O Papa Francisco está certo. A Igreja Católica não pode retroceder

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05 Agosto 2022

 

“A Igreja avança no tempo renovando-se das fontes de suas tradições e atentando ao espírito de Jesus Cristo em nosso meio. Ponto final. A chave para entender a recepção contínua do Vaticano II está precisamente aqui: não há renovação da vida da Igreja sem um retorno às fontes [ressourcement], um ressurgimento. Mas este retorno não é um fim em si mesmo. A tradição não é uma lembrança no manto que acumula poeira. Jesus Cristo pode ser 'o mesmo, ontem, hoje e sempre', mas nós não somos, e por isso cada geração de cristãos precisa construir sobre sua herança eclesial e pregar o Evangelho de novo. 'Ninguém coloca vinho novo em odres velhos'”, escreve Michael Sean Winters, jornalista estadunidense, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 03-08-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Durante sua entrevista coletiva no avião que voltava do Canadá para Roma, o Papa Francisco fez uma observação sobre os chamados tradicionalistas que irritaram alguns católicos conservadores e confundiram outros. “Uma Igreja que não desenvolve seu pensamento de maneira eclesial é uma Igreja que retrocede”, disse o papa. “Esse é o problema de muitos hoje que afirmam ser tradicionalistas. Eles não são tradicionalistas, são ‘atrasados’. A tradição é a raiz da inspiração para avançar na Igreja”.

 

A palavra-chave aqui, é claro, não é “tradicionalistas” ou “atrasados”, embora o último seja expressivo e preciso. A palavra-chave é “eclesial”. E desvendar o que o papa quer dizer pode ser encontrado no texto da palestra que Francisco deu nas vésperas na Catedral Basílica de Notre Dame, em Quebec. Lá ele deu o tipo de visão eclesiológica cristocêntrica que o Concílio Vaticano II tornou normativa.

 

Recordando sua exortação apostólica programática de 2013, Evangelii Gaudium, o Papa disse: “Isso também vale para a alegria cristã: é um dom gratuito, a certeza de saber que somos amados, sustentados e abraçados por Cristo em todas as situações da vida. Porque é ele que nos liberta do egoísmo e do pecado, da tristeza e da solidão, do vazio interior e do medo, e nos dá um novo olhar sobre a vida e a história: ‘Com Cristo, a alegria sempre renasce’ (EG, 1)”.

 

Em seguida, em seu estilo classicamente contundente, o Santo Padre perguntou: “Então, façamos uma pergunta a nós mesmos: como estamos indo quando se trata de alegria? Nossa Igreja expressa a alegria do Evangelho? Há uma fé em nossas comunidades que pode atrair pela alegria que comunica?”.

 

O papa reconheceu que uma das coisas que “ameaça a alegria da fé” em nosso tempo é a secularização, o esquecimento de Deus. “Deus parece ter desaparecido do horizonte, e sua palavra não parece mais uma bússola guiando nossas vidas, nossas decisões básicas, nossas relações humanas e sociais”, disse o papa. Não há como negar a verdade de sua observação: a secularização mudou a paisagem cultural dentro da qual a Igreja persegue sua missão. É o que fazer com este fato, e como responder a ele, onde emergem as diferenças entre a visão “atrasada” e o que Francisco designa como a visão emergente “discernidora”.

 

A primeira postura adota uma postura defensiva. Pense na fé “como uma espécie de ‘armadura’, que nos defende contra o mundo”, disse ele. “Esta visão se queixa amargamente de que ‘o mundo é mau; o pecado reina’ e, portanto, corre o risco de se revestir de um ‘espírito de cruzada’”. Se adotarmos acriticamente essa resposta negativa à cultura ambiente, “terminaremos negando a encarnação: fugiremos da realidade, em vez de encarná-la em nós. Fecharemos em nós mesmos, lamentaremos nossas perdas, reclamaremos constantemente e cairemos em melancolia e pessimismo, que nunca vêm de Deus”.

 

Se você quer um exemplo recente dessa visão de mundo, prova positiva de que o Santo Padre não está exagerando nem um pouco, confira o programa “The World Over” de Raymond Arroyo na EWTN, que contou com a participação dos teólogos Chad Pecknold, da Universidade Católica da América, e Peter Kwasniewski, do St. Paul Center, de Steubenville, Ohio (o segmento começa às 14:35 no vídeo abaixo). O diálogo mostra aquela qualidade “fechada”, cheia de lamentação, reclamação, melancolia e pessimismo.

