Da modernidade e do destrutivo poder energético à necessidade do decrescimento para energias efetivamente limpas. Conferência com Dominic Boyer

Antropólogo foi um dos conferencistas do Ciclo de Estudos Manifesto Terrano – construindo um geofilosofia de Gaia, promovido pelo IHU

Foto: Pixabay

Por: Tradução: Laura Bocco | Edição: João Vitor Santos | 16 Novembro 2022

Não é de hoje que aprendemos que energia é poder, e quem a detém, por sua vez, detém mais poder e influência no mundo. No entanto, na videoconferência realizada em 24-10-2022, o antropólogo Dominic Boyer nos leva a uma reflexão em que constata que essa busca por energia e poder cruza com ciclos econômicos e de expropriação de terras, ainda intimamente ligados a movimentos como o escravagismo e a exploração das forças de trabalho. Para ele, é como se a roda da modernidade ocidental fosse girada a partir do desejo, primeiro, do açúcar e, depois, do carvão e do petróleo. “Com o colonialismo, veio a energopolítica, termo que criei para discutir o impacto que os sistemas energéticos têm na formação das políticas”, explica durante o evento. “O sistema de plantation ou plantationoceno foi, de alguma forma, uma epidemia e o limite da ocidentalização entre os humanos e o mundo não humano”, acrescenta.

Num sobrevoo à história, ele analisa como esse processo colonial fez criar sistemas lastreados na escravização para a produção de açúcar que, durante muito tempo, fez a roda do Ocidente girar. Depois, observa como esse mundo vai se transformando com a mecanização e o mundo a vapor que, por sua vez, precisa de carvão. A diferença, se é que podemos considerar uma diferença, é que da força de trabalho escravizada surge a exploração de mão de obra. “Aqueles que não têm tecnologia (…) estão prontos para ficar sem posses neste imperialismo europeu, e o combustível fóssil e o trabalho salarial são naturalizados como necessidades sociais para melhoria humana, reforçando a obsessão das economias capitalistas para se manter a entropia”, observa.

O problema – ainda maior – é que todas as mudanças vão gerando um espírito e uma necessidade de consumo em que se torna cada vez mais inevitável uma maior produção para alimentar um verdadeiro dragão que se torna a necessidade de consumo das sociedades ocidentais. “Destaco um ensaio do físico Ian G. Barbour (1923-2013), que diz que o carvão garantia não só necessidades básicas como também itens que faziam com que a vida fosse conveniente, confortável e progressista”, acrescenta Boyer.

O resultado é que, além da exploração de parte das sociedades humanas, o planeta passa a ser expropriado. Não demora para que o carvão seja superado pelo petróleo, que alimenta um dragão com ainda mais sede de consumo, deixando um rastro de destruição. “A devastação do petropoder se baseia na desigualdade que recai sobre os mais pobres. Temos Manchester e Houston, por exemplo, que estão totalmente circundadas por refinarias e outras instalações industriais. Há contaminantes causadores de câncer que, na região, chegam a ser vinte vezes mais intensos do que em outras regiões mais ricas, isso também é um exemplo de como esse petropoder se manifesta, hoje, em nosso ambiente”, exemplifica.

Por fim, chegamos ao século XXI e a crise climática nos empurra para a chamada transição energética, a concepção das chamadas fontes de energias limpas. Pois, do contrário, todo o planeta e a espécie humana correm um risco de desaparecer. Mas Dominic Boyer chama atenção para uma armadilha: de nada adianta pensar em fontes limpas de energia se não dominarmos, e quem sabe até fazer sucumbir, o dragão do consumo. Por isso, acha fundamental recuperar André Gorz e seu conceito de decrescimento. “Gorz não via isso como um projeto utópico, mas como o que ele chamava de realismo ecológico, porque precisamos reduzir ativamente o pulso da modernidade para consumir menos e conservar o que temos disponível para as futuras gerações”, indica.

Dominic Boyer

Foto: America Academy

Dominic Boyer é antropólogo especializado no estudo de energia, clima, política e sociedade. Pesquisa modelos concorrentes de fornecimento de eletricidade e suas implicações sociais na Europa, Estados Unidos e América Latina. Antes de ingressar no corpo docente da Rice University, no Texas, em 2009, lecionou nas universidades de Cornell e Chicago. Foi bolsista visitante na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, na Universidade de Frankfurt e na Universidade de Durham.

Além de editar a série de livros Expertise: Cultures and Technologies of Knowledge (Cornell University Press) e Energy Humanities (Johns Hopkins University Press) e liderar o coletivo editorial da revista Cultural Anthropology (2015-2018), Boyer é autor de Espírito e Sistema: Mídia, Intelectuais e a Dialética na Cultura Intelectual Moderna Alemã (Chicago UP, 2005), Entendendo a Mídia: Uma Filosofia Popular (Prickly Paradigm, 2007) e The Life Informatic: Newsmaking in the Digital Era (Cornell UP, 2013). Seu livro mais recente é intitulado Energopolitics: Wind and Power in the Anthropocene (Duke University Press, 2019).

Confira a transcrição da palestra.

