Transumanismo, a escravidão definitiva. Artigo de Slavoj Žižek

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

  • O Deus dos desgraçados. Artigo de Tarso Genro

    LER MAIS
  • Itália. Hospitais sem médicos: o governador da Calábria contrata 500 especialistas cubanos

    LER MAIS
  • A vida de Xi Jinping e as escolhas da China

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


05 Agosto 2022

 

"Não somos apenas uma catástrofe para o nosso meio ambiente, nós surgimos dessa catástrofe e ainda hoje vivemos dela. E todos esses sacrifícios nunca serão redimidos em algum tipo de novo tribunal de Nuremberg nos condenando por nossos crimes contra a vida natural. O mais difícil não é encontrar algum significado mais profundo para o sofrimento, mas realmente aceitar sua falta de sentido", escreve Slavoj Žižek, em artigo publicado por IAI News e republicado por Outras Palavras, 03-08-2022. A tradução é de Maurício Ayer.

 

Segundo ele, "o paradoxo é que só há homem na medida em que há natureza inumana impenetrável (a “terra” de Heidegger): com a perspectiva de intervenções biogenéticas abertas pelo acesso ao genoma, a espécie muda/redefine livremente a si mesma, suas próprias coordenadas; essa perspectiva efetivamente emancipa a humanidade das restrições de uma espécie finita, de sua escravização aos “genes egoístas”. No entanto, essa liberdade última de auto-reconstrução genética coincide com a não liberdade suprema: eu mesmo sou reduzido a um objeto que pode ser infinitamente remodelado".

 

"A lição final aqui é que devemos aceitar a estupidez sem sentido da natureza - afirma Zizek. A humanidade deve sua existência à imensa destruição e sofrimento que se abateram sobre a vida na Terra. Sem a extinção dos dinossauros, não haveria vida humana na Terra. Nossas principais fontes de energia (carvão, petróleo) são as sobras de destruições inimagináveis ​​que ocorreram no passado. Nossos hábitos diários dependem do sofrimento global – basta pensar no que acontece nas fazendas industriais com frangos e porcos".

 

E o filósofo conclui:

 

"Não somos apenas uma catástrofe para o nosso meio ambiente, nós surgimos dessa catástrofe e ainda hoje vivemos dela. E todos esses sacrifícios nunca serão redimidos em algum tipo de novo tribunal de Nüremberg nos condenando por nossos crimes contra a vida natural. O mais difícil não é encontrar algum significado mais profundo para o sofrimento, mas realmente aceitar sua falta de sentido".

 

Eis o artigo.

 

Os avanços da biogenética prometem libertar-nos de nossos limites e fragilidades. Mas quanto mais aprendemos a alterar nossa natureza, menos livres nos tornamos. Seremos apenas mais um objeto – manipulado por nova casta de super-humanos.

 

A ecologia de hoje tende a perceber a natureza como o limite de nossa expansão e nos instrui, humanos, a renunciarmos à nossa arrogância, nossa implacável exploração da natureza. Agora que Deus ou a Tradição não podem mais desempenhar o papel do Limite mais alto, a Natureza assume esse papel. Mas que tipo de natureza será essa?

 

Mesmo quando imaginamos o aquecimento global, ainda o imaginamos como uma nova estabilidade, com “padrões climáticos regulares e repetíveis”: “quando a humanidade atingir o limite de emissão de carbono, o clima da Terra se estabilizará em uma nova temperatura média mais alta. Essa temperatura mais alta é ruim para os seres humanos, porque leva a níveis mais altos do mar e a eventos climáticos mais extremos. Mas pelo menos é estável: o Antropoceno se parece com eras climáticas anteriores, só que mais quente.” [1]

 

No entanto, pesquisas recentes consideram mais provável que “o clima da Terra leve ao caos. Um verdadeiro caos matemático. Em um sistema caótico, não há equilíbrio nem padrões que possam ser repetidos. Um clima caótico teria estações que mudam muito de década para década (ou mesmo de ano para ano). Alguns anos experimentariam flashes repentinos de clima extremo, enquanto outros seriam completamente calmos. Mesmo a temperatura média da Terra poderia flutuar descontroladamente, oscilando de períodos mais frios para mais quentes em intervalos de tempo relativamente curtos. Seria totalmente impossível determinar em que direção o clima da Terra estaria indo.

