Habitar a terra: qual o caminho para a fraternidade universal?

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16 Fevereiro 2022

 

"Leonardo Boff adverte que a fraternidade universal e amor social não encontram condições adequadas de realização coletiva no quadro do sistema capitalista, produtivista, individualista e antiecológico ainda dominante. A fraternidade e o amor se mostram possíveis na vida e na prática do Sol de Assis", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro de Leonardo Boff, Habitar a terra: qual o caminho para a fraternidade universal? (Petrópolis: Vozes, 2022, 112 p. ISBN978655713378). 

 

Capa do livro (Foto: Divulgação)

 

Eis o texto. 

 

Leonardo Boff, ecoteólogo da libertação e mestre da teologia contemporânea, comprometeu-se, segundo o paradigma central da Teologia da Libertação, com os pobres e os menos favorecidos, contra a sua pobreza, em favor da justiça social e da libertação. No livro: Habitar a terra: qual o caminho para a fraternidade universal? (Vozes, 2022, 112 p.), assume o sonho proposto pelo Papa Francisco na Fratelli Tutti e confronta as dificuldades que nossa cultura de poder-dominação apresenta em relação à fraternidade. Mas também ousa apresentar a possibilidade de sua concretização, desde que realizemos várias pré-condições. Nas três partes que compõe esta obra, o referido autor quer trazer ao debate a urgência do amor social e da fraternidade universal, pelo menos como um modo de ser terno e despojado da vontade de poder-dominação, criando um laço de afeto e de cuidado entre todos do mundo natural e do mundo humano.

Na Introdução (p. 15-30), abordando as reais possibilidades de realização da fraternidade universal proposta por Francisco de Assis e pelo Francisco de Roma, Leonardo Boff considera os entraves/ ameaças que pesam sobre a Terra e a natureza (p. 15-16): um eventual guerra nuclear (p. 16); o progressivo aquecimento global do planeta (p. 16); a crescente escassez de água potável (p. 17-18); no risco de ultrapassagem das nove fronteiras planetárias (p. 18-20); a sobrecarga da terra (p. 20-21). Observa que: “os assim chamados eventos extremos (grandes secas de um lado e nevascas imensas de ouro ou destruidoras inundações e terremotos), aumento do aquecimento global, maior escassez de água potável, erosão crescente dos solos, desertificação de inteiras regiões, aumento de conflitos sociais (Terra e humanidade formam uma entidade complexa e, assim, a sociedade é parte viva da Terra) e a intrusão planetária da Covid-19, ocorrida em 2020/2021, constituem reações e um verdadeiro contra-ataque à ininterrupta guerra que os seres humanos, especialmente os consumistas, há séculos estão movendo contra elas” (p. 21-22). Como respostas paradigmáticas a estas ameaças foram produzidos três documentos seminais: a Carta da Terra (2003), nascida de uma vasta consulta na humanidade e assumida pela Unesco, a Laudato Si' - Sobre o cuidado da Casa Comum (2015) a Fratelli Tutti (2020):

todos estes textos, conscientes da grave situação do planeta e da vida, propõem alternativas paradigmáticas capazes de nos projetar e realizar um rumo diferente e salvador” (p. 22), isso porque, segundo o autor “tanto a Carta da Terra quanto as duas encíclicas de ecologia integral do Papa Francisco se empenham em apresentar outros princípios e novos valores que nos podem acender uma luz e mostra um rumo salvador” (p. 26-27).

Na primeira parte (p. 31-48), chamando a atenção para a revolução paradigmática trazida pela Fratelli Tutti, Leonardo Boff observa que esta “será um marco na doutrina social da Igreja por seu caráter profético e pela coragem quase inaudita de apresentar um paradigma alternativo e novo para toda a sociedade mundial” (p. 31). Além disso, “é vasta e detalhada em sua temática, extremamente crítica, o que não a impede de somar valores, até do liberalismo, que o pontífice fortemente rejeita” (p. 31).

Há, portanto, na encíclica uma recusa da ordem mundial vigente (p. 32-35). Esta “ataca diretamente as quatro pilastras que sustentam o atual sistema mundial:

  • 1) o mercado, em termos de economia;
  • 2) o neoliberalismo, em termos de política;
  • 3) o individualismo, em termos de cultura; e
  • 4) a devastação da natureza, em termos de ecologia” (p. 33).

Rejeitando a ordem vigente, a alternativa apresentada pelo Papa Francisco é beber da própria fonte da qual jorra o mais humano nos humanos, pois só aí se encontra uma base sólida, sustentável e universalizável (p. 35-39), ou seja, “o amor que deixa de ser uma experiência somente entre dois seres que mutuamente se atraem para emergir como amor social. É a amizade que ganha uma expressão social, pois não exclui ninguém, é a fraternidade entre todos os seres humanos, sem fronteiras, incluindo o espírito de São Francisco, os demais seres da natureza; é a cooperação aberta a todos os países e a todas as culturas; é o cuidado essencial, começando por cada um e expandindo-se para tudo o que existe e vive; é a justiça social, base da paz; é a compaixão para os caídos nos caminhos e uma abertura confiante ao Ser que faz todos os seres, Deus. Todo esse mundo de excelências torna humano e ainda mais humano o ser humano” (p. 35-36). Diante deste novo paradigma, verdadeira cosmovisão, essa encíclica propõe um paradigma alternativo. Para perceber a relevância deste novo paradigma, o autor confronta-o como paradigma vigente que está na base de toda a Modernidade e das sociedades atuais: o paradigma do dominus (senhor) versus do frater (irmão), da fraternidade universal e da amizade social (p. 39-41).