O tema de minha fala é “repensando a energia numa época de crise ambiental” e eu gostaria de começar com esta imagem (abaixo) que mostra um fluxograma do uso da energia nos Estados Unidos. É um pouco técnico, mas nos conta uma história muito interessante sobre a energia moderna. À esquerda, podemos ver as fontes de energia, mas, se olharmos com atenção, veremos que, apesar de todos os avanços e melhorias, a energia renovável nos Estados Unidos é menos de 20% de nossa energia total. Isso é uma situação muito pior do que a do Brasil no momento, pois no Brasil há uma série de investimentos feitos, além da energia hídrica desenvolvida ao longo das décadas.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Também, se olharmos o lado direito da imagem, verão que há uma barra cinza que representa a energia rejeitada. É toda energia que é perdida, especialmente pela ineficiência da transformação da energia química em mecânica. Podemos perceber que dois terços, ou mais, da energia queimada e usada nos Estados Unidos são desperdiçados. Isso acontece por causa das ineficiências das tecnologias e pela falta de atenção e interesse na conservação.

Um motor a combustível só tem 20% de eficiência, o que quer dizer que 80% de energia se perde quando se usa gasolina. Mas ele é muito usado porque é efetivo para transferir as pessoas muito rapidamente. Essa questão do uso das energias sem atenção às consequências é um pouco do que quero tratar, pois é como nós evoluímos para os sistemas modernos de energia.

Nós trabalhamos com essa noção de energia sem a consciência do uso. Quando falamos do sistema atual de energia, precisamos falar também no que veio antes. E a energia pré-moderna é bastante semelhante à energia atual em relação às fontes. Mas também vemos que, ao menos em alguns lugares da Europa, realmente temos algo que é marginal ao desenvolvimento da energia pré-moderna. A maior parte das invenções aconteceram na Ásia e no Oriente Médio e nós, na verdade, estamos à margem dessas invenções. Vamos ver alguns exemplos dos incríveis avanços da energia renovável no mundo. Na imagem abaixo vemos moinhos de água da Síria.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Podemos, ainda, na imagem abaixo, ver comparativamente ao avanço da China nas tecnologias para veleiros e barcos antes do século XV ou mesmo os polinésios até o século X, onde tinham essas canoas que conseguiam ir da Ásia para Nova Guiné, até o litoral da América do Sul. Nessas embarcações, traziam ecossistemas completos, como porcos, galinhas, plantas. Assim, eles podiam se estabelecer em uma ilha após a outra. É uma habilidade de navegação e de construção de barcos que permaneceu desconhecida na Europa por muitos séculos.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Energopolítica

Quando pensamos como os sistemas de energia funcionam, achamos que eles apenas substituem uns aos outros, são mais ou menos como as mídias. Apesar de não usarmos muitos gravadores hoje, por exemplo, eles continuam também incorporados aos nossos hábitos. O mesmo ocorre com o sistema de energia. Podemos encontrar lugares que têm lareiras e ainda que ainda usamos tecnologias antigas, como o uso de bois para puxar carros. Mas algumas coisas mudaram no século XV e aqui começa minha história.

Essa história começa quando os impérios europeus passam a comercializar com a Ásia, mas também com interesse na colonização da terra, formação de plantações, extrações de recursos, trabalhos forçados e organização de seus impérios transoceânicos. Com o colonialismo, veio a energopolítica, termo que criei para discutir o impacto que os sistemas energéticos têm na formação das políticas.

O açúcar e o carvão, energia da modernidade

Nossas estruturas mais importantes da modernidade foram o açúcar e o carvão. O sistema de plantation ou plantationoceno foi, de alguma forma, uma epidemia e o limite da ocidentalização entre os humanos e o mundo não humano. Como diz [Donna] Haraway, as plantas radicalmente simplificam o número de atores, definem situações para a vasta proliferação de algumas espécies e a remoção de outras. A construção de máquinas para exploração e extração de terráqueos depende de formas muito intensas de trabalho forçado e do trabalho da máquina.

Também devemos reconhecer aqui, a partir de Chris Jones, que outra fonte importante de energia é o carvão e, sem dúvida, tem sido a transição energética mais consequente na transformação da ordem mundial moderna e acho que não podemos pensar nisso como argumentos alternativos, pois, na verdade, eles fazem parte do mesmo desenvolvimento. Vou falar de açúcar, carvão e petróleo, de como a economia mundial e o sistema energético acabam se criando.

Açúcar

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Comecemos com o açúcar, que eu chamo de catalisador suprapolítico da modernidade europeia. Quando começamos com essa expansão indicada no mapa da imagem acima, a história que normalmente ouvimos é que estavam tentando comercializar com a China, o que não é totalmente inexato, mas voltamos para o padrão da expansão da Europa do Mediterrâneo e para o Oceano Atlântico. O padrão e a direção da colonização seguem a lugares que eles estão tentando criar plantações de cana-de-açúcar e obter o açúcar. Então, de alguma forma, o açúcar é o vetor original dessa expansão.

Vemos que os ibéricos saíram para as Ilhas Canárias e até a costa da África, onde são criadas as primeiras plantações de cana-de-açúcar. Depois, atravessam o Atlântico e começam a criar outras lavouras no Caribe e no Brasil em 1510. Colombo, quando está indo na sua segunda viagem às Américas, traz cana-de-açúcar com ele para cultivar. Podem ver que, desde o início, o açúcar está muito presente na mente do império europeu.

