De onde sai a água para atender a demanda por lítio?

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30 Mai 2023

“A água vale mais que o lítio”, diz o cartaz que Nicolasa pendurou na porta de sua casa, em Fiambalá, uma cidade ao noroeste da província argentina de Catamarca, onde sempre cultivou uva. Entrevistada pelas jornalistas Susi Maresca e Camila Parodi para o seu projeto de pesquisa A rota do lítio: cartografia de uma pilhagem, Nicolasa Casas de Salazar é categórica: “É simples, é preciso cuidar da água e cuidar da água significa cuidar da vida. Os recursos que retiram, como a água, não se renovam”.

A reportagem é de Laura G. de Rivera, publicada por Público, 27-05-2023. A tradução é do Cepat.

Refere-se aos estrangeiros – primeiro, estadunidenses, agora, chineses – que, há cinco anos, desembarcaram em suas terras e viraram tudo de cabeça para baixo com a construção e exploração do megaprojeto Três Quebradas. Ocupa 30.000 hectares destinados à mineração desse lítio sem o qual as baterias de painéis solares, carros elétricos, smartphones e outros dispositivos móveis não poderiam funcionar.

Toda essa tecnologia se tornou a pedra angular da era digital e a promessa da transição energética requer lítio. Segundo a Comissão Europeia, sua demanda se multiplicará por 18, em 2030, e por 60, em 2050.

Fiambalá está localizada dentro do Triângulo do Lítio, figura geométrica que, a partir de uma imagem de satélite, revela a maior reserva deste mineral do mundo, nos salares andinos entre Argentina, Bolívia e Chile. Nos últimos anos, sua extração, processamento e comercialização não pararam de crescer.

Os Estados Unidos e a Europa são os principais compradores, famintos por esse metal para as baterias de todo o seu arsenal “amigo do planeta”. A China lidera sua produção e, junto com os Estados Unidos, a sua exploração em solo latino-americano, em uma espécie de oligopólio em que as grandes mineradoras podem ser contadas com os dedos de uma mão e meia. Elon Musk, com a Tesla, e Bill Gates, com a Lilac Solutions, estão entre elas.

Uma bateria de carro, 16.000 litros de água

Para os habitantes dessas terras, o pior problema é a água, que é utilizada em grande quantidade no processo de extração. Para cada tonelada de lítio, são necessários dois milhões de litros de água. Isso significa que para construir a bateria de um carro elétrico, que tem em média oito quilos de lítio, são necessários 16.000 litros de água.

Para cumprir a meta da empresa chinesa Liex Zijin de extrair 20.000 toneladas de carbonato de lítio por ano, em Fiambalá, são necessários 40 milhões de litros de água, dizem as autoras deste relatório. Mais ou menos, o equivalente à água que uma pessoa média gastaria na Espanha, durante 4.000 anos.

No Triângulo, que abriga desertos de sal, o metal é encontrado em salmoura, uma mistura de água e sal. Sua extração começa com a perfuração do solo para bombear grandes quantidades de salmoura. Em seguida, deixa-se a água evaporar e o precipitado resultante passa por um novo processo de filtragem, com mais água e produtos químicos, tóxicos para a saúde humana e o meio ambiente, para terminar convertido em carbonato de lítio, formato em que depois é exportado.

Um bem escasso no deserto

E resulta que se gasta a água. E mais nas regiões secas por natureza que compõem o Triângulo: o deserto de Atacama, no Chile; as montanhas áridas de Catamarca, na Puna argentina; e o salar de Uyuni, na Bolívia.

Contudo, a concorrência por um recurso tão precioso não atinge só as pessoas, já que a exploração mineira se situa em uma rede de zonas úmidas e salares, reconhecida como área protegida. Ecossistemas frágeis em si, localizados a 4.000 metros de altura, com uma biodiversidade única e espécies ameaçadas, como o flamingo andino.

“Os salares são zonas úmidas que, pela sua composição, representam reservas de água doce de vital importância para a biodiversidade da região e para as comunidades indígenas que lá vivem. O desequilíbrio hídrico provocado por uma ampla descarga de água salobra pode mover a água doce para a área salina, provocando sua salinização”, alerta um relatório da Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN) argentina.

Como se não bastasse, a água utilizada na extração fica poluída e além de não poder ser utilizada posteriormente para a irrigação, também corre o risco de intoxicar os aquíferos, caso não seja corretamente gerida. Foi o que aconteceu em Fiambalá, no ano passado, quando a população começou a apresentar sintomas de intoxicação por beber água da torneira e, temporariamente, a polícia mineira de Catamarca fechou a mina, em inícios de novembro.

“Governos nacionais e provinciais de diferentes visões políticas têm promovido a atividade com o objetivo de atrair capitais, mas sem reparar os potenciais impactos em nível social e ambiental que a exploração do lítio pode acarretar”, denuncia o referido relatório da FARN.

São explorações que, por outro lado, desrespeitam “a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que estabelecem a obrigatoriedade de consultar os povos interessados, a fim de determinar se seus interesses seriam prejudicados, antes de empreender ou autorizar qualquer programa de prospecção e exploração dos recursos existentes em suas terras”, acrescenta.

Se perguntassem a Nicolasa, ela não hesitaria em responder. “Dependemos da água, temos que beber para viver, temos que regar as plantas e cuidar de nossos animais. E a água que utilizam na extração não pode voltar para a irrigação, nem para o lençol, nem para nada”, disse às jornalistas Maresca e Parodi.

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