O putinismo, um fenômeno multifatorial. Entrevista com Yves Hamant

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28 Março 2022

 

Yves Hamant, professor de russo, doutor em ciências políticas, foi adido cultural na URSS. Primeiro tradutor de Arquipélago Gulag [para o francês], ele responde às perguntas de Jean-Louis Schlegel sobre o que sabe sobre as convicções de Vladimir Putin e sobre a natureza do fenômeno sem precedentes representado pelo putinismo.

 

A entrevista é de Jean-Louis Schlegel, publicada por Revue Esprit, março de 2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Você adverte contra o uso de clichês como “urso russo”, “czar Putin”. Você escreve que eles são redutivos. Por quê?

 

Temo que vejamos no putinismo apenas um novo avatar do império russo, assim como De Gaulle via através da URSS a “Rússia eterna”, ignorando a natureza ideocrática do projeto comunista. Estou convencido de que o putinismo é uma nova besta, um fenômeno sui generis determinado por vários fatores e certamente o pior produto do pós-comunismo. Nos tempos soviéticos, o que pode ter embaralhado as cartas foi que, quando o regime estava em apuros, mobilizou o sentimento nacional russo, como fez Stalin durante a Segunda Guerra Mundial. Para ter uma segunda legitimidade. Isso foi observado pelo filósofo e dissidente polonês Leszek Kolakowski (1).

Da mesma forma, vimos Putin exaltar Pedro, o Grande, o czar que “abriu uma janela para a Europa”, retomar o discurso dos “eurasianos” afirmando a vocação asiática da Rússia, distribuir a seus funcionários os livros de Nicolas Berdyaev e, acima de tudo, conceder à Igreja Ortodoxa um status privilegiado. Após 120 anos marcados por duas revoluções, uma guerra civil, o terror stalinista, as inevitáveis desordens que se seguiram ao colapso da URSS, a tomada gradual do poder de Putin, a eliminação da flor intelectual do país (expurgos, emigração após a Revolução e emigração pós-soviética), reina o caos na cabeça das pessoas, com um doce mil-folhas cultural.

Por todas essas razões, o putinismo não pode ser reduzido a um único fator e sua análise deve ser multifatorial.

 

Na sua opinião, o putinismo persegue objetivos específicos?

 

Penso que são de três ordens e que ele as formulou em várias ocasiões de maneira precisa: estratégica, historiográfica e ideológica.

Do ponto de vista estratégico, trata-se de garantir a segurança da Rússia, protegendo-a com um verniz de Estado com o que garantiria um controle físico direto. É marcado pela obsessão pelo cerco, que é um círculo infernal, porque quanto mais o território da Rússia se estende, mais ele é cercado! E Putin declarou sem rodeios que as fronteiras da Rússia não se detêm em lugar algum (2).

O objetivo historiográfico, memorial, consiste em impor uma nova narrativa ao mundo, colocando a Rússia no centro da história contemporânea ao derrotar a Alemanha nazista. Na Rússia, essa narrativa já se firmou e é praticamente obrigatória pela Constituição. Infelizmente, relembrar os crimes do generalíssimo que levou à vitória sem nenhuma preocupação com as perdas humanas mancharia a imagem. É por isso que a memória do stalinismo deve ser banida e isso explica a liquidação da Associação Memorial. Ao fazê-lo, esta narrativa está destinada a suplantar outra, ocidental, centrada no Holocausto.

Por fim, o objetivo ideológico, a ele vinculado, visa propagar outro modelo de poder, oposto à democracia liberal. Vladislav Surkov, ex-assessor de Putin, lutou para conceituá-lo como “democracia soberana”, depois tentou o de “Estado longo” em oposição ao “Estado profundo”, mas que fracassou depois que Surkov foi substituído por Vladimir Medinsky. Este último professa um nacionalismo bastante primitivo e é claramente o redator do artigo de Vladimir Putin “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos” (3). Ele está particularmente preocupado com a educação patriótica. Foi ele o responsável por liderar a delegação russa nas negociações com a Ucrânia. Seja como for, trata-se de um retorno à oposição entre dois grandes modelos de poder, como nos tempos da Guerra Fria.