 

Tal resultado não é apenas catastrófico para nossa sobrevivência, mas também vai contra nossa noção (humana) mais básica de natureza, aquela de padrão repetível de estações. Como tal, lembra-nos o que Georg Lukács apontou em sua História e consciência de classe: “natureza” é uma categoria social, ou seja, o que percebemos como “natureza” é sempre sobredeterminado por um contexto social. Assim, enquanto tudo o que existe é natureza (nós somos parte da natureza), o inverso também vale no nível de nossa compreensão: a natureza é uma categoria cultural, o que percebemos como “não natural” é sempre socialmente determinado.

 

A tentação a se resistir aqui é a de continuarmos fiando-nos em nossa noção básica de natureza e, consequentemente, proclamar o caos como algo “antinatural”. É como se a nossa Terra estivesse gradualmente se transformando em Trissolaris, um planeta estranho de The Three-Body Problem, obra-prima de ficção científica de Liu Cixin.

 

Trissolaris tem três sóis que nascem e se põem em intervalos estranhos e imprevisíveis: às vezes muito distantes e horrivelmente frios, às vezes muito próximos e destrutivamente quentes, e às vezes não vistos por longos períodos de tempo. Furacões devastadores, secas e inundações, para não mencionar o aquecimento global – todos esses eventos não indicariam que estamos testemunhando algo para o qual o único termo apropriado é “o fim da natureza”? Esta proclamação só faz sentido se a “Natureza” for entendida aqui no sentido tradicional de um ritmo regular das estações, o pano de fundo confiável da história humana, algo com o qual podemos contar que estará sempre lá.

 

Nossa sobrevivência depende de certos parâmetros naturais que automaticamente tomamos como garantidos. A lição do aquecimento global é que a liberdade da humanidade só foi possível tendo como pano de fundo os parâmetros naturais estáveis ​​da vida na Terra (temperatura, composição do ar, suprimento suficiente de água e energia, etc.): os humanos podem “fazer o que quiserem” apenas na medida em que permaneçam suficientemente marginais, de modo que não perturbem seriamente os parâmetros da vida na terra.

 

A limitação de nossa liberdade que se torna palpável com o aquecimento global é o resultado paradoxal do crescimento exponencial de nossa liberdade e poder, ou seja, de nossa crescente capacidade de transformar a natureza ao nosso redor até desestabilizar os parâmetros geológicos básicos da vida na Terra.

 

Entramos, assim, numa nova fase em que é simplesmente a própria natureza que se desfaz no ar: a principal consequência dos avanços científicos da biogenética é o fim da natureza. Uma vez que conhecemos as regras de sua construção, os organismos naturais se transformam em objetos passíveis de manipulação. A natureza, humana e inumana, é “dessubstancializada”, privada de sua densidade impenetrável, daquilo que Heidegger chamou de “terra”.

 

Deixe-me confessar um dos meus prazeres culposos, pelo qual o desprezo de quase todos os meus amigos se abateu sobre mim: eu gosto bastante de Moonfall, de Roland Emmerich, cuja premissa é que nossa Lua é uma megaestrutura artificial construída pelos ancestrais da humanidade (que eram mais avançados tecnologicamente do que seus descendentes atuais) como uma arca para repovoar a humanidade; esses ancestrais foram caçados por uma inteligência artificial desonesta que se tornou forte demais… Duas características que acho interessantes no filme são:

 

(1) o conflito que estrutura toda a história humana é aquele entre duas vertentes da Inteligência Artificial, não entre a humanidade e a IA;

 

(2) a desnaturalização do que percebemos espontaneamente como um gigantesco objeto natural – a superfície irregular da Lua é apenas uma máscara destinada a enganar os humanos e esconder uma máquina complexa em seu interior.

 

E daí se universalizarmos essa premissa e concebermos a própria natureza, o que percebemos como suas características mais “naturais” (espontaneidade, caos…), como uma aparência enganadora que esconde um interior maquínico? É fundamental ter em mente que a ascensão da era pós-humana e o fim da natureza são os dois lados do mesmo processo. Então, se o desenvolvimento tornar o homo sapiens obsoleto, o que virá depois? O pós-humano homo deus (com habilidades que são tradicionalmente identificadas como divinas) ou uma máquina digital quase onipotente?

