Pesquisas em micro-habitats indicam que “somos todos parte da mesma coisa”. Entrevista especial com João Araujo

"Um dos maiores desafios dos cientistas é atingir e impactar a sociedade, principalmente numa era onde os jovens passam a maior parte do tempo imersos em eletrônicos", afirma o pesquisador

Foto: Pixabay

Por: Faustino Teixeira | Edição: Patricia Fachin | 18 Setembro 2022

 

“Obcecado por fungos”. É assim que João Araujo, pesquisador da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, se intitula ao comentar seu trabalho, que consiste no estudo da diversidade e evolução dos fungos em florestas das Américas, Ásia e África, “a fim de desvendar a diversidade desses fungos”.

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ele diz que suas pesquisas em micro-habitats” permitem perceber a inter-relação entre as espécies do planeta. “A ideia de que tudo está conectado é o primeiro passo para um entendimento melhor de que somos todos parte da mesma coisa. Mesmo em 'micro-habitats' da ciência, como o que trabalho (fungos associados a insetos), quanto mais avançamos com as pesquisas, mais nos damos conta de que todas as espécies estão conectadas”.

 

Segundo ele, a “hegemonia antropocêntrica”, defendida durante séculos, “é uma sensação falsa e megalomaníaca do ser humano, que não se reflete no 'mundo real'. Somos carne como qualquer outro animal e seremos prontamente digeridos pelos microrganismos, quase que imediatamente depois do corpo morrer. Essa noção eu acredito que a maioria de nós não tem”.

 


João Araujo (Foto: State University)

 

João Araújo é doutor e curador Assistente de Micologia no Instituto da Universidade Estadual da Pensilvânia, vinculado ao departamento de Ecologia Sistemática e Evolutiva de Fungos Associados a Insetos, com pesquisas orbitam em torno da taxonomia, sistemática e ecologia evolutiva. Suas abordagens metodológicas incluem ciência taxonômica fundamental com história natural, trabalho de campo, biologia evolutiva, microscopia e fotografia. Tem interesse por ilustração científica e comunicação científica através das artes.

 

A entrevista a seguir foi realizada por Faustino Teixeira, teólogo, colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e do canal Paz Bem.

 

Confira a entrevista.


IHU – Há estudos fundamentais vindos da biologia, da antropologia e da filosofia, como no caso das obras de Merlin Sheldrake (A trama da vida), Anna Tsing (Viver nas ruínas), Tim Ingold (Estar vivo), e Emanuelle Coccia (A vida das plantas e Metamorfoses). Dois desses autores participaram da última Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, dedicada ao mundo vegetal. São estudos que indicam pistas essenciais para entender a dinâmica inter-relacional que vigora na nossa Casa Comum, que é a Terra. Como você, como pesquisador dos fungos, discerne esse novo passo da reflexão?

 

João Araújo – Eu acho importantíssimo que esses assuntos estejam atingindo mais pessoas, principalmente fora da academia. A ideia de que tudo está conectado é o primeiro passo para um entendimento melhor de que somos todos parte da mesma coisa. Mesmo em “micro-habitats” da ciência, como o que trabalho (fungos associados a insetos), quanto mais avançamos com as pesquisas, mais nos damos conta de que todas as espécies estão conectadas.



IHU – Os novos estudos relacionados ao “mundo invisível” levantam questionamentos sobre a nossa concepção de hegemonia antropocêntrica. Estamos vendo emergir nos estudos sobre fungos, por exemplo, uma singular compreensão de inteligência e cognição, na capacidade criativa, flexível e colaborativa desses fungos, “veteranos das perturbações ecológicas”, na ajuda para nossas reflexões políticas. Tem algo a dizer a respeito?

 

João Araújo – A meu ver, essa hegemonia antropocêntrica é uma sensação falsa e megalomaníaca do ser humano, que não se reflete no mundo real. Somos carne como qualquer outro animal e seremos prontamente digeridos pelos microrganismos, quase que imediatamente depois do corpo morrer. Essa noção eu acredito que a maioria de nós não tem.

 

 

IHU – Questões relacionadas ao psicodelismo vêm emergindo com grande potência nesse difícil tempo atual, em estudos dos fungos “fantásticos” para uso farmacológico. É o caso, por exemplo, da retomada da psilocibina. Como assinala Matthew Johnson, pesquisador da John Hopkins, os fungos psicodélicos “tiram a pessoa de sua própria história” e potencializam uma “reinicialização do sistema”, abrindo janelas para novos modos de organizar a realidade. Trata-se de algo que ocorreu em outros momentos do movimento da contracultura. O que isto poderia estar significando para você?

