Guerra mundial com sangue local. Artigo de Raniero La Valle

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23 Junho 2022

 

"O mundo pode ser pensado assim? Dividido em castas: acima de todos, os estadunidenses, como brâmanes; fora de casta, a Rússia; no comando, a casta dos guerreiros, heróis e carrascos; no meio, a casta dos mercadores, multinacionais, banqueiros, fabricantes de armas e, no fundo da escala, o infinito grupo dos intocáveis, dos serviçais, dos pobres, dos fugitivos, dos excluídos, mais numerosos que as estrelas do céu; 100 milhões de migrantes este ano, quase 6 milhões de pobres absolutos na Itália. Não é apenas o fim da era moderna, como o padre Balducci pensou que fosse a Guerra do Golfo. Aqui estamos no fracasso da razão e do direito, na derrubada das esperanças de 1989, no desprezo pelo mundo e pela história", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di tutti, Chiesa dei poveri, 22-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O crime perfeito não é aquele cujo autor não se consegue descobrir, mas aquele que uma vez arquitetado, ninguém é mais capaz de impedir que se realize. Hoje estamos a um passo de consumar o crime de uma guerra que muda natureza, que está apenas aguardando seu Pearl Harbor para precipitar numa guerra mundial, como aconteceu em 7 de dezembro de 1941, quando a provocação japonesa aos Estados Unidos marcou o verdadeiro início da Segunda Guerra Mundial. E como naquela época foi um almirante japonês, no comando da frota, Yamamoto, que acendeu o pavio, agora devemos tomar cuidado com um chefe do Estado-Maior britânico, o general Sanders, que fala de uma "nova era" e diz que deve obedecer ao imperativo de tornar seu exército "o mais letal possível" para derrotar a Rússia na Europa, naquela que poderia ser a Terceira Guerra Mundial; ou o deus ex machina poderia ser o chefe do Estado-Maior estadunidense, o general Milley, que prevê uma "longa guerra de desgaste" na Europa, já recheada pelos aliados ocidentais com 97.000 sistemas antitanques, mais do que todos os tanques no mundo.

 

De acordo com esses discursos, parece que a única coisa capaz de desconjurar essa passagem para uma guerra em larga escala seria que a Rússia aceitasse a derrota que lhe foi prometida, a segunda em pouco mais de 30 anos: aquela derrota que, ao contrário, se declara inaceitável para a Ucrânia, a única, como disse Draghi entregando-se a Zelensky sem que nenhum Parlamento lhe tivesse dado o mandato, "a ter que decidir a paz que quer". Mas a derrota para a Rússia poderia até ser a extinção, como explica a análise impiedosa de "Limes".

 

Segundo o papa, que há tempo denuncia a guerra “em pedaços” que engole e dilacera povos inteiros, a guerra mundial já começou. Disse isso ao falar aos editores das revistas culturais dos jesuítas europeus: “Pois bem, para mim hoje a Terceira Guerra Mundial foi declarada - disse - E este é um aspecto que deveria nos fazer refletir. O que está acontecendo com a humanidade, que teve três guerras mundiais em um século? Eu vivo a primeira guerra na memória do meu avô no Piave. E depois a segunda e agora a terceira. E isso é um mal para a humanidade, uma calamidade. Deve-se pensar que em um século três guerras mundiais se sucederam, com todo o comércio de armas existe por trás disso!"

 

A guerra, portanto, toma suas novas medidas. São as de uma guerra mundial com sangue local; as armas, de "soviéticas" passadas a "atlânticas", são universais, o sangue é das pátrias; a morrer são ucranianos e russos, mas também mercenários, combatentes embebbed, foreign fighters; mas ninguém tenha a ilusão de que nesse novo curso da guerra também o sangue não se torne universal.

 

E quais são as causas? Vamos deixar que o explique, em "Guerra e Paz", Leon Tolstoy, que sabia bem o que significava, para a Rússia, ter todos os exércitos contra: "Em 12 de junho (1812) as forças da Europa Ocidental cruzaram as fronteiras da Rússia e a guerra principiou, isto é, ou seja, produziu-se um fato acontecimento em desacordo completo com a razão humana e a própria natureza do homem... Quais foram as causas?... Entende-se que foram apresentadas aos contemporâneos; mas para nós - posteridade - que contemplamos o acontecimento em toda a sua enorme vastidão... essas causas parecem inadequadas. É incompreensível para nós que milhões de pessoas cristãs tenham matado e martirizado umas às outras porque Napoleão era ambicioso, Alexandre era obstinado, a política da Inglaterra era astuta e o duque de Oldenburg fora ultrajado… "