 

Com relação à possibilidade de surgimento de novas formas de consciência, deve-se ter em mente o alerta de Metzinger. Ao mesmo tempo em que considera possível a subjetividade artificial, especialmente na direção da bio-robótica híbrida e, consequentemente, como uma questão “empírica, não filosófica”, ele enfatiza seu caráter eticamente problemático: “não é nada claro que a forma biológica da consciência, tal como foi até agora trazida pela evolução em nosso planeta, seja uma forma desejável de experiência, um bem em si mesmo” [2].

 

Essa característica problemática diz respeito à dor e o sofrimento conscientes: a evolução “criou um oceano em expansão de sofrimento e confusão onde antes não havia. Como não apenas o simples número de sujeitos conscientes individuais mas também a dimensionalidade de seus espaços de estado fenomenal está aumentando continuamente, esse oceano também está se aprofundando.” E é razoável esperar que novas formas de consciência geradas artificialmente criem novas formas “mais profundas” de sofrimento.

 

Como aponta Harari, a opção mais realista da biotecnologia e dos algoritmos computacionais unindo seus poderes na produção de “corpos, cérebros e mentes” será uma divisão radical, muito mais forte que a divisão de classes, dentro da própria sociedade humana. Explodiria o fosso “entre aqueles que sabem projetar corpos e cérebros e aqueles que não sabem: aqueles que conduzem o trem do progresso adquirirão habilidades divinas de criação e destruição, enquanto aqueles deixados para trás enfrentarão a extinção”.

 

A principal ameaça é, portanto, a ascensão de uma “pequena e privilegiada elite de humanos com upgrade. Esses super-humanos desfrutarão de habilidades inéditas e criatividade sem precedentes, o que lhes permitirá continuar tomando muitas das decisões mais importantes do mundo… No entanto, a maioria dos humanos não terá este upgrade e, consequentemente, se tornará uma casta inferior, dominada tanto por algoritmos de computador quanto pelos novos super-humanos… Dividir a humanidade em castas biológicas destruirá os fundamentos da ideologia liberal”. [3]

 

Crucial aqui é a interdependência do homem e da natureza: reduzindo o homem a apenas outro objeto cujas propriedades podem ser manipuladas, o que perdemos não é (apenas) a humanidade, mas a própria natureza. Nesse sentido, Francis Fukuyama está certo: a própria humanidade se baseia em alguma noção de “natureza humana” como o que herdamos como simplesmente dado a nós, a dimensão impenetrável em/de nós mesmos na qual nascemos/somos lançados.

 

O paradoxo é que só há homem na medida em que há natureza inumana impenetrável (a “terra” de Heidegger): com a perspectiva de intervenções biogenéticas abertas pelo acesso ao genoma, a espécie muda/redefine livremente a si mesma, suas próprias coordenadas; essa perspectiva efetivamente emancipa a humanidade das restrições de uma espécie finita, de sua escravização aos “genes egoístas”. No entanto, essa liberdade última de auto-reconstrução genética coincide com a não liberdade suprema: eu mesmo sou reduzido a um objeto que pode ser infinitamente remodelado.

 

A lição final aqui é que devemos aceitar a estupidez sem sentido da natureza. A humanidade deve sua existência à imensa destruição e sofrimento que se abateram sobre a vida na Terra. Sem a extinção dos dinossauros, não haveria vida humana na Terra. Nossas principais fontes de energia (carvão, petróleo) são as sobras de destruições inimagináveis ​​que ocorreram no passado. Nossos hábitos diários dependem do sofrimento global – basta pensar no que acontece nas fazendas industriais com frangos e porcos.

 

Não somos apenas uma catástrofe para o nosso meio ambiente, nós surgimos dessa catástrofe e ainda hoje vivemos dela. E todos esses sacrifícios nunca serão redimidos em algum tipo de novo tribunal de Nuremberg nos condenando por nossos crimes contra a vida natural. O mais difícil não é encontrar algum significado mais profundo para o sofrimento, mas realmente aceitar sua falta de sentido.

 

Referências

 

[1] Physicists predict Earth will become a chaotic world, with dire consequences. Disponível aqui.

[2] Thomas Metzinger, Being No One, Cambridge: MIT Press 2004.

[3] Yuval Noah Harari, Homo Deus. A Brief History of Tomorrow, London: Harvill Secker 2016.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Transumanismo, a escravidão definitiva. Artigo de Slavoj Žižek - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV