Famintos por finanças e bombas, voltamos a nos preocupar com o alimento. Artigo de Carlo Petrini

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30 Mai 2022

 

"A financeirização do sistema alimentar embaralhou as cartas, fazendo com que os efeitos de uma guerra caíssem sobre todo o mundo. E depois há o abandono progressivo da soberania alimentar, uma escolha feita e apoiada por todos os países do primeiro mundo, durante a chamada Revolução Verde", escreve Carlo Petrini, fundador do Slow Food, ativista e gastrônomo, sociólogo e autor do livro Terrafutura (Giunti e Slow Food Editore), no qual relata suas conversas com o Papa Francisco sobre a "ecologia integral” e o destino do planeta, em artigo publicado por La Stampa, 28-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

Trancados nos silos ucranianos, diz o presidente Zelensky, há 22 milhões de toneladas de trigo.

 

Mercadorias paradas onde, há três meses, trava-se uma guerra que mata, gera sofrimento, empobrece e lança na desordena os esquemas tranquilizadores da globalização a que estamos acostumados há décadas, em todos os cantos do planeta. Se nesta parte do mundo estamos acertando as contas com a inflação, há quem esteja pior. E não estou falando apenas daqueles que na Ucrânia perderam filhos, pais, amigos e o hábito de uma vida normal, mas daqueles que precisam se acertar com a fome a centenas de quilômetros do terreno em disputa.

 

O trigo parado na Ucrânia, de fato, está causando uma crise alimentar que, nas próximas semanas, atingirá diretamente 50 milhões de pessoas. Nem na Itália, nem na Europa, nem mesmo nos Estados Unidos, na Índia ou China. Quem deixará de receber o trigo ucraniano, aquele que o exército russo mantém em xeque ao bloquear as exportações por via marítima, são os países do continente africano e do Oriente Médio. Um longo rastro de sofrimento, pobreza e até morte.

 

Tomemos como exemplo o Egito e o Líbano. São duas das nações mais expostas à crise do trigo ucraniano e, por uma zombaria do destino nada engraçada, são também algumas das áreas onde nasceu a agricultura, onde o trigo foi semeado pela primeira vez na história da humanidade.

 

Ou tomemos a Líbia, Síria, Iêmen, Somália: cantos do mundo onde guerra e violências convivem há anos e onde hoje a crise alimentar está piorando ainda mais. Deveríamos cuidar disso, ou pelo menos nos preocupar? Se o senso de humanidade não é motivo suficiente para abrir os olhos para a questão, vejamos o lado prático da situação: a explosão de uma crise alimentar nos países importadores de sementes e grãos ucranianos entre a África e a Ásia poderia se refletir na Europa com uma significativa retomada dos fluxos migratórios que pressionariam em primeiro lugar os países do Mediterrâneo.

 

Chama-se globalização: dos negócios e das finanças, dos bens que viajam de uma parte do planeta para outra, das pessoas que se deslocam em busca de paz e condições de vida dignas.

 

Em um mundo que está interconectado e interdependente até este ponto, nada causa surpresa. Felizmente, também o conhecimento pode se mover com a mesma rapidez e eventualmente gerar uma centelha de mudança. O importante é nos perguntarmos sobre as causas, as razões, os porquês do que acontece: o preço oferecido aos agricultores italianos pelo trigo, por exemplo, desde a década de 1970 permaneceu praticamente inalterado por trinta anos. Quem, com o novo milênio às portas, estaria disposto a trabalhar pelo mesmo salário de trinta anos antes? E assim adeus ao nosso tenro trigo, que hoje atende um terço das necessidades italianas.

 

É claro que não é o trigo ucraniano que acaba em nossas mesas, porque nos abastecemos em outros lugares; mas a financeirização do sistema alimentar embaralhou as cartas, fazendo com que os efeitos de uma guerra caíssem sobre todo o mundo. E depois há o abandono progressivo da soberania alimentar, uma escolha feita e apoiada por todos os países do primeiro mundo, durante a chamada Revolução Verde.

 

Para obter colheitas abundantes sem preocupações, entregamos as chaves da alimentação aos gigantes da química, que hoje comercializam as sementes mais usadas no mundo e ao mesmo tempo produzem os pesticidas. Mas os preços dessas licenças, lá onde nasceu a agricultura, não podiam ser mantidos, então simplesmente se parou de cultivar. Tudo e imediatamente. A filosofia mesquinha do século XXI. Estamos pagando o preço agora e o pagaremos no futuro, a menos que finalmente comecemos a agir de outra maneira, ou seja, pensando nas consequências das nossas ações.

 

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