Pouco tempo depois, como as plantações na África estão cheias de casos de trabalho escravo, começam a vir os navios negreiros em 1520 para as demais colônias. E, em poucas décadas, grandes quantidades de açúcar são enviadas novamente para a Europa a partir do Brasil e das colônias do Caribe, como Santo Domingo. Esse trabalho escravo se acelera para oferecer poder de trabalho para esse plantationoceno.

Então, as potências europeias começam a competir para criar plantações de cana-de-açúcar em todo o Caribe e isto cria uma forma de funcionar, as ambições coloniais nesse século XVII e XVIII. Não apenas os espanhóis, mas também os holandeses, ingleses, franceses, todos se envolvem nessa fronteira do açúcar. Para seguir essa linha de pensamento, o motor da modernidade, acontece no Caribe e no Brasil, e no mundo todo, o que Kathryn Yusoff observa: os europeus organizaram a propriedade humana como propriedades energéticas extraíveis.

 

Pensamento liberal e a escravidão

É interessante, e talvez irônico, pensar que a maior parte do trabalho dos liberais europeus e as filosofias das classes médias, dos proprietários, tentando derrotar a aristocracia e estabelecer sua ordem social portuguesa nos séculos XVIII e XIX, é publicada no período de pico dessa escravidão, seja no segundo tratado do governo de Locke (1689), seja em De l’espirit de lois, de Montesquieu (1748), ou em A riqueza das nações, de Smith (1776) e muitos outros.

Podemos ver como a articulação da liberdade política veio junto com a escravidão, escravizando a população africana e criando boa parte da riqueza e do poder na classe média no Novo Mundo. E o Novo Mundo passa a ocupar um papel muito importante na formação do liberalismo europeu. Olhemos aqui John Locke (imagem abaixo), quando ele diz que não pode haver uma demonstração mais clara do que os vários povos nativos americanos, que são ricos em terra e pobres em todos os confortos da vida. O líder de um abundante e frutífero território como este se alimenta e se aloja pior do que um trabalhador na Inglaterra.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Essa é a mesma história que escutamos com Adam Smith, a ideia de que até mesmo o mais pobre dos europeus é mais rico do que os habitantes do Novo Mundo. O que está acontecendo é que houve um grande problema para o liberalismo europeu, que é como conciliar as noções de Deus com a de propriedade. Ou seja, a ideia da propriedade privada em que algumas pessoas podem ter uma parte dos recursos apenas para o seu próprio benefício. E o Novo Mundo foi fundamental para essa reconciliação porque parecia oferecer tal abundância ilimitada que os europeus trabalhadores e racionais achavam que eram merecedores do que Deus lhes estava dando. Isso porque haviam desenvolvido certo pensamento e certa racionalidade, assim podendo ter mais do que sua parte, sem necessariamente condenar outras pessoas à pobreza.

Assim, o liberalismo de Locke oferece um poderoso pretexto para a desapropriação colonial que, na verdade, persiste até hoje. Os indígenas tiveram as mesmas chances que qualquer outro por Deus e, no entanto, não conseguiram melhorar suas terras. Ou seja, os outros, os europeus teriam mais condições e indústrias.

Outro grande problema foi como conciliar a ética cristã com a escravidão institucional e generalizada. Esta é uma das questões de como entra a escravidão africana nesses textos. Mas há pequenos momentos em que há pistas e Montesquieu comenta, mordazmente, que é impossível para nós assumirmos que essas pessoas, os escravos africanos, são homens porque, se assumíssemos que fossem homens, começaríamos a acreditar que nós mesmos não somos cristãos. É, então, uma pista sobre esse paradoxo que está sendo desenvolvido no contexto do liberalismo europeu. Não houve solução além de criar as ciências do racismo que, depois, floresceram no século XIX, no império europeu, com suas hierarquias da civilização e suas crenças fundamentais vistas da inferioridade dos outros povos.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

A sucropolítica assume seu pico no Haiti com três mil plantações na década de 1780, e Santo Domingo é a colônia mais valiosa da França, exportando 60% de todo o café e 75% de todo o açúcar consumido na Europa, mais do que todas as chamadas colônias da Índia Ocidental juntas. Essa colônia é uma joia da coroa do capitalismo transatlântico não apenas na França, mas diria que para toda a Europa. Um total de 20% da burguesia francesa tinha sua riqueza ligada diretamente à atividade comercial relacionada com escravos. É um grande butim para aqueles que depois tentam derrubar a aristocracia.

Foram importados quatro mil escravos por dia durante anos e, devido às doenças, os escravos eram substituídos a cada vinte anos. Isso levou a uma revolta, foi uma história incrível de revolução no Haiti, uma história muito sangrenta com certeza, mas que consegue acabar com as ambições imperialistas da França e traz um certo fim para os dias de glória do capitalismo de plantação de açúcar no Haiti.

E é uma história que tem uma série de efeitos posteriores. Um dos motivos pelos quais o Haiti deixou de ser a colônia mais rica do mundo e se tornou a mais pobre é porque a França e as forças aliadas europeias acabaram forçando o Haiti a pagar grandes reparações pela terra e os escravos perdidos, inclusive pelas dívidas que o governo teve de fazer para pagar a dívida original. Essas dívidas continuam acontecendo há 150 anos e é por isso que o Haiti se encontra nessa situação tão penosa. É como uma punição pela audácia que tiveram de criar uma revolução.