No entanto, é precisar matizar. O putinismo pode admitir dois modos de dominação sobre um território. A dominação total e a dominação parcial no modo da finlandização tão bem descrito pelo escritor finlandês Sofi Oksanen (4). Sob o pretexto de uma democracia ocidental independente, onde os líderes eram eleitos livremente, a Finlândia estava sujeita à influência da URSS, não apenas nos campos da política externa e da defesa, mas também na economia, mídia, arte e ciência. Para dizer a verdade, a França, dado o peso do Partido Comunista Francês no pós-guerra, também experimentou uma “pequena finlandização” da opinião pública: até a publicação de Arquipélago Gulag em francês em 1974. Sofi Oksanen considera que, para a Rússia de Putin, o ideal seria estender a finlandização a toda a Europa. De fato, na medida em que a fronteira da Rússia não termina em lugar algum, não vemos onde a finlandização deve se deter.

 

Repete-se amplamente que é esse modelo que Putin gostaria de impor à Ucrânia (como Sofi Oksanen o imagina). O que você pensa?

 

Na minha opinião, a Ucrânia constitui um caso especial, sem dúvida com a Bielorrússia. Infelizmente para ela, a Ucrânia se enquadra nos três objetivos do putinismo. Estrategicamente, ela constitui o país mais importante do verniz ocidental por sua superfície, seu peso demográfico, econômico e militar. Do ponto de vista memorial, compete com a Rússia: vem diretamente do Grande Principado de Kiev (a Rus'), enquanto a Rússia moscovita descende apenas indiretamente e mais tarde. No entanto, a Rússia, de acordo com seu romance nacional, reivindica toda a herança para si: a Ucrânia é um pedaço de si mesma.

Essa convicção está firmemente enraizada no imaginário coletivo russo, inclusive entre os russos que emigraram após a Revolução. Seu grande historiador Georgi Fedotov apontou isso em um artigo premonitório sobre “O destino dos impérios” (5) escrito após a Segunda Guerra Mundial: os russos, acreditando que as nações existem desde toda a eternidade, não viram nem entenderam o despertar do sentimento nacional ucraniano.

Finalmente, a Ucrânia contemporânea, por sua aspiração à democracia liberal e seu desejo de se ancorar na União Europeia, representa do ponto de vista do putinismo um perigo ideológico absoluto: não apenas outra Rússia, mas uma anti-Rússia (6). É por isso que a Ucrânia deve desaparecer ontologicamente. Nenhum compromisso é possível.

 

Isso significa que a Rússia tem uma vocação eurasiana? E o que você pensa sobre a reaproximação com a China?

 

Se a Rússia se estende geograficamente e, portanto, geopoliticamente, sobre a Europa e a Ásia, sua cultura é inteiramente europeia e os motivos asiáticos não são mais difundidos lá do que na cultura francesa. A retomada do discurso eurasiano não conseguiu muita coisa. A narrativa eurasiana na verdade refere-se a uma série de humilhações para a Rússia. Durante dois séculos, os príncipes de Moscou empreenderam uma longa jornada para obter a investidura do líder mongol beijando seu chinelo. Foi a derrota do Império Russo pelo Japão em 1904 que foi uma das causas da primeira revolução russa. Finalmente, esquecemos os incidentes de Ussuri em 1969 pela posse de uma ilha envolvendo a URSS e a China de Mao que, além disso, considerava a desestalinização uma traição. Bem recentemente, na minha opinião, a postura de Putin na inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim foi mal interpretada.

Sabemos que Putin tem pânico da Covid. É por isso que ele fala com seus interlocutores em uma mesa de seis metros ou mais, quer se trate de convidados estrangeiros ou de seus colaboradores: não tanto para humilhá-los, mas por medo da doença. No estádio olímpico, ele estava cercado de assentos vazios, mas, ao se encontrar com o presidente chinês, superando seu medo, não observou nenhuma distância espacial. Eu vejo isso como uma forma de lealdade. A Rússia de Putin está assumindo grandes riscos ao se aproximar da China. Com sua demografia em queda livre, deixa um grande vazio a leste dos Urais que a China já começou a preencher lentamente.

 

Podemos falar de um “putinismo religioso”, de uma fusão entre o pontificado do Patriarca Kirill e o “reino” de Putin, o primeiro colocando a serviço do projeto do segundo o tema do “mundo russo” unido pela religião ortodoxa?