 

 

Além disso, eles invocam a tradição da mesma forma que alguns fundamentalistas invocam a inerrância. Anos atrás, quando eu estava começando a pesquisa para o que se tornou meu segundo livro, “God's Right Hand: How Jerry Falwell Made God a Republican and Baptized the American Right” (“A mão direita de Deus: Como Jerry Falwell fez de Deus um Republicano e dos batizados direitistas”, em tradução livre), o que me surpreendeu toda vez que o encontrei foi o fato de que os fundamentalistas pareciam alegremente inconscientes que sua interpretação literal da Bíblia era na verdade um tanto nova, até moderna. Quando você apontou na conversa as diferentes maneiras pelas quais os pais da Igreja interpretaram as Escrituras, eles ficaram completamente imperturbáveis.

 

O Santo Padre oferece uma abordagem diferente, o caminho do discernimento. Confiando explicitamente na importante exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi, do Papa Paulo VI, Francisco argumenta que a secularização é uma legítima independência da jurisdição eclesial, e a distingue do secularismo, que é uma ideologia agressiva. Ele escreve:

 

São Paulo VI distinguia a secularização do secularismo, uma concepção de vida que separa totalmente o vínculo com o Criador, de modo que Deus se torna “supérfluo e um estorvo”, e gera sutis e diversas ‘novas formas de ateísmo’: ‘a sociedade de consumo, a busca de prazer estabelecido como o valor supremo, um desejo de poder e dominação, e discriminação de todo tipo’ (ibid). Como Igreja, e sobretudo como pastores do Povo de Deus, como consagrados e consagradas, seminaristas e agentes pastorais, cabe-nos fazer estas distinções, fazer este discernimento. Se cedermos à visão negativa e julgarmos as coisas superficialmente, corremos o risco de enviar a mensagem errada, como se a crítica à secularização mascarasse de nossa parte a nostalgia de um mundo sacralizado, uma sociedade passada em que a Igreja e seus ministros tinham maior poder e relevância social”.

 

É vital notar que Paulo VI – e o Papa João Paulo II e o Papa Emérito Bento XVI também! – viu o que tantos conservadores católicos estadunidenses se recusam a ver: a ligação entre sociedade de consumo, prazer, poder, discriminação e secularismo. O secularismo só parece incomodar os católicos conservadores quando procura impor normas sexuais mais liberais à sociedade. E, com certeza, os católicos liberais precisam repensar a maneira como aceitam com muita facilidade atitudes secularizadas, até libertárias, nas discussões sobre ética sexual, como a discussão após a sentença do caso Dobbs [que revoga a jurisprudência anterior que permitia o aborto em território nacional; e delega a decisão legislação para cada estado da federação] infelizmente demonstrou.

 

Francisco propõe uma abordagem diferente. “A secularização representa um desafio para nossa imaginação pastoral, é 'uma ocasião para reestruturar a vida espiritual em novas formas e para novas formas de existir'”, disse ele, citando o livro “A Era Secular”, de Charles Taylor (2007). O Papa sugeriu que a Igreja enfrente este desafio com alegria e não tristeza, com testemunho e não com palavras: “O Evangelho precisa ser anunciado se quisermos comunicar a alegria da fé aos homens e mulheres de hoje. Mas essa proclamação não é principalmente uma questão de palavras. Um anúncio que deve se concretizar em um estilo de vida pessoal e eclesial que possa reavivar o desejo do Senhor, infundir esperança e irradiar confiança e credibilidade”.

 

A Igreja avança no tempo renovando-se das fontes de suas tradições e atentando ao espírito de Jesus Cristo em nosso meio. Ponto final. A chave para entender a recepção contínua do Vaticano II está precisamente aqui: não há renovação da vida da Igreja sem um retorno às fontes [ressourcement], um ressurgimento. Mas o recurso não é um fim em si mesmo. A tradição não é uma lembrança no manto que acumula poeira. Jesus Cristo pode ser “o mesmo, ontem, hoje e sempre”, mas nós não somos, e por isso cada geração de cristãos precisa construir sobre sua herança eclesial e pregar o Evangelho de novo. “Ninguém coloca vinho novo em odres velhos” (Lc 5,37).

 

A notável fala de Francisco aos bispos, clérigos e religiosos em Quebec não foi apenas um convite à Igreja no Canadá para se renovar, mas um convite à Igreja universal. Jesus Cristo é o vinho sempre novo. Cabe a nós encontrar novos odres, e retrocedendo nunca os encontraremos.

 

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