Mecanização na sucropolítica

Depois da Revolução Haitiana, essa sucropolítica começa a se transformar com uma ênfase na mecanização. As máquinas, assim, entram no papel dos humanos e, também, para trabalhos não humanos, como, por exemplo, os do gado. Há um livro incrível chamado Nascimento da Energia. É a história de como, na Europa, a ênfase da mecanização leva a uma nova conceitualização da energia como trabalho.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

É uma história bastante complicada, na qual o desenvolvimento de motores a vapor, as exigências do império e uma nova ciência termodinâmica ajudam a criar uma conceituação de energia como trabalho. Embora haja um paradoxo no mundo moderno, isso se transforma numa nova visão moderna de mundo no qual, ao final, os seres humanos são considerados como sujeitos que precisam trabalhar constantemente para preservar a ordem divina do universo contra as ameaças da entropia e da decadência, e é parte do motivo por que a decadência industrial atual do trabalho entra tanto nos nossos sistemas de fé, e trabalhar para o progresso e para a modernidade se torna, de certa forma, nosso dever e nossa vocação na vida.

Com isso, vem também uma redefinição das hierarquias da civilização através da capacidade para o trabalho. Já vimos isso em Locke, mas isso se desenvolve mais no século XIX, o que Daggett chama de um racismo energético, em que algumas pessoas são menos capazes de trabalhar com o presente da tecnologia. E aqueles que não têm tecnologia, mais uma vez, estão prontos para ficar sem posses neste imperialismo europeu, e o combustível fóssil e o trabalho salarial são naturalizados como necessidades sociais para melhoria humana, reforçando a obsessão das economias capitalistas para se manter a entropia.

O conceito de energia surge ainda antes da modernidade

Embora pensemos que o conceito de energia seja moderno, Daggett revela um interessante ponto e mostra como ele acontece por volta de 1700, em lugares como Glasgow, na Inglaterra, onde há uma articulação moderna. Há um conceito de energia que também se encontra nas plantações do Caribe. Há um manual de plantação publicado em 1754 por Samuel Martin no qual ele descreve que a plantação é uma máquina bem construída com a energia e a disposição corretas das partes primárias. Então, estas descrições como máquinas já vêm das plantações e poucos sabem que o primeiro uso de um motor a vapor não vem da Europa. Essa história da mecanização na Europa é a que sempre ouvimos, mas a prática surge na Jamaica num dos grandes experimentos de como substituir o trabalho humano e melhorar esta máquina para trabalhar.

Isso nos leva à segunda fase da história que quero trazer, que é a ascensão da política do carvão.

O carvão e sua carbopolítica

Ao lado do açúcar, o carvão tem sido uma das forças mais importantes na sociedade humana. Os motores a vapor foram uma grande área de experimentação, trazendo força para a Revolução Industrial do século XVIII e isso começa com vários usos, à medida que o século XIX avança. Mas, em 1878, já havia mais de dois motores a vapor nos Estados Unidos e, essencialmente, o mundo passa de uma economia que queima carvão a um sistema energético baseado nos produtos de plantas, em algo que se baseia nos combustíveis fósseis até o final do século XIX.

Isto leva a uma grande transformação porque, para a generalização da produção industrial, a chamada democracia das coisas começa a surgir. Destaco um ensaio do físico Ian G. Barbour (1923-2013), que diz que o carvão garantia não só necessidades básicas como também itens que faziam com que a vida fosse conveniente, confortável e progressista. São itens que não eram imaginados nos anos de 1800 ou muito caros em 1815, em seguida eram tidos como óbvias posses e direitos de uma grande classe média. Houve a substituição de muitos produtos que foram trocados por coisas mais elaboradas. Americanos de diferentes classes entenderam que eles tinham direitos a esses benefícios produzidos pelas máquinas a vapor e a água e queriam mais. Podemos ver o etos do consumismo moderno em uma cultura fundada sobre a posse de itens para a conveniência e para o luxo, que realmente foram formados com a chegada desta carbopolítica, a política baseada no carvão.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Será que isso era inevitável? Quando olhamos a densidade energética, sim. Inevitavelmente buscamos fontes de energia mais densas. Mas, de acordo com o historiador Andreas Malm, não. Essa energia do carvão não era necessária pela sua densidade. O que foi decisivo foi o papel que tinham as relações de trabalho e capital, que ajudaram a fazer essa transição para uma modernidade baseada em carvão. O ótimo livro de Malm, chamado Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming, fala deste industrialismo e como a Inglaterra, pioneira na área, começou com suas máquinas baseadas em água, mais do que em vapor, o que persistiu até 1830. E aqui temos um exemplo (na parte debaixo na imagem a seguir) movida a água, criada por Richard Arwrigth. Essa máquina é um tear para fio de algodão usada na Inglaterra.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.


No entanto, o carvão venceu porque essas rodas e moinhos de água precisavam estar próximos de rios, às vezes em lugares remotos, em lugares em que era difícil encontrar uma população para trabalhar. Ou, às vezes, cidades tinham de ser estabelecidas para poder organizar toda uma força de trabalho em uma localização remota. Enquanto isso, o carvão poderia ser queimado em qualquer lugar, em qualquer estação do ano, em tempos de seca, em tempos de enchentes, era muito flexível e não era preciso ter essa proximidade da indústria com a força de trabalho.

