“Uma crítica entre posições que se conhecem dentro de um campo de colaboração nos torna mais fortes”. Entrevista com Amador Fernández-Savater

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05 Agosto 2022

 

Depois dos acampamentos, das horas passadas em assembleias a céu aberto, da transformação das ruas e praças um território de vozes anômalas, diversas, discordantes, Amador Fernández-Savater se dispõe a escrever sobre o ocorrido. Já se passaram onze anos dos dias de maio de 2011, quando o povo espanhol começou a se reconhecer em nome dos indignados e a instaurar no cenário político um episódio de intervenção popular, de presença emancipada que se tornou conhecida para eles e para o mundo como 15M.

 

Naqueles meses de acampamento na Puerta del Sol de Madri (que foram replicados na Praça da Catalunha, em Barcelona, e em várias cidades da Espanha), o filósofo e editor Fernández-Savater se dedicou a escutar e se envolver como protagonista.

 

Esteve lá para definir uma forma de organização capaz de encontrar alternativas aos despejos provocados pela crise financeira que aniquilou as hipotecas, mas não se incorporou à formação do Podemos, em 2014, o partido político liderado por Pablo Iglesias que buscou transformar a experiência dos autoconvocados em uma proposta eleitoral e institucional e que levou Iglesias a ser segundo vice-presidente no Governo de coalizão liderado por Pedro Sánchez.

 

La fuerza de los débiles. El 15M en el laberinto español. Un ensayo sobre la eficacia política, livro publicado por Ediciones Akal, concentra-se em pensar os limites e o impacto daqueles dias de convivência nas ruas, quando parecia que era possível decidir o destino da Espanha, a partir da tomada da palavra pública.

 

Este trabalho, que encontra sua maior inspiração na obra de León Rozitchner sobre as condições da esquerda na transição democrática argentina, entende que a singularidade do 15M requer uma análise que ultrapasse a descrição para recuperar aquela matriz de imaginação política que ficou inconclusa. De sua casa em Madri, Fernández-Savater antecipa por videochamada alguns dos temas que desenvolverá nas atividades de sua próxima visita a Buenos Aires.

 

A entrevista é de Alejandra Varela, publicada por Clarín-Revista Ñ, 03-08-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Você define o livro como um balanço para reverter a noção de fracasso e transformá-la em aprendizado. Esse fracasso tem a ver com “o salto institucional”, a partir do ‘Podemos’, ou com não ter conseguido articular a particularidade das praças com a forma institucional?

 

Na minha avaliação, há pelo menos dois fracassos. León Rozitchner, em seu ensaio Filosofía y emancipación. Simón Rodríguez: El triunfo de un fracaso ejemplar (escrito em seu exílio em Caracas e publicado postumamente em 2013), diz que toda experiência, a partir da efervescência de um primeiro momento, precisa ser refeita em um segundo nascimento que inscreva essa experiência na realidade. Eu acredito que o 15M não foi capaz de dar a si mesmo esse segundo nascimento, que pesou muito no que chamo de olhar no espelho: ter o tempo todo a sensação de que não se está fazendo o que deveria, pois se olha no espelho dos meios de comunicação, da história dos movimentos sociais, dos partidos, da academia, que dizem que você não conseguiu nada, em vez de encontrar sua própria leitura, sua própria racionalidade.

 

E depois, o segundo fracasso não é tanto o salto institucional, mas ter mudado as categorias, as formas de pensar e ter assumido outra linguagem. O 15M era um movimento que tentava manter uma igualdade interna e que se dirigia às pessoas com um convite igualitário. Com o salto institucional, os atores da política passam a ser os partidos (Podemos e os municipalistas) e, mais concretamente, os líderes dos partidos, os comunicadores desses partidos. Nesse corte da experiência entre atores e espectadores está um dos fracassos do 15M.

 

O 15M é o maior questionamento à transição democrática, desde 1977?

 

Eu tento descrever, ainda que de forma muito breve, do que é feita essa democracia espanhola, o que o 15M questiona quando sai às praças e diz: “chamam isso de democracia, mas não é”. Por um lado, a democracia espanhola considera que há alguns limites ao que é possível que se dão na continuidade da ditadura e não podem ser debatidos porque, se assim, a Guerra Civil voltará. Longe de tê-la superado, a Guerra Civil Espanhola é ainda o fantasma que protege a ordem institucional.

