Por uma nova ordem internacional. Artigo de Roberta De Monticelli

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13 Mai 2022

 

Uma luz na “casa comum” desafia a escuridão do pensamento arcaico. O “novo pensamento” de Gorbachev poderia ter aberto o caminho para a transformação dos princípios de convivência da comunidade mundial.

 

A opinião é da filósofa italiana Roberta De Monticelli, professora da Universidade San Raffaele, de Milão. O artigo foi publicado em Domani e republicado em Chiesa di tutti, Chiesa dei poveri, 11-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“Assim que me apresentei, todos se levantaram em silêncio. Na sala, respirava-se um ar de grande expectativa... Entrevi centenas de rostos, fiquei chocado. Era como se a humanidade inteira estivesse na minha frente.” Estamos em Reykjavik, na Islândia, em 1986. Michail Gorbachev, secretário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) há um ano, persuadiu Ronald Reagan a retomar as negociações iniciadas no ano anterior, em Genebra, pelo desarmamento nuclear bilateral.

 

Eu lembrei neste jornal (28 de abril) que aquela política externa, que deu ao mundo um mundo novo, devia ser o aspecto “externo” da perestroika. Gostaria de voltar a esse nexo essencial entre democratização interna e realização de uma nova ordem internacional, a partir da “casa comum europeia”, que o grande reformador derrotado tinha em mente. Ou, melhor, gostaria de ampliar ainda mais o horizonte daquele pensamento, elevá-lo, sem pudor, ao céu das ideias.

 

A perestroika queria ser, acima de tudo, uma “revolução democrática das mentes”. Pois bem: ela certamente não fracassou apenas na Rússia. Vemos isso com mais clareza hoje, quando as nossas mentes estão deslizando para baixo, rumo à sua raiz mais arcaica, e, descendo um degrau na escada evolutiva do humano, eles ouriçam o pelo e arreganham os dentes, prontos para uma guerra de extermínio das opiniões alheias, que nada tem a ver com o debate civil de razões a partir das quais as democracias deveriam viver: e pior ainda se seguram bandeiras entre os dentes, gritam os nomes de Deus – o justo, o bom, o belo – e assim criam, como dizia Simone Weil, “palavras assassinas”.

 

As guerras, que nascem nas mentes dos homens (Art. 1º da Carta da Unesco), têm esse efeito retroativo e regressivo nos corações e nas mentes, de passar o comando aos pensamentos rápidos ou aos circuitos emotivos e reativos mais alheios àquela atenção do coração e àquela revisão mental das possibilidades que definem apropriadamente esse dom de razão e graça, o humano.

 

Gorbachev não deve ter sentido a tragédia do presente apenas daquela vez, com a humanidade à espera diante dele, durante os seus breves anos no poder, de 1985 a 1991. O que cega as nossas mentes também em tempos de paz, a ponto de não vermos quase nunca nem a grandeza nem a tragédia do presente, enquanto é presente?

 

Naquela época, muito poucos líderes e intelectuais “ocidentais” haviam se dado conta da grandeza da chance que a transformação em curso na URSS podia abrir ao futuro do mundo. Ou mesmo quão grande era a expectativa da “humanidade inteira”. Que, em nós e fora de nós, é muda: até que as palavras e as ações de indivíduos, os construtores e os destruidores, a definam – ou a desfigurem.

 

Supremacia da humanidade

 

A nossa humanidade ainda é definida pelos grandes documentos normativos pós-bélicos, a começar pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas houve anos, no século passado, que hoje chamam a atenção pela altura dos ideais com os quais a humanidade parecia ter se comprometido, com os seus acordos de paz.

 

A Declaração de Dehli, por exemplo, assinada por Rajiv Gandhi e Gorbachev em 1986, enumera alguns princípios para a construção da nova ordem mundial, que, ao serem relidos agora, causam um certo efeito. A vida humana deve ser reconhecida como o valor supremo. A não violência deve se tornar a base da convivência humana. O “equilíbrio do terror” deve ser substituído por um sistema planetário de segurança internacional.

 

Mas, sobretudo, o que chama a atenção é a amplitude e a íntima coesão do “novo pensamento”, que Gorbachev, mais do que a ele mesmo, atribui à “comunidade mundial”, com a “ideia universal da supremacia da humanidade, para combater as inúmeras forças centrífugas (os nacionalismos), para preservar a vida de uma civilização que, talvez, seja a única possível no universo”.

 

O horizonte ecológico, com o Manifesto pela Terra, fecha o círculo dessa “filosofia do mundo”, rara até mesmo nos maiores líderes – como escreveu o New York Times após o discurso de 7 de novembro de 1988 na Assembleia Geral da ONU. Mas os precedentes de Wilson, Roosevelt e Churchill empalidecem diante da amplitude desse fôlego.

