganância, diante também de projetos grandiosos que infelizmente têm lesado a muitos pequenos lavradores. [...] 2) O segundo quadro é o das nossas grandes cidades; [...] Quantos dos nossos irmãos enfrentam duramente condições subumanas nos bolsões de pobreza. [...] 3) O terceiro aspecto de injustiça é a condição dos povos indígenas em nosso país. É grave a responsabilidade de nossa geração para com as populações indígenas, que lutam pela sobrevivência física e cultural” (Almeida, 1996, p. 40-41).

Dom Luciano provavelmente ficaria estarrecido diante dos ataques orquestrados contra os povos indígenas, nos últimos anos. Primeiro, teria dificuldades de entender as justificativas para a ineficácia do comando constitucional (art. 231) que determina a demarcação dos territórios indígenas, quase quarenta anos depois da promulgação do Texto Fundamental. O jesuíta trabalhou com força para influenciar de forma positiva na garantia dos direitos dos movimentos sociais, inclusive, a proteção das comunidades indígenas na então nascente Constituição Cidadã.

Conforme os dados do último Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas, existem 555 terras indígenas sem qualquer providência administrativa para a sua regularização e outras 174 a serem identificadas pela Funai. Os retrocessos do governo Bolsonaro, aprofundados pelo atual Congresso anti-indígena serão “a maior catástrofe para os direitos dos povos indígenas do Brasil desde sua consolidação na Constituição Federal de 1988” (Relatório, 2025, p. 67).

Assim, Dom Luciano faria suas as claras palavras do Cimi – que tantas vezes foi defendido por ele diante das calúnias dos militares, latifundiários e parte da imprensa: “invalidar a Lei 14.701, rechaçar propostas legislativas que atacam os territórios indígenas, como o PDL 717, e extinguir a tese do marco temporal é vital para a garantia dos direitos e do bem estar dos povos indígenas e seus territórios no Brasil” (Relatório, 2025, p. 67).

Com grande capacidade de governo, “Luciano pôde encarnar, nos dezesseis anos de Secretaria Geral e de Presidência na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a última etapa em que o pluralismo das Igrejas nacionais poderia afirmar-se na sua especificidade antes das terraplenagens globalizantes” (Mendes, 2007, p. 75). Mesmo em posições de destaque e mediação conseguiu manter inabaláveis seus princípios, sem negociar suas convicções evangélicas:

“Quanto podemos aprender com os simples, com os pobres, vendo como neles crescem as sementes do Evangelho! Se nos tornarmos solidários, se nos colocarmos na perspectiva do pobre, aprenderemos a superar a injustiça, recorrendo um ao outro, dividindo com os outros, na convivência cotidiana, alegrias e sofrimentos da vida. Tudo isso exige conversão de coração e nos fará experimentar a alegria da fraternidade” (Almeida, 1996, p. 49).

Três bispos servidores do Reino, sensíveis aos marginalizados, aliados das causas sociais. Homens diversos, com formações distintas, origens bastante variadas e experiências múltiplas. Com toda certeza não são modelos etéreos, embalados em um perfeccionismo hagiográfico, falso e asséptico. Foram cristãos que tiveram suas contradições e incoerências, medos e covardias, idiossincrasias e fragilidades. E, por isso, plenamente humanos, complexos e com suas nuances.

Tais fatos em nada atingem a exemplaridade de seus testemunhos, cheios de sentido e densidade. Ao contrário, comprovam que Deus atua na história das maneiras mais inusitadas e que a abertura para repensar o caminho é fundamental. Rigidez, inflexibilidade e severidade não combinam com o seguimento de Jesus. Como na passagem da mulher sírio-fenícia, Jesus se deixa interpelar pelo desconhecido e refaz suas convicções. O seguimento é sempre inacabado, incompleto, em constante (re)construção.

A memória desses pastores reveste-se de crucial relevância para os dias atuais. Ademais seus ministérios são exemplos palpáveis do centro essencial do Evangelho. As preocupações comuns que assolam bispos e presbíteros, tais como a diminuição do clero e o envelhecimento de suas comunidades, a perda de recursos financeiros e a declínio da influência da instituição eclesial não tocam o coração da Boa Nova do Nazareno. Não passam de meras distrações, acessórias, secundárias e superficiais.

Depois do impulso dado pelo Papa Francisco, resta saber se as conferências episcopais e as Igrejas locais seguirão na trilha da alegria do Evangelho. Dom Helder continua provocando a cada um e cada uma com suas palavras embebidas de lucidez:

“Assim como na hora da Providência, o Papa foi livrado por Deus dos Estados Pontifícios (e Pio IX e os católicos do mundo inteiro na hora não entenderam muito), dia virá em que Pai livrará o Vigário de Cristo do luxo do Vaticano. Durante o bombardeio de Roma cheguei a pensar que Deus ia agir, deixando que uma bomba liquidasse o que de outro modo parecia impossível largar. Não daria certo: Rockfeller reconstruiria um Vaticano ainda mais amplo e luxuoso. A reforma tem que vir de dentro. Como seria bom para o mundo que ao invés de um dia haver devastação, incêndio e saque (como tantas vezes eu tenho visto), partisse do Papa o gesto de despojamento” (Circular 44 de 26-11-1962).

