Assunção de Nossa Senhora - Ano C - Maria, a mulher que canta um mundo com relações igualitárias

19 Agosto 2022

 

"O caminho de adesão e colaboração de Maria com o plano salvífico de Deus é iniciado por ela na Anunciação e tem o seu ponto culminante em Pentecostes. Sua presença e participação solidária com a comunidade cristã que nascia é o sinal de sua entrega perseverante ao plano amoroso de Deus, revelado e totalmente realizado em seu Filho Jesus Cristo. Sendo assim, o caminho percorrido por Maria, da Anunciação até Pentecostes, é um caminho pedagógico para a verdadeira experiência do Deus Uno e Trino."

 

A reflexão é de Márcia Terezinha Cesar Miné Geraldo, leiga, esposa, mãe e avó, doutoranda em Teologia/Sistemática pela PUC-Rio. Ela é mestre em teologia sistemática pela PUC-Rio, bacharel em teologia pela Faculdade Dehoniana, Taubaté/SP e especialista em mariologia pela Faculdade Dehoniana, Taubaté/SP. É membro da Assessoria Teológica do Santuário de Aparecida e da Diretoria da Associação Brasileira de Mariologia – Fundada no Santuário de Aparecida em 16/07/2022. Atualmente é coordenadora e professora do Curso de Especialização em Mariologia pela Faculdade Dehoniana e pela Academia Marial de Aparecida.

 

 

Leituras do Dia

 

1ª Leitura - Ap 11,19a;12,1-6a.10ab
Salmo - Sl 44(45),10bc.11.12ab.16 (R. 10b)
2ª Leitura - 1Cor 15,20-27
Evangelho - Lc 1,39-56 (Cântico de Maria)

 

Queridos irmãs e irmãos em Cristo!

 

É com imensa alegria que me uno a todas e todos que celebramos hoje a Assunção de nossa Senhora ao céu, em que a temática é sobre o Cântico de Maria no Evangelho de Lc 1, 39-42. Estamos diante de uma liturgia de festa, a festa da Assunção de Maria ao céu, toda de Deus e tão próxima de nós.

 

Lucas nos fala que naqueles dias Maria partiu apressadamente para visitar a sua prima Isabel a uma região montanhosa até uma cidade da Judéia. Com a Anunciação, ela inicia um longo caminho de peregrinação na fé, ao responder ao apelo de Deus, aceitando a proposta do Senhor com o coração aberto, num grande gesto de generosidade e de fé. Aqui, a liberdade de Maria não é mera expressão de autonomia e de autoafirmação. Se fosse assim, seria apenas o livre-arbítrio, entendido como capacidade de escolha entre várias alternativas. Na verdade, não existe verdadeira liberdade se a pessoa não é livre diante de Deus; assim, em sua autonomia ela assume como seu o desígnio de Deus. Maria de Nazaré respondeu ao mistério de amor: dizendo: “Fez em mim grandes coisas Aquele que é Poderoso”. É do olhar de Deus que Maria emerge como uma pessoa completa. Deus deixa em suas mãos a sua liberdade, deixa que ela se reconheça livre e lhe responda colaborando com Ele na tarefa messiânica do nascimento de seu Filho no mundo.

 

E assim, Maria canta o programa do Reino de Deus e declara guerra ao mal. Maria canta o combate de Deus na história humana. Canta o projeto de um mundo de relações igualitárias, de justiça e fraternidade. Canta para a liberdade e para a verdade que as condições da história transfiguram. É assim que a inversão da história se torna uma "canção da vida". Maria é a bem-aventurada, não apenas porque Deus realizou nela grandes coisas (Lc 1,49), mas porque ela acreditou (Lc 1,44). Do lado de Deus, que propõe e intervém miraculosamente (Lc 1, 28.35), do lado da Virgem, que se abre à Sua mensagem e à Sua ação, o acontecimento inaugural da redenção é integralmente puro, integralmente religioso.

 

Aquela a quem Deus dirige sua mensagem é santa: ela é a kecharitomene (Lc 1,28), o objeto de todas as complacências divinas. Seu estado é Santo: Ela é Virgem (Mt 1, 18,23; Lc 1,27), a virgindade voluntária e votiva: “como se dará isso se não conheço homem algum?” (Mt 1,34) - a primeira célebre frase de Maria, denota a personalidade de uma mulher madura que tem um projeto de vida a realizar. Este hino é paralelo ao de Ana, mãe de Samuel (1Sm 2,1-10). O AT tinha a prática de colocar cânticos na boca de personagens conhecidos, para fazê-los articular sentimentos adequados de elogio em uma manifestação particular de Deus, por exemplo, o hino de louvor de Jonas (2,2-9).