A locomotiva e seu poder divino

Assim, se pudessem estabelecer suas fábricas onde havia muita força de trabalho em potencial, seria um trabalho barato e se poderia baixar o preço pago aos trabalhadores. Então, em meados do século XIX, o carvão se tornou a força mais forte na modernidade e, também, novas relações começam a ser globalizadas. O historiador Lian Marc gosta de falar da locomotiva como uma epidemia neste período. Em 1830, houve a consciência de que algo estava mudando, mas ainda não havia um nome muito aceitável e, muito menos, uma explicação. Muitas das palavras e frases que usamos hoje para designar os meios de transição para a modernidade – como Revolução Industrial, industrialização, ascensão do capitalismo industrial, urbanização, racionalização ou mecanização – ainda não haviam sido cunhadas ou não estavam circulando.

A tecnologia da locomotiva veio para trazer essa sensação de que a ciência moderna e a tecnologia deram à humanidade poderes de decisão que eram quase divinos e que, agora, estavam nas mãos dos homens. É uma capacidade que parece ir além do tempo e do espaço em uma velocidade milagrosa. A estrada de ferro se tornou uma revolução também. Isso aparece no livro de Leo Marx (ilustrado na imagem abaixo).

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Se o pico do sistema sucropolítico foi o final do século XVIII, em Santo Domingo e São Tomé, podemos encontrar o pico dessa política de carvão no final do século XIX, impulsionado pelo aço, outras tecnologias e, claro, eletricidade. O carvão e o aço permitiram a ascensão dos novos poderes industriais nos Estados Unidos e na Prússia, e a carbopolítica posterior vem da industrialização e mineralização que se expandiram juntas e criaram uma ordem mundial ocupada por carvão, máquinas e aço americano.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

E tudo isso leva a um ponto de pico na I Guerra Mundial. No mapa de exportação do carvão, abaixo, podemos ver o quanto ele se tornou importante para o comércio mundial do açúcar em outros lugares porque dominou o comércio internacional. Em 1900, o carvão continua em 85% do comércio internacional britânico, sendo exportado em todo o mundo.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

O próprio conceito de Oriente Médio é interessante, pois se refere às estações de carvão que apoiaram as viagens marítimas pelo mundo, trazendo esse combustível essencial para os domínios internacionais. No mapa, podemos ver o quanto a Inglaterra é centro de tudo isso.

Os limites do capitalismo industrial movido a carvão

Uma história muito bem contada por Timothy Mitchell é a de que houve limites para esse capitalismo industrial movido a carvão e essa democracia do carbono que está associado. O que ele quer dizer com democracia do carbono é a capacidade dos mineradores de carvão conseguirem uma alavancagem política sobre a indústria moderna, utilizando seu sentido de aliança e fraternidade política e, também, os trabalhadores para fechar ou ameaçar a economia moderna, por exemplo, bloqueando as saídas de carvão pelos trilhos. Isso é mais efetivo do que qualquer outra ação política no início do século XX, trazendo ganhos políticos como o fim do trabalho infantil, a determinação de horas e jornadas de trabalho e todas as conquistas dos trabalhadores na época.

De carvão a petróleo

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Quando os trabalhadores da mineração de carvão e outros trouxeram projetos de resistência política, isso significou que tinham muito poder político. É o que Timothy Mitchell diz que se tornou um problema para a organização do capital no século XX. E é parte do que trouxe uma virada do carvão para o petróleo, pois o carvão, por causa de sua densidade energética e sua materialidade, requeria que se enviasse muito trabalho humano para o subsolo em condições difíceis para extrair. Enquanto isso, o petróleo era pressurizado de cima. Então, se fosse perfurado no lugar certo ele vinha surgindo como um gêiser. Ele requer muito menos trabalho humano para ser organizado. E não tinha o mesmo tipo de vulnerabilidade para bloqueios políticos, pois poderia ser enviado por barco ao invés de atravessar o planeta por uma via férrea.

Isto significa que uma economia do petróleo, de alguma forma, era uma economia que estaria mais de acordo com o controle industrial e com uma classe trabalhadora mais fraca. É esta a história que Timothy Mitchell conta no livro Carbon Democracy: Political Power in the Age of Oil, sobre os direitos da democracia do carvão e como isso foi sendo desmantelado a partir do momento que essa economia do carvão dá lugar a economia do petróleo depois da II Guerra Mundial.

No mesmo período, o petróleo é visto como um recurso inesgotável que ajuda a alimentar essa concepção de crescimento do século XX. Antes da década de 1930, Mitchell argumenta que havia o conceito de economia no sentido moderno, mas a ideia de que a economia, particularmente a nacional, era algo que existia e que deveria crescer constantemente, é o que ele vê como um conhecimento do petróleo, conhecimento especializado, associado à base material de uma economia fundamentada no petróleo. Além disso, também devemos prestar atenção para os plásticos, o crescimento da indústria do plástico, que tem como base a indústria do petróleo e vem informar também todo o tipo de luxos e conveniências modernas, a democracia das coisas, que foi implementada no mundo. O que começou com o carvão se transforma com o petróleo e o plástico até que começamos a ter todo o tipo de comodidades baratas com o plástico.

Isso é crítico para o consumismo, para expandir a cultura do petróleo porque entramos numa era de bens baratos e energia sem cuidado das consequências ambientais e humanas. Quando observamos o consumo de energia nos Estados Unidos, podemos ver como, a partir da década de 1900, o consumo salta. Mas, especialmente a partir de 1960, há uma era de grande crescimento no uso da energia.