Oxalá que as comunidades eclesiais, as dioceses e a Cúria Romana se preocupem menos com a “desgraça da falta de padres” e possam se sensibilizar mais com a chaga do clericalismo, elitista e ultrapassado. Com todo o grato reconhecimento aos pastores compromissados com o Povo de Deus, a Igreja do futuro sobreviverá ao acentuado declínio dos padres. Mas sobreviverá à insensibilidade aos mais pobres?

Quem sabe se com essa forçada ausência de padres, os demais cristãos e cristãs se sintam efetivamente corresponsáveis por suas comunidades e serviços pastorais. Nesse caminho a ser percorrido pela Igreja do século XXI que as velhas e arraigadas certezas deem espaço para o inesperado e criativo frescor do simples e radical Evangelho. E assim possa surgir uma Igreja em que o serviço à vida seja mais importante do que o serviço ao altar. Uma Igreja que seja mais a cara de Dom Helder, Dom Zumbi e Dom Luciano! Frágil e apaixonada, ousada e discípula, misericordiosa e radicalmente questionadora!

ReferênciasALMEIDA, Luciano Mendes de. Jesus Cristo: luz da vida consagrada. São Paulo: Loyola, 1996.

MENDES, Cândido. Dom Luciano: o irmão do outro. 2ª ed. São Paulo: Paulinas; Rio de Janeiro: Educam, 2007.

RAMPON, Ivanir Antonio. O caminho espiritual de Dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.

Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil-Dados 2024. 22ª ed. Brasília: Conselho Indigenista Missionário, 2025.

SAMPAIO, Geraldo Lopes Ribeiro. Dom José Maria Pires: voz fiel a mudança social. São Paulo: Ed. Paulus, 2005.

Leia mais

  • Memória. Dom Hélder, dom Luciano e dom José Maria Pires
  • Rio Grande do Sul e a marginalização Guarani. Artigo de Gabriel Vilardi
  • Pedro Casaldáliga e a Igreja da Caminhada que resiste. Artigo de Gabriel Vilardi 
  • Inácio de Loyola em tempos sombrios. Artigo de Gabriel Vilardi
  • Dom Hélder Câmara: um ex-integralista nos altares. Artigo de Luís Corrêa Lima 
  • 50 anos do assassinato de Padre Henrique serão lembrados na mesa-redonda “Missão, martírio e verdade” 
  • Como “Deus, Pátria e Família” entrou na política do Brasil 
  • Manuel Larraín e Hélder Câmara: Padres da Igreja Latino-Americana e rebeldes artífices do Vaticano II. Artigo de Gabriel Vilardi
  • Centenário de Dom José Maria Pires, o bispo da causa negra 
  • Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida: vida e legado do servo de Deus 
  • Dom Hélder Pessoa Câmara, profeta, místico e pastor 
  • Assim Jacques Maritain via o humanismo 
  • Mudanças na Igreja Católica do século XXI e o impacto na sociedade brasileira. Entrevista especial com Brenda Carranza  
  • Soberania, o agro e o golpismo antipatriótico. Artigo de Gabriel Vilardi 
  • Candido Mendes de Almeida morre aos 93 anos 
  • Cimi lança relatório sobre violência contra povos indígenas em 2024, primeiro ano sob vigência da Lei 14.701 
  • Ante o fim da tirania da diversidade a resistência da alteridade. Artigo de Gabriel Vilardi
  • Igreja da Caminhada 
  • Vinte anos da morte de Hélder Câmara, o “Francisco de Assis” do século XX 
  • O adeus ao Papa da Indiferença. Artigo de Gabriel Vilardi 
  • Para Dom José Maria Pires, o oitavo sacramento é a alegria 
  • Dom Luciano, servo de Deus e da alegria 
  • Hélder, Luciano e Zumbi: bispos e profetas de uma Igreja em saída. Artigo de Gabriel Vilardi 

Notícias relacionadas

  • Que lugar ocupar na festa de casamento?

    LER MAIS
  • Dom Helder, pastor da libertação em terras de muita pobreza. Entrevista especial com José Oscar Beozzo

    LER MAIS
  • EUA. Irmãs abrem Assembleia 2016 da LCWR com ênfase no diálogo contemplativo

    Na terça-feira à noite, 09-08-2016, a presidente da Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Re[...]

    LER MAIS
  • O próximo Sínodo provavelmente focará a ordenação de homens casados

    LER MAIS
  • Início
  • Sobre o IHU
    • Gênese, missão e rotas
    • Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros
    • Rede SJ-Cias
      • CCIAS
      • CEPAT
  • Programas
    • Observasinos
    • Teologia Pública
    • IHU Fronteiras
    • Repensando a Economia
    • Sociedade Sustentável
  • Notícias
    • Mais notícias
    • Entrevistas
    • Páginas especiais
    • Jornalismo Experimental
    • IHUCAST
  • Publicações
    • Mais publicações
    • Revista IHU On-Line
  • Eventos
  • Espiritualidade
    • Comentário do Evangelho
    • Ministério da palavra na voz das Mulheres
    • Orações Inter-Religiosas Ilustradas
    • Martirológio Latino-Americano
    • Sínodo Pan-Amazônico
    • Mulheres na Igreja
  • Contato

Av. Unisinos, 950 - São Leopoldo - RS
CEP 93.022-750
Fone: +55 51 3590-8213
humanitas@unisinos.br
Copyright © 2016 - IHU - Todos direitos reservados