23º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Ensina-nos a bem contar os nossos dias!

02 Setembro 2022

 

"A cruz é a consequência da fidelidade incondicional de Jesus ao Pai, a coragem de colocar, em segundo plano, relações muito significativas, para dar tudo, até a própria vida por amor, para que todos tenham vida em plenitude. Jesus deu o testemunho do que está pedindo aos seus discípulos de todos os tempos."

 

A reflexão é de Terezinha das Neves Cota, rc, religiosa da Congregação Nossa Senhora do Cenáculo. Ela possui graduação e mestrado em teologia pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus – CES e é orientadora de retiros espirituais.

 

 

Leituras do dia

Primeira Leitura: Sb 9,13-18
Salmo: 89,3-6.12-14.17
Segunda Leitura: Fm 9b-10.12-17
Evangelho: Lc 14,25-33

 

Estamos no 23º Domingo do Tempo Comum e o que perpassa as leituras e o Evangelho desta liturgia é a necessidade de uma busca conjunta, fiel, lúcida, com discernimento, para decidir, projetar e realizar com tenacidade cada projeto inspirado por Deus, com sabedoria e justiça.

 

A primeira leitura (Sb 9,13-18) é tirada do Livro da Sabedoria, o último livro do Primeiro Testamento. O autor está embebido das Escrituras Sagradas e também conhece a cultura filosófica grega. Ele conciliou serenamente estas duas heranças para escrever um tratado sobre a justiça para os governantes, que interessou mais aos judeus da diáspora e aos súditos, do que aos que governavam com uma injustiça institucionalizada.

 

O livro não especifica os destinatários, porque quer atravessar fronteiras. Desta forma a denúncia profética tornou-se crítica sapiencial. Denuncia primeiramente às perseguições sofridas pelos judeus por parte de Ptolomeu II (faraó do Egito de 281 a.C.-246 a.C.), e outras opressões sofridas nas mãos de governantes gregos; porém, é critica permanente, que pode atingir governantes de todos os tempos.

 

O contrário da sabedoria é a idolatria, que ao falsificar a divindade gera todo tipo de injustiça. A sabedoria abrange toda a atividade humana e eleva o ser humano ao Reino da Vida plena. A justiça autêntica se relaciona com a sabedoria, é de Deus e dos justos. A atitude de injustiça impede o ser humano de acolher a sabedoria. O autor ressalta, por outro lado, que a sabedoria é o caminho da justiça.

 

No texto selecionado, Sab. 9, 13-18, encontramos estas três questões: “Qual é o ser humano que conhece o pensamento de Deus? Quem compreende o que Deus quer?” (v.13). “Quem conhecerá o teu desígnio, se Tu não lhe dás a sabedoria, enviando do Céu o teu santo espírito?” (v. 17). Com esta terceira pergunta o autor responde as duas perguntas anteriores. O vers. 18 conclui com uma síntese afirmativa de que foi possível aprender o que agrada Deus e a salvação que a sabedoria traz. É igualmente uma alusão aos antepassados justos e santos.

 

O Salmo responsorial (Sl 90/89) é uma oração comunitária de súplica, onde são ressaltadas a brevidade e a fragilidade da vida humana com metáforas eloquentes. Ecoando a Primeira Leitura suplicamos esta prece sempre atual: “Ensina-nos a bem contar os nossos dias e dá ao nosso coração sabedoria” (vers. 12). Toda a proclamação inicial sobre as nossas vulnerabilidades dá lugar à confiança de que o ser humano pode ser saciado pelo Amor de Deus desde o amanhecer, pode experimentar a bondade divina ao ser conduzido por Ele.

 

O Antigo Testamento profetiza e prefigura a missão de Jesus. No Segundo Testamento, Jesus é a prefiguração da missão dos apóstolos. Lucas, em seu Evangelho destaca a subida para Jerusalém. A narrativa desta subida de Jesus começa no final do cap.9 e vai até o cap. 19 (Lc. 9,51-19,28). Jesus está levando consigo os discípulos. O chamado que ele faz aos seus discípulos tem uma profunda relação com esta subida cheia de ensinamentos, de atitudes e do testemunho de fidelidade amorosa ao Pai.

 

Este chamado é sintetizado neste versículo: “Quem não se desapega de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). Jesus está a caminho de Jerusalém, onde vai padecer e morrer. O chamado é para este seguimento radical na liberdade, no desapego, na disponibilidade, é para subir com Ele por um caminho que não tem retorno, cujo fracasso aparente, será a grande vitória de uma vida doada até o fim.

 

A cruz é a consequência da fidelidade incondicional de Jesus ao Pai, a coragem de colocar, em segundo plano, relações muito significativas, para dar tudo, até a própria vida por amor, para que todos tenham vida em plenitude. Jesus deu o testemunho do que está pedindo aos seus discípulos de todos os tempos.

 

Na conclusão temos duas parábolas, que ressaltam a necessidade de ter consciência das condições necessárias para tomar uma decisão. Um projeto importante demanda a reflexão sobre os meios e a força para realizá-lo, para que não aconteça de faltar qualquer recurso e ele não ter êxito. Uma obra inacabada provoca zombarias, gera frustrações, é um fracasso. Estamos vivendo uma mudança social e cultural sem precedentes. Urge a prática de sentar juntos para calcular com realismo, humildade e coragem sobre como vamos atuar diante dos diversos desafios que se apresentam, para que cada projeto tenha o êxito possível.

 

Temos ainda um trecho da breve e preciosa Carta a Filemon. Ela foi escrita por Paulo na prisão entre os anos 61 e 63. Filemon era um cristão de boa posição, convertido por Paulo. Seu escravo Onésimo fugiu e deveria ser punido duramente. Paulo, o acolheu e o converteu também. Paulo se sente solidário com Onésimo, porque ele, prisioneiro por causa do Evangelho, é como um escravo, privado de sua liberdade.

 

Paulo considerou até a possibilidade de ficar com Onésimo por vias legais, porém prefere apelar ao amor de Filemon, que perdeu o escravo, mas o pode receber de volta como um irmão no Senhor, porque Onésimo, como ele, abraçou a fé cristã. Paulo o devolve, porque acredita que a relação cristã é capaz de mudar uma realidade humana, o vínculo da irmandade no Senhor é superior ao vínculo de posse de Filemon, seu prejuízo de perder um escravo nem se compara com o ganho de acolher um convertido, um cristão como ele.

 

Refletimos sobre passos e estratégias para que nossos projetos de evangelização e solidariedade sejam construídos com criatividade e sustentabilidade, jamais sejam “torres inacabadas”?

Buscamos os dons da sabedoria e da justiça, cultivamos como Comunidades cristãs o acolhimento, para que o essencial seja o ganho de novos Irmãos para a caminhada do Reino?

 

Para que o projeto de nossa maior responsabilidade, que é nossa própria vida, seja realizado com discernimento, sabedoria e justiça, peçamos como o salmista: Ensina-nos a bem contar os nossos dias!

 

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