Petróleo e poder

Quando pensamos no que significa o poder do petróleo hoje, vemos um sistema de infraestrutura, oculta ou não, que permite transportar estes bens para todo o mundo. Isso conta a boa história do poder.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Se olharmos à esquerda da imagem acima, o mapa dos Estados Unidos, observaremos que é um mapa político, pois tendemos a pensar nos EUA como sendo dominados cultural e politicamente pelo litoral leste, que é o centro das finanças e de poder político, e pelo litoral oeste, que seria o centro de cultura, entretenimento e todos esses soft powers que os Estados Unidos produzem. Mas se eu mostrasse o mapa para alguém que não conhece os Estados Unidos e perguntasse onde está o centro de poder, diria que é no Texas, em Oklahoma, em Louisiana, pois é ali que estão esses caminhos e trilhos. E aqui é realmente onde está grande parte do poder econômico e é por isso que um lugar como o Texas move uma grande influência política no país. O mesmo ocorre em Alberta, no Canadá, porque é o nexo do poder do petróleo, a materialização do fornecimento de petróleo.

É claro que isso não é apenas produção, também tem o impacto humano. Quero igualmente reconhecer que a devastação do petropoder se baseia na desigualdade que recai sobre os mais pobres. Na imagem abaixo, temos Manchester e Houston, que estão totalmente circundadas por refinarias e outras instalações industriais. Há contaminantes causadores de câncer que, na região, chegam a ser vinte vezes mais intensos do que em outras regiões mais ricas. Isso também é um exemplo de como esse petropoder se manifesta, hoje, em nosso ambiente.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

O que vem depois do sucro, carbo e petro

As pessoas querem muito saber o que vem depois. Eu acredito que muito provavelmente será a eletricidade o próximo regime energético. Já existem robustas estruturas eletropolíticas no mundo, estão ali desde o início do século XX. Houve um momento, em 1970, em que realmente parecia que o mundo sairia do petróleo para a eletricidade, por energia nuclear, e por muitos motivos isso não aconteceu. Mas, mais uma vez, agora, com as emergências climáticas, há um movimento para essa infusão de energia, e a ideia de eletrificar tudo se tornou um mantra dos especialistas climáticos em todo o mundo.

No entanto, a estrutura elétrica dificilmente vai perturbar o mundo feito pelo açúcar ou carvão e petróleo. Se a história é uma guia, é mais provável que essa eletrocultura emerja profundamente moldada pelos arranhões da petrocultura, assim como a petrocultura foi influenciada pela cultura do açúcar e do carvão. Já estamos vendo muitos especialistas exigindo mais usinas, mais redes, mais novas fronteiras de recursos, como o lítio, para que essa cultura elétrica possa atender e superar o ritmo de expansão da cultura petrolífera.

Quando falamos dessa estrutura capitalista verde, é preciso que saibamos que ela vai crescer infinitamente e não creio que uma versão eletrificada da cultura petrolífera seja o suficiente para respostas a nossas emergências climáticas e ambientais. Vai requerer mais do que isso. Vamos precisar de menos para refazer um mundo que quebre com essa trajetória que herdamos.

Descarbonização e decrescimento

Descarbonizar e pensar no decrescimento é parte do movimento que busca repensar quanta energia precisa ser gerada e usada nessa nossa época de crise ambiental. A imagem abaixo mostra as tendências. Não importa quais ações internacionais tenham sido postas para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, pois não conseguiram até agora ter nenhum impacto perceptível nessa curva de desestabilização ambiental. Há muitíssimos cenários negativos possíveis que podem surgir aqui. O pior seria ter sistemas na terra cada vez mais instáveis, o que levaria a terra a ser um lugar inabitável, podendo levar ao colapso da civilização.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Uma das coisas que aprendemos como antropólogos, olhando diferentes culturas em todo o mundo e ao longo do tempo, é que nós como seres humanos somos muito resilientes, muito adaptáveis como indivíduos e grupos, mas as sociedades são muito mais frágeis e podem colapsar muito mais facilmente. Acabam se dispersando e a humanidade acaba tendo que se reinventar socialmente mais uma vez.

Há dois argumentos básicos acerca da produtividade industrial de alta energia ser altamente insustentáveis, ou seja, não podemos seguir como estamos.

1. A primeira é basicamente a questão da salvação tecnológica, algo como a ideia de que a fusão nuclear será desenvolvida combinada com avanços na ciência material, na reciclagem, que nos permitirão ter toda a energia que precisamos de forma barata sem consequências ambientais significativas. Isso tem sido um sonho desde a época nuclear, 1940. Quando era menino escutava que a fusão nuclear ia começar em 20 anos, isso talvez foi há 40 anos, e hoje em dia ainda estamos há 20 anos de que seja uma realidade. Então, o horizonte continua se movendo para adiante. Honestamente, acho que não seja um horizonte razoável, é uma fantasia de que vamos ter uma salvação tecnológica.