 

No cântico de Maria ela nomeia Deus de duas maneiras: Senhor e Salvador. Com o nome de Senhor, Maria destaca a grandeza de Deus. Quem viu aquela grandeza encontrou a transcendência absoluta e só pode ter uma palavra: eu te agradeço! Eu saio da minha própria pequenez, descubro o meu desamparo e canto a grandeza do verdadeiro “Kyrios, perante quem há de dobrar todos os joelhos no céu e na terra” (Fl 2). A oração é, antes de tudo, uma resposta de Maria à ação de Deus e um elogio a sua prima Isabel. O anjo do Senhor a saudou: “Alegre-se, agraciada” (Lc 1,28). Isabel recebeu-a chamando-a de "bem-aventurada tu entre as mulheres” (Lc 1,42). Maria respondeu colocando-se nas mãos de Deus, que “dirige os caminhos da história” (Lc 1,38). Agora, assumindo as palavras anteriores, ela se alegra e canta a grandeza de Deus.

 

Maria recorda-se do que Deus realizou nela. A atuação de Deus é expressa duas vezes com o mesmo termo "porque": ele olhou para mim, ele olhou e fez grandes coisas em mim. Maria afirma que o próprio Deus olhou para ela, que descobriu os olhos de Deus cativados por sua pequenez; e ela sabe que aqueles olhos a exaltam, a reveste de formosura e a transforma. Então, levante a alma e cante. Alma é a verdade da pessoa aberta ao que ela deseja; espírito é dele profundidade, aquele lugar onde Deus se manifesta. "Porque ele pôs os olhos na humildade de sua serva. Por isso a partir de agora todas as gerações me chamarão de bem-aventurada, porque o Poderoso fez maravilhas por mim. Santo é o seu nome e sua misericórdia atinge de geração em geração aqueles que o temem" (Lc 1, 48-50). Um olhar de amor porque contempla sem julgar, sem dominar, sem impor, nem cobrar. Olhar criativo porque a transforma e engrandece. Maria mantém o olhar, e mantendo-o em um gesto de amor e transparência, responde ao mistério de Deus (Lc.1,38). "Eis a serva do Senhor". Como os profetas afirmam: "Eis-me aqui.".

 

Nossa intenção, nesta reflexão no dia em que celebramos a Assunção de Nossa Senhora ao céu, é apresentar Maria como expressão de uma nova vida que, como a de Jesus e dos cristãos, também passa pelo movimento kenótico experimentado ao longo de toda a sua vida. Essas são as características primordiais da ação salvadora de Deus que Maria proclamou. Suas palavras são teologia profunda. Elas revelam o mistério de Deus como liberdade livre. São palavras do ser humano criativo, no qual a utopia da nova terra começa a se realizar. Ela canta para o Deus de uma nova humanidade reconciliada, que nela começa.

 

O fato é que Maria, transbordando de alegria, levanta uma canção que revela a chegada de uma nova humanidade, que vive na transparência, sem arrogância, sem imposições, sem marginalização. Maria descobriu o caminho de Jesus, e com Jesus proclama a verdade escatológica da humanidade; ela tem certeza de que o Reino de Deus começou a acontecer. Por isso canta, e o ponto culminante de seu canto pertence ao Reino de Deus.

 

O caminho de adesão e colaboração de Maria com o plano salvífico de Deus é iniciado por ela na Anunciação e tem o seu ponto culminante em Pentecostes. Sua presença e participação solidária com a comunidade cristã que nascia é o sinal de sua entrega perseverante ao plano amoroso de Deus, revelado e totalmente realizado em seu Filho Jesus Cristo. Sendo assim, o caminho percorrido por Maria, da Anunciação até Pentecostes, é um caminho pedagógico para a verdadeira experiência do Deus Uno e Trino.

 

Por fim, Maria é a mulher que fez a experiência única da consolação de Deus para estabelecer a Nova Aliança. Ela, de maneira singular e excepcional, fez a experiência da misericórdia, e também, de maneira única, tornou possível, com o sacrifício de seu coração, a própria participação da misericórdia divina. Compreender o canto de Maria e sua mensagem da Nova Humanidade desde a kénosis de Jesus leva-nos a intuir essa dimensão como essencial para a transformação da história, pois toca os critérios da missão e afeta as decisões cotidianas. Deus fez-se presente na vida de Maria, e iluminada pela luz de seu olhar ela é sustentada pelo calor de sua Presença. Que possamos, neste domingo em que celebramos a Assunção de Maria, intensificar nossa condição de filhas e filhos de Deus, e assim como Maria sermos auxiliares d’Ele, construindo com Ele, a Esperança de um mundo melhor.

 

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