 

Pode-se entender também nesse sentido o dito poético sobre a Rússia que “faz fronteira com Deus”: um sentido muito mais tolstoiano do que dostoievskiano, um grande universalismo não violento e iluminado, que nada tem de místico e eslavófilo, ou mesmo de mistificações imperiais eurasiáticas à la Dugin (o chamado filósofo de Putin).

 

A amplitude do horizonte ético-político pode não estar em contraste algum com a concretude dos propósitos. Há um livro que reúne, como em um coro trágico e grotesco, supremamente gogoliano, as vozes da intelligentsia contemporâneas à queda de Gorbachev (“Russia: l’ultimo inganno” [Rússia: o último engano], de Milli Martinelli, Ed. La Nave di Teseo, 2018, republicado com o prefácio de Moni Ovadia).

 

A autora, estudiosa e tradutora que se hospedava regularmente na casa dos escritores em Peredelkino, também fala de Andrei Sakharov, “a mais límpida dessas vozes”: o grande físico, que desde os anos 1970 havia se dedicado à batalha pelos direitos humanos e pela democracia e, por isso, havia sido confinado em Gorky (Nižnij Novgorod), onde morreu em 1989, pouco antes de concluir a redação da Constituição para a nova União das Repúblicas Soviéticas Independentes, a maior reforma em que Gorby estava trabalhando.

 

O quinto artigo confere à Carta das ONU e à Declaração dos Direitos Humanos “a prioridade absoluta sobre as leis da União e das repúblicas individuais”. Palavras, pode-se dizer. O fato, porém, é que foram pessoas de carne e osso, Yeltsin como presidente da Federação Russa, e os presidentes das repúblicas independentes da Ucrânia, Kravčuk, e da Bielorrússia, Shushkevich, que proclamaram a dissolução de fato da União Soviética no dia 8 de dezembro de 1991: declaração que foi assinada não em Moscou, onde em 25 de novembro todas as representações das repúblicas soviéticas assinaram o esboço do novo Tratado de União Democrática e Federal, mas após negociações secretas na floresta de Belovez, na fronteira com a Polônia, e enviada curiosamente, em primeiro lugar, a George Bush.

 

A infância da democracia

 

Sergio Romano, na sua coletânea de artigos “Il suicidio dell’Urss” [O suicídio da URSS] (Ed. Teti), diz estar convencido de que não era possível ter agido de outra forma. Nenhum farrapo de argumento, porém, autoriza esse determinismo a posteriori, que liberta, acima de tudo, das suas responsabilidades epocais os homens que na época decidiram não apenas o futuro do mundo, mas também a extensão das expectativas que a humanidade poderia se permitir, antes que o caos, os oligarcas e as máfias abrissem caminho para o regime de Putin.

 

Queremos concluir justamente sobre essas expectativas. “A democracia ainda está na sua infância”, escreveu Tomáš Masaryk, o fundador e primeiro presidente da Tchecoslováquia após a dissolução do Império Habsburgo. Na sua infância ela ainda está hoje – e por isso permanece tão frágil nas nossas mentes, a ponto de nos permitir falar, com a língua arcaica da geopolítica, das vocações imperiais dos “povos” ou da tendência natural dos Estados de se expandirem, subjugarem, dominarem.

 

A verdade, porém, é que uma democracia não é apenas uma forma de governo político, mas também uma civilização fundada na razão, ou seja, na experiência moral de cada um, que não tem nenhuma fronteira nacional, mas agora tem instituições supranacionais que têm muito poder.

 

Masaryk foi o inspirador e o professor do seu conterrâneo Edmund Husserl, o filósofo da ideia de Europa, esta pátria que tem raízes de papel de pensamento (lento, muito lento), e por isso pode e deve renunciar àquelas de sangue e solo, assim como aos circuitos primitivos da amígdala.

 

Onde está a Europa agora? Talvez esteja despertando. Dmitry Furman escreveu que Gorbachev, que com a sua injeção de moralidade na política provocou o colapso de um sistema amoral, não teve herdeiros, pois não houve mais nenhum governante que introduziu na política a moral comum. Talvez ele esteja equivocado. Em Roma, tem alguém que continua rezando para que ela seja introduzida e que pede a Putin que o recebam para falar também sobre isso, e é papa de profissão.

 

Em Bruxelas, o primeiro-ministro italiano afirmou que a Itália “está disposta para se comprometer na linha da frente para chegar a uma solução diplomática”: está pronta porque é um país fundador da União Europeia e, portanto, sublinhou os passos necessários para que a União adquira a autoridade política de uma Federação, às custas de modificar algumas regras: a da unanimidade, por exemplo, ou o iníquo Tratado de Dublin, ou a política de acolhimento dos migrantes, de todos os migrantes.

 

A propósito das expectativas da humanidade. Talvez se abra uma fresta? Apenas para levantar uma interrogação, ao menos, à frase lapidar proferida por Dmitri Muratov, diretor da Novaja Gazeta e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, um dos poucos intelectuais europeus que veem o presente e a sua tragédia, porque sofrem com isso: “O futuro está morto”.

 

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