2. O outro argumento é de que possamos separar o crescimento econômico e a atividade industrial das consequências negativas do excesso de uso energético através de uma transição verde. Infelizmente, esse último modelo, que pareceria razoável, já foi contestado por muitos estudos econômicos que olharam para o problema da separação absoluta comparada com essa separação relativa, em que se diz que uma economia nacional verde poder fazer. E a Suécia conseguiu fazer isso de uma maneira que conseguiu mostrar que a economia nacional conseguiu ficar mais verde ao longo do tempo, está usando menos alta energia de carbono e reduziu seu perfil de carbono e isso foi celebrado como boas notícias há dez anos. Mas alguns economistas disseram que só se estava olhando para o que se produzia no país, não estavam olhando para a pegada de carbono de todos os bens de alta energia que agora estão puxando da Ásia. A China está elevando a emissão praticamente para todo mundo. Isso faz com que lugares como a Suécia pareçam ser mais verdes, mas quando olhar também a versão dos consumidores verá uma história muito diferente. Precisamos unir a produção e o consumo e quando nós juntamos isso é muito difícil separar a economia do crescimento das emissões de carbono. Um estudo descobriu que dos 22 países que conseguiram fazer essa separação entre 2010 e 2015 também uniram novamente esses aspectos em 2015. A única forma de fazer essa separação total é fazer uma transição total dos combustíveis fósseis para uma energia limpa.

Entendo que não seja difícil fazer num curto período que nós temos, porque nas circunstâncias atuais estamos aumentando a demanda de energia globalmente muito mais rápido do que estamos conseguindo instalar novas tecnologias renováveis. A cada ano, estamos mais atrás desse cálculo, apesar de a transição dessa energia esteja sendo mais ativa. Em 2022, o mundo vai acrescentar 35 gigawatts de nova produção de energia renovável, que é a maior da história, e é ótimo. Mas infelizmente vamos acrescentar 100 gigawatts de demanda energética. E os outros gigawatts para fechar essa conta virão de fontes não renováveis. As emissões de carbono vão aumentar por esse motivo.

Descarbonização sem decrescimento

Em minha pesquisa, estudamos o que acontece quando começamos a descarbonização sem um modelo de decrescimento. Estudamos o caso do desenvolvimento do poder eólico no sudeste do México. Havia uma concentração de parques eólicos maior do que qualquer lugar do mundo e chega a 2,8 gigawatts no México em menos de dez anos.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

É uma realização incrível, mas é uma realização que veio com um custo social imenso. Muitas comunidades indígenas dessa parte do México sentiram que foram insultadas, porque esse desenvolvimento aconteceu sem o seu consentimento e eles sentem que não estão se beneficiando disso. Houve muita resistência política que cresceu com esse projeto de desenvolvimento de energia eólica. No final, a contenção política se tornou tão forte que o processo de desenvolvimento parou.

E foi porque o desenvolvimento era realmente para o bem da economia nacional mexicana, talvez para a economia global, mas não estava muito atenta às histórias locais da colonização nessa região. As pessoas estavam muito sensíveis com a ideia de extração externa de recursos locais sem sentir que haveria algum benefício para as comunidades locais. Esse tipo de desenvolvimento, que é possível que aconteça se precisarmos fazer as coisas muito rapidamente, apenas vão aumentar e, lamentavelmente, muitas comunidades vão sentir que não há nada novo e não havia nada renovável nessa energia, pois ainda era muito extrativista. Falaram dos parques eólicos da mesma forma que falaram das minas, o que é compreensível, mas muito trágico.

Esse tipo de desenvolvimento, no fim, não faz muito sentido. Isso faz parte do resumo do projeto que oferecemos em nossos dois livros [imagem abaixo], que estão disponíveis para baixar gratuitamente na internet. Se digitarem os títulos em seus navegadores de internet, poderão baixar uma cópia e ficaremos muito felizes se lerem e compartilharem. O assunto é muito mais complexo do que eu posso trazer aqui.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.


Acho que o que trouxemos aqui levanta algumas questões sobre esse desenvolvimento rápido de energias renováveis e sua capacidade de quebrar, de fato, com algum tipo de relações tóxicas, que foram aquelas que criaram a necessidade de mudar.

Decrescimento como alternativa viável

Encerro com algumas observações sobre o decrescimento como alternativa viável. É um conceito que surgiu em resposta ao relatório sobre o limite do crescimento do grupo de Roma, em 1972.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Esse grupo, para composição desse relatório, fez algumas perguntas sobre a população, a industrialização, recursos e o que dizia é que estavam prevendo que o limite de crescimento desse planeta chegará nos próximos 100 anos. O resultado mais provável será uma diminuição na população e na capacidade industrial, que é uma ótima forma de dizer do colapso da civilização. Isso foi uma previsão feita há 50 anos, não tem sido precisa sobre o que tem acontecido nos últimos 50 anos e levanta muitas perguntas sobre como serão os próximos 50 anos. Talvez não vamos ficar sem petróleo, como se temia na década de 1950, mas a poluição que está resultando da emissão do uso do petróleo vai criar uma verdadeira crise tanto na produção quanto no fornecimento de alimento em todo o mundo.

Em termos de decrescimento, esse conceito foi criado nos debates posteriores a este relatório e quem criou esses termos foi André Gorz (imagem abaixo), filósofo marxista ecologista. Ele pergunta:

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

O que nós queremos? O capitalismo adaptado para restrições ecológicas ou uma revolução social, econômica e cultural que possa abolir as instituições do capitalismo e, fazendo isso, que possa estabelecer uma nova relação entre o indivíduo e a sociedade e entre as pessoas e natureza? Nós queremos a reforma ou a revolução?