 

Como se conhecem muito bem os arquitetos do crime que está ocorrendo, evitamos de personalizar as culpas e fazemos uma operação de verdade para apreender a concatenação das causas que nos trouxeram até aqui; com a advertência, sugerida mais uma vez pelo Papa Francisco, de “nos afastarmos do normal esquema ‘Chapeuzinho Vermelho’: Chapeuzinho Vermelho era boa e o lobo era mau. Não há bons e maus metafísicos aqui, de forma abstrata. Algo global está emergindo, com elementos muito entrelaçados entre si. Alguns meses antes do início da guerra, me encontrei com um chefe de Estado, um homem sábio, que fala pouco, realmente muito sábio. E depois de falar sobre as coisas de que queria falar, ele me disse que estava muito preocupado com a movimentação da OTAN. Perguntei-lhe por que, e ele respondeu: ‘Eles estão latindo às portas da Rússia. E eles não entendem que os russos são imperiais e não permitem que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles’. Ele concluiu: 'A situação poderia levar à guerra.' Essa era a sua opinião. A guerra começou em 24 de fevereiro. Aquele chefe de Estado soube ler os sinais do que estava acontecendo”.

 

A questão é que o cachorro da OTAN tem dentes atômicos. Portanto, a Rússia reagiu, mobilizando 100.000 homens como dissuasão nas fronteiras da Ucrânia. A Ucrânia respondeu dando-se o papel de um país soberano seguro de si que se alia a quem quer, encenando a tragédia de sua própria oferta sacrificial pela redenção do mundo. Os Estados Unidos intervieram para punir a Rússia com sanções "nunca vistas antes" com o objetivo de reduzi-la à condição de pária, reivindicando a doutrina da segurança baseada na submissão de outros. A Europa escolheu a cobeligerância com uma unidade inesperada, saturando com armas o campo de batalha e abrindo seus parlamentos para a cobertura televisiva ao vivo do ator principal. Finalmente, a OTAN entrou em campo, assumindo a direção colegial da guerra nos conselhos dos ministros da defesa em Bruxelas e nas visitas aos mais altos escalões em Kiev.

 

Mas a OTAN não é uma potência soberana dotada de seu próprio “ius ad bellum”. Nem mesmo de acordo com a teoria do Estado de Hobbes ou da guerra justa contra os bárbaros de De Vitoria a OTAN tem direito de guerra e, portanto, nem mesmo responde por ela. E se a OTAN que, como os ídolos, tem boca e não fala, olhos e não vê, ouvidos e não ouve, trinta garras e não cabeça, começa a fazer guerras, significa que toda a ordem internacional, por mais iníqua que fosse, desapareceu. Já havia acontecido quando a OTAN havia feito guerra à Iugoslávia, que de fato não existe mais, e também havia bombardeado a embaixada chinesa em Belgrado, alertando que quando se começa com a Rússia na Europa, como dizem os analistas, a partida final é no Oriente com a China.

 

Mas o mundo pode ser pensado assim? Dividido em castas: acima de todos, os estadunidenses, como brâmanes; fora de casta, a Rússia; no comando, a casta dos guerreiros, heróis e carrascos; no meio, a casta dos mercadores, multinacionais, banqueiros, fabricantes de armas e, no fundo da escala o infinito grupo dos intocáveis, dos serviçais, dos pobres, dos fugitivos, dos excluídos, mais numerosos que as estrelas do céu; 100 milhões de migrantes este ano, quase 6 milhões de pobres absolutos na Itália. Não é apenas o fim da era moderna, como o padre Balducci pensou que fosse a Guerra do Golfo. Aqui estamos no fracasso da razão e do direito, na derrubada das esperanças de 1989, no desprezo pelo mundo e pela história.

 

Ainda estamos a tempo de desconjurar o crime perfeito? A alternativa ao crime é uma refundação da política, que a subtraia de sua má identificação com a mitologia do inimigo e de sua sublimação no sacrifício das vítimas. Ao contrário da ideologia vitimista, a unanimidade violenta estabelecida no sacrifício das vítimas é incapaz de recompor a unidade social e estabelecer aquele deserto que chamam de paz; os recursos sacrificais esgotaram-se, a única esperança é o retorno da razão e a conversão do amor.

 

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