Vaticano II, 60 anos: “Qualquer divisão na Igreja é uma tragédia”. Entrevista com Alberto Melloni

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13 Outubro 2022

 

“A humanidade espera pela Igreja, e a Igreja deve saber mostrar que existe e vive na unidade, onde há divisões, e em comunhão, onde há exploração.” O historiador Alberto Melloni explica assim ao SIR a herança do Concílio Vaticano II, cujos 60 anos do início da assembleia foram celebrados pelo Papa Francisco no dia 11 de outubro com uma missa na Basílica de São Pedro.

 

A reportagem é de M. Michela Nicolais, publicada em AgenSIR, 11-10-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

“Não foi uma máquina de decisões e de condenações”, mas sim um evento de sinodalidade que pede à Igreja que caminhe rumo à unidade, se quiser responder às expectativas do mundo. Porque “qualquer divisão na Igreja é uma tragédia que não pode deixar de produzir outras tragédias, até mesmo catastróficas”, como demonstra a guerra na Ucrânia.

 

Alberto Melloni, professor de História do Cristianismo na Universidade de Modena e Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII, resume assim o Concílio Vaticano II, cujos 60 anos foram celebrados pelo papa com uma missa na Basílica de São Pedro no dia 11 de outubro.

 

Eis a entrevista.

 

Em 11 de outubro de 1962, São João XXIII abria o Concílio Vaticano II: 60 anos depois, qual é a herança de um evento que mudou a história da Igreja?

 

A herança do Concílio já fazia parte das intenções do Papa João XXIII: fazer algo que não fosse simplesmente uma repetição do já dito – para fazer isso, não havia necessidade de um Concílio – mas algo que desse um “salto à frente”, tanto em relação à fisionomia da Igreja Católica quanto em relação às relações da Igreja Católica da época com as outras Igrejas. Não foi uma máquina de decisões ou de condenações, mas sim um encontro com o rosto de Cristo. É isso que a Igreja continua fazendo, ainda hoje, e, quando não o faz, deseja fazer.

 

Na sua opinião, o “salto à frente” que Roncalli queria que a Igreja desse se tornou realidade ou é preciso, como alguns continuam a dizer, um “Vaticano III”?

 

A Igreja sempre precisa de concílios. A colegialidade não faz parte da estrutura da Igreja: não é um sacramento, mas um lugar sempre necessário para a Igreja encontrar a energia espiritual de que necessita nos momentos de dificuldade. Ainda há aspectos pouco compreendidos do Vaticano II, dos quais o mais importante é o uso do termo “pastoral”. Viemos de uma cultura de controvérsias teológicas baseadas na distinção entre os aspectos dogmáticos, por um lado, e o serviço pastoral, por outro. Ainda hoje se espalha um vale-tudo teológico com base no qual se afirma que o Papa Francisco, com suas intervenções de reforma, não toca a doutrina, mas apenas a pastoral, voltando contra ele o mais grave gesto de lesa-majestade.

 

A pastoral não é algo de inferior ao dogma, uma espécie de aplicação, que não se entende onde está, de uma doutrina abstrata. Para o Papa Francisco, a pastoral é a tomada de consciência de um modo de dizer a verdade coerente com a verdade de Cristo, ou incoerente com ela e, portanto, prenúncio de maldade ou infecundidade. Em suma, é algo a ser construído: basta pensar na questão do ministério, que diz respeito a toda a Igreja, e não só à católica, e que é uma questão de grau conciliar. Nela, muito se amadureceu, mas ainda há muito a se explorar e construir.

 

Reforma e colegialidade são duas das palavras-chave do Vaticano II: que peso elas podem ter em uma Igreja que, por vontade do Papa Francisco, está agora em estado sinodal?

 

O Papa Francisco nos pede para repensarmos a sinodalidade não apenas como indigestão de reuniões, mas como lugar de busca e celebração da unidade da Igreja. A reflexão sobre a sinodalidade faz parte da experiência conciliar: Sínodo e Concílio são sinônimos e, por sua vez, são ambos sinônimos de Igreja.

 

O Papa Francisco é filho do Concílio: na homilia da missa de início do Jubileu da Misericórdia, Bergoglio havia falado do Concílio como de “um verdadeiro encontro entre a Igreja e as pessoas do nosso tempo”.

 

Para o Papa João XXIII, o Concílio era um encontro com o rosto de Cristo. O Concílio questionou muito fortemente a distinção entre o ato de adoração e o ato de caridade, como se fossem dois âmbitos distintos e a cada um coubesse algo de um ou de outro. A ideia de fundo de João XXIII era que a Igreja tinha valor para o mundo: a Igreja como casa de todos, mas sobretudo dos mais pobres. E tudo isso só pode vir da experiência da escuta e da celebração. A humanidade espera pela Igreja, e a Igreja deve saber mostrar que existe e vive na unidade, onde há divisões, e em comunhão, onde há exploração.

 

O quinto capítulo da Gaudium et spes intitula-se “A promoção da paz e da comunidade dos povos”. Sessenta anos depois, primeiro a pandemia e depois a guerra estão pondo à dura prova esse objetivo. Ainda é possível reverter o rumo? Como?

 

Recentemente, o cardeal Zuppi destacou que a Gaudium et spes não pintava o tempo da sua época como um tempo de paz, mas como um tempo de “trégua”. É uma expressão muito forte: no texto conciliar, não foi possível chegar à condenação das armas atômicas, porque os Estados Unidos não haviam permitido isso, mas foi feita uma leitura dos tempos que advertia contra o fato de chafurdar na falsa ideia de que as desigualdades planetárias haviam debeladas de uma vez por todas, a fim de garantir uma paz duradoura. A pandemia e a guerra hoje põem à prova a negligência e a preguiça ecumênica das Igrejas e da Igreja.

 

A guerra que está em curso na Ucrânia não é uma guerra como as outras, é uma guerra que conseguiu “normalizar” o tema da guerra atômica, levando a pensar que a escalada em direção a ela é possível e quase “normal”. Diante dessa tentativa de “normalização”, que causa horror, a Igreja deveria ter uma voz única para condená-la, e em vez disso – como ocorreu recentemente em Karlsruhe – discute-se se é preciso expulsar os russos ou não, como se a divisão entre os ortodoxos fosse simplesmente uma divisão interna. Em vez disso, devemos nos dar conta de que qualquer divisão na Igreja é uma tragédia que não pode deixar de produzir mais tragédias, até mesmo catastróficas. Percorrendo o caminho da unidade, no entanto, conseguimos curar até mesmo o mal mais terrível.

 

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