 

O segundo elemento seria a polarização, as duas Espanhas que constituem o imaginário espanhol por excelência, que lutam na guerra e agora encontram uma forma de coexistir sem se matar. O 15M rompe este cenário e representa, após a transição para a democracia, a primeira grande discussão política que opõe o conflito à polarização.

 

Considera que o fato de ainda não ter conseguido resolver a questão sobre os crimes do franquismo é uma das razões pelas quais essa discussão demorou?

 

Eu tive a possibilidade de ver, no primeiro ou segundo dia do acampamento, uma cena muito impressionante de um confronto entre os militantes da Associação de Memória Histórica, que têm um ritual como o das Mães da Praça de Maio, na Puerta del Sol, reivindicando que as valas comuns sejam abertas, e os garotos jovens do 15M, que estavam acampando. Ali, era possível ver dois mundos que não se entendiam.

 

O que posso dizer é que o 15M permitiu a abertura de uma multidão de pesquisadores, que levaram muito mais longe a crítica sobre a transição democrática que estava sacralizada como um prodígio de transformação de um regime ditatorial em um democrático, com quase nenhuma violência.

 

O 15M abre um espaço cognitivo: a suposta perfeição da transição espanhola fica deslegitimada por um grito que não é apenas dado por algumas figuras da esquerda nas principais praças da Espanha, mas também é um grito da própria sociedade contra um sistema político que está subordinado ao poder financeiro e econômico.

 

Do 15M, como acontece em outras mobilizações nos últimos anos, participam pessoas que passaram por um longo processo de despolitização. Como combinar essa vontade inclusiva com essa situação que poderia levar o movimento a um lugar antidemocrático ou diretamente antipolítico?

 

Penso que essas coisas sempre precisam ser pensadas no contexto. Estamos vendo conflitos que estão sendo estimulados pela direita, mas isso não pode nos levar a pensar que contra a polarização é necessário se refugiar no consenso. Para além da teoria, na prática essas coisas sempre aparecem de forma impura: encontramos sociedades muito despolitizadas e desideologizadas que, quando se politizam de repente, como no caso do 15M, não sabem muito bem do que se trata.

 

As pessoas da esquerda não queriam o 15M, diziam que era uma fabricação da direita, pois o 15M dizia: “Nem esquerda, nem direita. Somos os de baixo contra os de cima”; e os militantes políticos dos movimentos sociais também o viam com muita desconfiança.

 

Não podemos almejar que o conflito tenha as coordenadas da esquerda que conhecemos no século XX porque essas coordenadas desapareceram. O fio da tradição, como disse Walter Benjamin, foi rompido e quando surge algo político é um imbróglio, é algo misturado, bastardo. Então, o que fazer? Penso que é preciso se aproximar e estar, escutar e buscar estimular esses espaços para os conflitos que pretendem ampliar o possível a partir da autonomia e a igualdade.

 

Quando Jean Baudrillard pensa a esquerda francesa dos anos 1980, diz que ao abandonar o objetivo do poder, esse espaço gerou uma forma política dissuasiva. O poder foi um problema para o 15M?

 

O 15M colide, como tantos outros movimentos, com a maldição da alternativa entre uma efervescência que se esgota e desaparece ou a institucionalização desse movimento, mas ao preço de uma burocratização que expropria a capacidade de ação, de pensamento diferente e a reduz a uma elite como o monopólio sobre essa capacidade e aí o 15M não sabe encontrar uma saída. É possível encontrar outra forma de articular a instituição e os movimentos populares que têm ritmos diferentes, formas diferentes de se organizar e viver?

 

Eu acredito que pode haver momentos de cooperação, não orgânicos, mas pontuais, mantendo uma autonomia em cada um dos planos, mas também momentos de conflito. Acredito em uma crítica desafiadora, provocativa, na capacidade de empurrar um governo que quer ser progressista para além de seus próprios limites, mas isso exige uma cultura política muito diferente, pois existe um grande medo do conflito.

 

É algo que discuti muito com Jorge Alemán, que afirma que qualquer crítica ao governo é uma traição e presta um favor à direita, mas eu penso que é necessário aprender que uma crítica entre posições que se conhecem dentro de um campo de colaboração nos torna mais fortes.

 

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