 

O patriarca Kirill alimentou amplamente o sentimento nacionalista e antiocidental russo por anos, incentivando ou suscitando uma série de iniciativas nesse sentido (7). Segundo ele, a civilização do “mundo russo” estava ameaçada hoje pela civilização ocidental secularizada, como há 400 anos, no início do século XVII, quando da invasão polonesa e das tentativas de latinização que a teriam feito perder sua identidade espiritual e posto fim à sua existência histórica. Seu conceito de “mundo russo” se estendendo além da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia pode de fato servir ao desejo de hegemonia do putinismo, mas apenas dentro de um certo limite e não dentro da estrutura de uma finlandização total.

O Patriarcado de Moscou hesita entre duas formas de se posicionar: como Igreja russa de caráter étnico ou como Igreja supranacional. Além disso, há rumores de que o Patriarca está em desgraça junto a Putin. De fato, dividido entre seus fiéis na Rússia e na Ucrânia, ele teve que se distanciar um pouco no momento da anexação da Crimeia, mas, por tudo isso, ele não pode mais se mostrar na Ucrânia. Ele provou ser inútil no projeto ucraniano de Putin e está até perdendo todo o apoio do Patriarcado de Moscou na Ucrânia. Sem dúvida, ele multiplica as iniciativas para tentar “se redimir” aos olhos de Putin.

 

Você atribui grande importância ao estudo do discurso...

 

Poucos meses antes de assumir a presidência da Rússia, Putin surpreendeu o mundo ao declarar que a Rússia “empurraria os terroristas para a latrina”. De acordo com uma tendência que se espalhou na sociedade russa, Putin costuma usar um vocabulário comum em ambientes de mafiosos. Como mostrou Françoise Thom, a “criminalização” da língua vem da influência dos campos, por onde passaram milhões e milhões de pessoas – não apenas políticos, mas pequenos traficantes, pequenos criminosos, criminosos, verdadeiros bandidos – sobre a sociedade civil.

Mas esta linguagem de ódio vinda do “meio” está associada a um estilo de vida, atitudes físicas e sobretudo um código de vida, uma moral, que também penetrou em parte da sociedade (8). Essa moral se baseia no equilíbrio de poder, funda comunidades com sua hierarquia, seus “patrocinadores” e seus protegidos, comporta seu próprio código de honra. Todos esses “princípios” têm um nome em russo: as poniatiïa. Eu diria que isso constitui o ethos do putinismo. Além disso, em contato com o “meio”, os oficiais da KGB também podem ter sido contaminados.

Nesse ethos poderia ser enxertado a hubris, a paranoia em que acabam afundando todos os tiranos. No entanto, convém distinguir: quando o chefe do Kremlin obriga, a dez metros de distância, cada um dos membros do Conselho de Segurança a lhe relatar, um por um e tremendo de medo, o que está em jogo: o ethos do “meio” ou a hubris do tirano? Eu me inclino para a primeira hipótese. E quando Putin fala em “desnazificar” a Ucrânia, estou convencido de que ele sabe perfeitamente que está mentindo descaradamente; isso é uma farsa e não uma ilusão. A distinção é importante porque, dependendo da hipótese adotada, a atitude a ser adotada em resposta não é a mesma. Diante do líder, não nos apresentamos na postura polida e amigável aprendida na Science-Po e na ÉNA (École Nationale d'Administration).

Em todo caso, concluirei como comecei: corre-se um grande risco em querer explicar o putinismo por um único fator. Ele resulta de um entrelaçamento de fatores e não se deve eliminar nenhum para ajustar sua resposta.

 

Notas:

 

1. Leszek Kolakowski, “Le socialisme bureaucratique peut-il être réformé?”, in Leszek Kolakowski, L’esprit révolutionnaire, Éditions complexe, 1974.

2. Frase dita em 24 de novembro de 2016, durante uma cerimônia da sociedade russa de Geografia.

3. O artigo original encontra-se no site do Kremlin, 12 de julho de 2021.

4. Sofi Oksanen, “Pour la Russie, l’idéal serait de finlandiser toute l’Europe, et pas seulement l’Ukraine”, Le Monde, 5 de março de 2022.

5. Georgy Fedotov, “Sud’ba imperiï”, The New Review [em russo], XVI, New York, 1947.

6. Artigo “Sur l’unité des Russes et des Ukrainiens”, op. cit.

7. La “Doctrine russe”, in Monde russe (Russki mir), “Le Congrès (ou plutôt ‘concilie’) mondial du peuple” russe (Vsemirny russki narodny sobor).

8. Françoise Thom, Comprendre le poutinisme, Desclée de Brouwer, 2018, p. 11 e seguintes.

 

 

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