Gorz, como marxista, queria uma revolução porque ele via que o crescimento da sociedade capitalista era algo inerente. O capitalismo usa a falta como uma espécie de reprodução da desigualdade social, reservando sua hierarquia na estrutura de classes. Novas realizações tecnológicas e os luxos são desfrutados apenas pela elite e isso atrai o desejo das massas, mas na medida que as massas conseguem acesso a esses luxos, novos luxos inalcançáveis são desenvolvidos para substituí-los. É uma espécie de efeito contínuo de que nunca haverá uma vida boa universal desfrutada no capitalismo. Ele descreve esse processo como a pobreza da afluência.

Também podemos ver isso acontecendo para a transição das energias renováveis em que se coloca tanto esforço em criar carros Tesla e dispositivos solares muito caros que serão usados por poucas pessoas que podem pagar por isso. Muito menos esforço se coloca para intervenções, como um melhor sistema de transporte público ou coisas que, de fato, poderiam ajudar a beneficiar a sociedade como um todo. O próprio Gorz imaginou o mundo do decrescimento como aquele definido por bens altamente duráveis e universalmente disponíveis, com habitação e transporte lindos e públicos, garantindo as necessidades básicas com tempo de sobra para uma autorrealização criativa.

Essas são suas palavras para uma sociedade pós-capitalista. Gorz não via isso como um projeto utópico, mas como o que ele chamava de realismo ecológico, porque precisamos reduzir ativamente o pulso da modernidade para consumir menos e conservar o que temos disponível para as futuras gerações. O que ele estava escrevendo em 1970 parece muito contemporâneo hoje.

O decrescimento se tornou não apenas uma fonte de um pequeno movimento nas últimas décadas, mas se tornou muito amplo e já ganhou espaço quando falamos, por exemplo, da Revolução Zapatista contra a globalização neoliberal. E essa é um pouco da premissa do decrescimento como objetivo de uma economia mundial, as pessoas no sul obviamente sabem que esse crescimento tem esse lado muito sombrio, violento. Também se diz que um consciente decrescimento é o que o norte está descobrindo e que o sul sempre soube, que esse tipo de capitalismo de açúcar, carbono e petróleo é predatório e cria luxos para poucos com base na miséria de muitos.

Reflexões e movimentos políticos

Vimos que o descimento agora faz parte de uma economia mais estável. Há todo um campo de economia ecológica, que é parte interessante da economia atual, trabalhado por pessoas como Kate Raworth e Giorgos Kallis, que teorizam o decrescimento como um programa de transição da civilização. Ele também politicamente tem feito esse movimento, também outras pessoas da perspectiva do ecofeminismo, da soberania indígena. Também entendo que a ideologia capitalista é muito patriarcal e que as mulheres carregam o trabalho como a infraestrutura básica para todas as práticas extrativistas. Igualmente os movimentos indígenas com relação à substituição dessa economia do crescimento do petrocarvão para se tornar uma economia verdadeiramente sustentável e não só uma que se pinte de verde e continue com esse extrativismo básico por baixo.

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Quando pensamos como podemos chegar a esta trajetória de decrescimento, há cada vez mais livros sobre o tema e acho que existem muitas guias interessantes. Gosto do livro Menos é mais [tradução livre; refere-se ao livro da capa verde] e ele deixa muito claro que o decrescimento não significa reduzir tudo de uma vez. Diz que é uma abordagem mais racional para pensar que setores realmente precisamos desenvolver no transporte público e energia renovável e quais setores são muito grandes e precisam ser reduzidos como a produção de carros privados, a indústria militar etc. Grande parte de nossa economia é totalmente irrelevante para o bem-estar humano.

Devemos nos perguntar se realmente queremos seguir com o crescimento agregado, que vai colocar nosso planeta, nossa civilização num risco tão extraordinário. Isso é a linha de frente nessa reconceitualização da economia de hoje. Podemos nos perguntar novamente: será que o norte global tem que ouvir isso do sul? Será que o norte é o problema, são estes países que criam essa destruição ecológica? Será que essas políticas estão recebendo alguma atenção? Eu diria que apenas em um nível experimental atualmente.

Boas práticas

Todas as imagens reproduzidas compõem a apresentação do conferencista.

Mas, por exemplo, em lugares como Barcelona, na Espanha, e Amsterdã, na Holanda, há alguns experimentos que estão aumentando nessa solidariedade e principalmente cooperativas que estão oferecendo mais do que serviços de energia, estão promovendo mais alfabetização, letramento energético. Estão ajudando os clientes a usarem menos energia, encontrando uma forma de trazer um lugar para esse trabalho em cima da energia, uma forma de tornar o processo de transição de energia não tão difícil e tão sacrificado, mas também que tenha algo de alegria e possibilidades.

Também sabemos que nesse inverno, por causa do que está acontecendo na Ucrânia, boa parte da Europa vai se envolver num exercício de decrescimento no uso de energia. Vamos ver o que vai acontecer, há bastante ansiedade nisso, mas poderia ajudar a acelerar uma transição positiva. Algo bom que possa sair dessa terrível guerra é que as pessoas possam se superar na energia do petróleo de formas importantes. Mesmo nos Estados Unidos, que é um lugar cheio de contradições e polarizações, há alguns estados como a Califórnia, Havaí, Nova York, Washington, que estão realmente levando a sério esse decrescimento de energia, embora não saibamos ainda o quanto isso vai influenciar uma política mais ampla de decrescimento.

Assista ao vídeo completo da conferência:

 

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