 

João Araújo – Acredito que tratamentos envolvendo psicodélicos, como a psilocibina (extraído de cogumelos do gênero Psilocybe), ou LSD (originalmente extraído do fungo parasita do centeio, Claviceps purpurea), entre outros, são o futuro no referente a doenças comuns como ansiedade, depressão e outras disfunções. Não há como negar que essas aflições têm atingido cada vez mais pessoas e a resposta, ainda iremos descobrir, está nas florestas. Infelizmente, tem o lado do lobby das indústrias farmacêuticas, que não têm nenhum interesse na disseminação desse conhecimento milenar. Acredito que por isso ainda estamos presos à ideia preconceituosa de que essas terapias, ou mesmo o uso privado de psicodélicos, é coisa de “bicho grilo”. Mas acredito que em poucos anos essas terapias estejam disponíveis em maior escala, principalmente no EUA.

 

 

IHU – Tenho acompanhado com interesse os trabalhos sobre os cogumelos e fungos, que agora ficaram conhecidos aqui no Brasil, com a ajuda do documentário de Paul Stamets sobre os fungos fantásticos (Netflix). Muito rico também o trabalho organizado pelo mesmo autor no livro Fungos fantásticos. O que esses estudos apresentam como desafio para o nosso tempo?

 

João Araújo – A maior fronteira que esses documentários e livros estão expandindo é a de atingir um número maior de pessoas. Fomentam a popularização do assunto, que, como disse, é o primeiro passo para que o tema seja discutido e o preconceito seja vencido.

 

Esses documentários também ajudam na popularização da ciência e despertam o interesse e curiosidade de jovens. Esses documentários podem certamente ser o gatilho para transformar uma criança ou adolescente num pesquisador. Isso aconteceu comigo.

 

Já estava na Biologia para formar e sabia que iria trabalhar com fungos, provavelmente taxonomia de cogumelos. Mas, quando assisti esse vídeo, minha vida literalmente mudou.

 

 

Eu me tornei obcecado por esses fungos, que muitas vezes são capazes de manipular o comportamento do hospedeiro, tornando-os “zumbis”. O New York Times escreveu uma reportagem sobre um artigo que publiquei, há alguns anos. Aqui tem alguns detalhes interessantes sobre esses fungos (com fotos).

 

Bom, mencionei isso para ilustrar que um dos maiores desafios dos cientistas é atingir e impactar a sociedade, principalmente numa era onde os jovens passam a maior parte do tempo imersos em eletrônicos. Precisamos despertar o interesse das novas gerações para o mundo natural. Urgentemente. Sendo assim, esses documentários são essenciais para educar a população e cativar as pessoas, o que, no fim, levará a um melhor entendimento de que somos todos parte de uma coisa só.

 

 

IHU – Você tem dedicado o seu trabalho ao tema dos fungos. Pode nos explicar de forma sintética o que vem estudando?

 

João Araújo – O link para o artigo do New York Times que incluí acima tem detalhes e fotos desses fungos. Mas, de maneira geral, eu estudo a diversidade e evolução desses fungos. Meu trabalho inclui explorar florestas do mundo todo, pelas Américas, África e Ásia, a fim de desvendar a diversidade desses fungos. Depois de coletar as amostras após semanas na floresta, voltamos ao laboratório para análises de microscopia (óptica, e eletrônica de varredura) e análises de DNA (extração de DNA, PCR e sequenciamento). Depois da aquisição de todos esses dados, fazemos análises em softwares específicos que nos dão informações sobre as relações entre as espécies e como elas evoluíram. Tenho interesse também em entender o papel dos hospedeiros nos padrões de diversificação desses fungos parasitas. Por último, também tenho explorado fungos micoparasitas, que infectam esses fungos parasitas de insetos. São os “hiperparasitas”, já que são parasitas de outro parasita. Aqui neste link tem um exemplo de um artigo descrevendo espécies novas.


IHU – Como você tem acompanhado o trabalho que vem sendo realizado aqui no Brasil com os cogumelos utilizados pelos povos originários, em especial os Yanomami. Cito o caso de pesquisadores do INPA, como da bióloga Noemia Kazue Ishikawa. Qual a importância desses trabalhos?

 

João Araújo – Esses trabalhos são essenciais. Existem várias perspectivas positivas nessas pesquisas, como o uso comercial de cogumelos selvagens (domesticação), a exploração de novas espécies, e o mais importante, a meu ver, é que eles promovem o desenvolvimento sustentável de povos originários.

 

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