Governo Lula: Conselho político popular. Artigo de Marcos Sassatelli

Jorge Braga. O Popular, 04/11/22, p. 2

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10 Novembro 2022

"Lula, pessoalmente, penso que a sua atuação política e a dos demais do seu governo devem acontecer em duas grandes frentes de trabalho: a conjuntural e a estrutural", escreve em artigo Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção-SP) e professor aposentado de Filosofia da UFG.

Eis o artigo.

Presidente Lula, parabéns pela sua vitória, que é também a vitória de muitos e muitas de nós: a vitória da democracia, a vitória do Brasil.

Irmão e companheiro Lula, o seu governo, como todos os governos democráticos, deverá, antes de tudo, cumprir a Constituição Federal, dialogando, sempre com o Congresso (Senado e Câmara), o Judiciário e, em níveis estadual e municipal, os governadores e prefeitos.

Além disso, por estarmos na mesma caminhada, a partir de minha longa experiência de trabalho de base e com a única intenção de colaborar, tomo a liberdade de, publicamente, dar a você, Lula, e aos demais membros do seu novo governo uma sugestão concreta: criem, em caráter extraoficial, o Conselho Político Popular – CPP (um conselho nacional permanente, com reuniões periódicas), para assessorá-los, garantindo o permanente contato com o trabalho de base.

O CPP deve ser formado por representantes, eleitos por eles e elas, dos movimentos sociais populares, sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras, partidos políticos populares, organizações dos povos indígenas e quilombolas, comitês ou fóruns de defesa e promoção dos direitos humanos e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum e outras organizações populares (com seus intelectuais orgânicos), que, mesmo tendo, em determinados aspectos, visões diferentes (deverão ser respeitadas e valorizadas), estão unidos e unidas na luta por um projeto político alternativo ao projeto político capitalista neoliberal: o Pprojeto Político Popular.

Lula, pessoalmente, penso que sua atuação política e a dos demais do seu governo devem acontecer em duas grandes frentes de trabalho: a conjuntural e a estrutural.

Na frente conjuntural, vocês devem enfrentar corajosamente a situação, que se tornou dramática, de fome, de miséria, de pobreza e falta de condições de vida digna, em que vive a maioria doe trabalhadores e trabalhadoras. Trata-se de uma situação tão perversa e tão desumana, que clama diante de Deus e não pode esperar.

Na frente estrutural, vocês devem dar passos históricos concretos marcantes e significativos no caminho que, a médio e longo prazo, levará:

- à superação do projeto político capitalista neoliberal, que é de uma desigualdade e injustiça legalizadas e institucionalizadas gritantes e (o que é pior) legitimadas, hipócrita e diabolicamente, em nome da natureza (é natural!) e de Deus (é vontade de Deus!); e, ao mesmo tempo:

- à implantação do Projeto Político Popular, que quer ser, cada vez mais, igualitário, justo, humano, ético, fraterno, comunitário (verdadeiramente “socialista”).

Irmão e companheiro Lula, você e os demais do seu governo, assessorados pelo CPP, devem também fazer permanentemente a leitura, análise e interpretação, dos sinais dts Tempos a partir dos pobres (na ótica dos pobres) e ter, em cada momento histórico, a consciência crítica dos passos “possíveis” a serem dados e das estratégias “possíveis” a serem utilizadas para fazer acontecer, no Brasil e no mundo, o Projeto Político Popular.

Lula, cuidado com as artimanhas dos poderosos! Seu governo não pode cair na tentação de ser um “governo reformista”, que trai as expectativas dos trabalhadores e trabalhadoras e que - mesmo amenizando, com programas sociais de assistência, situações de extrema pobreza - acaba fortalecendo o projeto político capitalista neoliberal (ultraneoliberal).

No entusiasmo da vitória, falou-se e escreveu-se muito sobre o seu novo governo como um “governo de conciliação”. Mais uma vez, cuidado! A expressão é ambígua e, de certa forma, perigosa. Entre o projeto político capitalista neoliberal e o Projeto Político Popular, não há possibilidade de “conciliação” e nem de “aliança” (a não ser meramente formais). São projetos objetivamente opostos. Só poderá haver, em casos muitos especiais e por razões diferentes, “acordos pontuais”.

E ainda: não confundamos “luta de classe” com “ódio de classe”. Por defenderem projetos políticos opostos, entre a classe dos trabalhadores e a classe dos capitalistas há luta de classe, mas não necessariamente ódio de classe. Aliás, o ser humano consciente de sua dignidade e, mais ainda, o cristão ou cristã não odeia ninguém, ama a todos e a todas.

Jesus ensina que devemos amar até os nossos inimigos (ora, se devemos amar até nossos inimigos, quer dizer que eles existem) e o educador Paulo Freire nos recorda que a única maneira de amar os opressores é lutar contra o projeto de vida que eles defendem.

Por fim, ouçamos as palavras do Papa Francisco. No 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, ele pergunta: “Reconhecemos que este Sistema (o Sistema Capitalista Neoliberal) impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social e nem na destruição da natureza?” E responde: “Se é assim - insisto - digamo-lo sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os Camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco” (Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 07-09/07/15).

Peço a Deus, Lula, que seu governo “tenha lado”: o lado de Jesus de Nazaré, o lado dos pobres (marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados) de nossa sociedade brasileira. Estamos com você! Conte conosco!

O caminho está aberto! Com muita esperança, sigamos em frente!

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