05 Setembro 2024
Em uma bela entrevista concedida a Mara Gergolet para o Corriere della Sera, o historiador Ilko-Sascha Kowalczuk explica as origens do sucesso da Alternative für Deutschland, partido paranazista alemão que, na Turíngia e na Saxônia ultrapassou os 30% nas eleições.
O comentário é do jornalista e escritor italiano Mattia Feltri, publicado em La Stampa, 03-09-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Para além da análise (vou resumir brevemente: os países do Leste Europeu, com a dissolução do regime comunista soviético, depositaram na democracia expectativas paradisíacas que não foram atendidas, ignorando o fato de que democracia é liberdade, e a liberdade é uma maravilhosa dor de cabeça), uma frase de Kowalczuk me surpreendeu: “No Leste (...) persiste a convicção de que tudo deve ser regulado pelo Estado, que é considerado responsável por tudo. Por um lado, o Estado é criticado por tudo e, por outro lado, cobra-se tudo dele”.
Fiquei surpreso pela perfeita coincidência com uma frase escrita há mais de um século sobre os italianos por Giuseppe Prezzolini: “O italiano nunca fala bem do que o governo faz, mesmo que seja bem feito; mas não há italiano que não confiaria tudo ao governo e não reclame porque o governo não pensa em tudo”.
Era 1921. No ano seguinte, chegaria Benito Mussolini. E, de fato, Kowalczuk acerta em cheio: é por isso, diz ele, que na Alemanha Oriental se procura o homem forte. Entregar tudo ao Estado e reclamar de tudo com o Estado é a própria negação da democracia, porque nos poupa de ter uma responsabilidade. É melhor ter um homem forte a quem confiar a responsabilidade pelo nosso destino, para não corrermos o risco de sermos responsabilizados pelo nosso fracasso.
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