Abusos sexuais na Igreja, “agora uma Spotlight italiana”: a campanha das organizações católicas. “Mas não pode ser a CEI a investigar”

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17 Fevereiro 2022

 

“É hora de uma Spotlight italiana”. A solicitá-la são os representantes de várias associações e realidades do mundo católico, além das vítimas de abusos, entre os quais o Observatório Inter-religioso sobre as violências contra as mulheres, Donne per la Chiesa, Voices of faith, Rete l’abuso, Adista, Comitê de la jupe, Comitato vittime e famiglie e Noi siamo Chiesa. Realidades que decidiram formar a Coordenação das Associações contra os Abusos na Igreja Católica na Itália e que lançaram a campanha #ItalyChurchToo.

 

Uma iniciativa que tem como referência o que aconteceu em 2002 na arquidiocese de Boston onde, graças a uma investigação rigorosa e detalhada do The Boston Globe, foram desmascarados centenas de casos de pedofilia do clero encobertos por décadas. Uma investigação que levou à transferência para Roma do cardeal arcebispo de Boston, Bernard Francis Law, que, no entanto, nunca foi processado nem criminalmente nem canonicamente. A investigação do Boston Globe ganhou o Prêmio Pulitzer em 2003 e depois foi tema do filme O caso Spotlight ganhador do Oscar em 2016.

 

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada por Il Fatto Quotidiano, 16-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

A partir daquela investigação, realizada pelo jornal mais popular da cidade estadunidense, passou-se para aquelas de comissões independentes, na França e na arquidiocese de Munique e Freising, que trouxeram à luz números monstruosos de abusos do clero encobertos por décadas pelas hierarquias eclesiásticas. Daí a necessidade de realizar uma investigação desse mesmo tipo também na Itália, que possa revelar a situação do país em que o Papa é primaz como bispo de Roma. Recentemente, a CEI abriu esta possibilidade que será discutida e provavelmente aprovada na assembleia geral a ser realizada no final de maio em Roma, durante a qual também será escolhido o novo presidente dos bispos italianos. Uma proposta feita durante a última assembleia geral extraordinária da CEI, em novembro de 2021, por Monsenhor Lorenzo Ghizzoni, arcebispo de Ravenna-Cervia, que também é presidente do Serviço Nacional para a proteção dos menores e dos adultos vulneráveis na Igreja.

“Uma investigação desse tipo – explicou Paola Lazzarini, presidente de Donne per la Chiesa – não pode ser conduzida pela CEI. A proposta que seu presidente, o cardeal Gualtiero Bassetti, divulgou baseia-se em centros diocesanos de escuta, que para nós não são adequados porque não se baseiam em critérios de imparcialidade. Além disso, também parecia querer de alguma forma menosprezar o fenômeno ao falar de abusos em geral. Não, é importante neste momento não diluir e concentrar-se dentro da Igreja Católica, que em primeiro lugar deve olhar dentro de sua própria casa. Para nós, a proposta de Bassetti é inadmissível e nesse sentido esperamos também numa próxima mudança nos vértices da CEI”.

Sobre os números do fenômeno na Itália, ainda bastante incertos, tentou traçar algumas estimativas Francesco Zanardi, presidente da Rete l’abuso: “A Itália é uma anomalia no cenário mundial. Depois que apareceram os dados da França, graças a uma investigação independente, esperávamos que eles assustassem a magistratura e o governo, já que 216.000 vítimas e o envolvimento de 3.000 padres foram confirmados naquele país. A Itália tem 30.000 sacerdotes a mais. Mas, pelo contrário, continuam as grandes reticências por parte das instituições e da própria magistratura”. A Rete l’abuso também realiza uma ação de mapeamento do fenômeno que pode ser consultada em seu site que, especifica Zanardi, “nos levou a contabilizar 360 casos nos últimos 15 anos”.

“Sabemos – ressaltou Marzia Benazzi do Observatório inter-religioso sobre as Violências contra as Mulheres – quão forte será o muro do silêncio, mas é por isso que nos unimos. Foi também a nossa sensibilidade como mulheres desde sempre empenhadas ao lado daqueles que sofreram violências, inclusive das freiras, que nos impulsionou a agir. Há quem pede que ainda pode haver uma transformação da Igreja, há quem tem visões diferentes, mas partilhamos a determinação de fazer com que tudo seja totalmente analisado. É uma questão de justiça, não podemos mais aceitar que tudo isso seja toldado, negado”.

Sobre o acobertamento dos abusos, Ludovica Eugenio, colunista da Adista, explicou que "é justamente olhando para a anomalia da Itália que se pode compreender as dificuldades encontradas, a cultura católica está infiltrada em todos os âmbitos, isso também explica a dificuldade de opinião pública em aceitar que a Igreja possa ser acusada. A isto junta-se certamente um percurso não feito de laicidade, há esta espécie de mistura entre poder religioso e poder civil em nível do obséquio, do respeito, do não questionamento que tem poluído um pouco as águas. Há todo um clima cultural que impede que a Igreja seja vista no banco dos réus”.

 

 

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