O “novo paradigma da fraternidade e do amor social se desdobra no amor em sua concretização pública, no cuidado dos mais frágeis, na cultura do encontro e do diálogo, na política como ternura e amabilidade” (p. 44). O que fazer então? Daí a urgência da esperança como virtude e como princípio (p. 42), a política como ternura e amabilidade para com os mais débeis (p. 44-46), o princípio de solidariedade (p. 46-47) e a contribuição fundamental das religiões (p. 47-48).

Na segunda parte (p. 49-59), o autor coloca-nos diante destas perguntas:

1) É possível a fraternidade humana como todas as criaturas? (p. 49-50),

2) Depois da Shoá e o genocídio indígena é possível a fraternidade humana? (p. 51-53),

3) Essa experiência entre agonia e deslumbramento não poderia conter eventual resposta esperançadora? (p. 54).

Leonardo Boff busca responder estas interrogações amparando-se no francês Éloi Leclerc -, considerado um dos melhores conhecedores dos ideais de Francisco de Assis. Com este, Leonardo Boff chega a conclusão que a vontade de poder (p. 57) é o grande obstáculo que impede a fraternidade humana e com todas as criaturas e que cria espaço para os massacres e a eliminação sumária de pessoas, tida como inferiores ou sub-humanas, uma vez que “onde predomina o poder dominador não há amor nem ternura” (p. 57), e, “enquanto prevalecer o poder-dominação como eixo estruturador de tudo jamais haverá fraternidade entre os seres humanos e a criação” (p. 58).

Na terceira parte (p. 61-89), o autor salientando que “almejar uma fraternidade universal dentro do contexto atual, dominado pelo capitalismo, parece ser um sonho distante, embora sempre desejado” (p. 61-62), aposta na fraternidade: “uma fraternidade humana possível: outro tipo de presença no mundo” (p. 61). Recorda que o grande obstáculo à fraternidade é a vontade de poder como dominação (p. 62-63). Nas trilhas de São Francisco, Leonardo Boff entende que a renúncia a todo poder se dá pela humildade radical (p. 63-64), a qual consiste em “pôr-se junto ao humus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs, porque todos vieram do mesmo humus” (p. 63).

A radical humildade e pobreza como geradoras de fraternidade significam uma nova presença/modo de ser no mundo e na sociedade (p. 64-67), promovendo a unidade da criação: todos, irmãos e irmãs, humanos e seres da natureza (p. 69). Assim, se a fraternidade não pode ser vivida como um estado permanente pode ser um novo tipo de presença no mundo, como um modo de ser que tanta impregnar todas as relações, mesmo dentro da atual ordem, que não é fraternal nem cooperativa, mas individualista e competitiva (p. 71-73).

Desta forma, segundo o autor, o espírito de fraternidade é uma exigência para a continuidade da vida do planeta (p. 75-76), sendo, por isso, fundamental apostar na fraternidade universal como algo possível de ser concretizado (p. 76-80). Se realisticamente acreditarmos no sonho-posta de uma fraternidade universal proposto pela encíclica Fratelli Tutti e numa paz possível e duradoura (p. 81), porém sob duas condições: a primeira é acolher a condição humana, assim como nos é dada pela criação (p. 81-82), a segunda é a estratégia de renúncia, não simplesmente de todo o poder que é necessário como serviço e como organização da sociedade, mas renúncia daquele tipo de poder que significa dominação sobre os outros, pessoas e natureza (p. 82-87). Tudo isso se torna uma responsabilidade coletiva (p. 88-89), uma vez que “cada a nós, como pessoas e como coletividade, pensar e repensar com maior seriedade, colocar esta questão presente no sonho-aposta da Fratelli Tutti” (p. 88).

Concluindo (p. 91-94), Leonardo Boff adverte que a fraternidade universal e amor social não encontram condições adequadas de realização coletiva no quadro do sistema capitalista, produtivista, individualista e antiecológico ainda dominante. A fraternidade e o amor se mostram possíveis na vida e na prática do Sol de Assis, como Dante Alighieri em sua Divina Comédia chama Francisco de Assis. Para isso devemos nos despojar de toda a arrogância de ermos o pequeno deus na Terra e de nos sentirmos irmãos e irmãs entre nós humanos e com os demais seres da natureza.

***

Tanto o Papa Francisco quanto Leonardo Boff estão unidos pela ecologia integral. A grande batalha do século XXI trava-se na ecologia, na educação, na ética, na espiritualidade para uma nova consciência ecológica que seja ambiental, social, cultural e interligada com a ciência, a política, a economia a religião. Importa fazer uma ideia integral da ecologia, uma verdadeira cosmovisão. Pierluigi Mele ao prefaciar esta obra (p. 9-14, pontua que “nunca havíamos nos deparado com uma alternativa tão clara como hoje: temos que escolher entre uma cosmologia de dominação, de conquista, de poder e uma cosmologia de cuidado e de relacionamento. A alternativa é, portanto, entre uma cosmologia de dominação e uma cosmologia de fraternidade como a Mãe Terra, nosso lar comum” (p. 10).

Na esperança de uma fraternidade universal possível e em busca de uma sociedade mais justa e fraterna, considerando as injustiças sociais, o déficit de cultura ecológica e a falta de consciência da gravidade da situação global este texto de Leonardo Boff é um excelente instrumento para desenvolvermos a consciência ecológica e a fraternidade universal construídas dia a dia através da leitura, discussão, reações, atitudes e comportamentos. Neste processo tenha-se em mente o que nos diz o autor e que parece resumir toda a proposta deste livro: “dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre as pessoas, nações e natureza, ela sempre estará inviabilizada e até negada. No entanto, se ela não pode ser vivida como um estado permanente poderá ser realizada de outra forma, com um espírito, como uma nova presença e como um novo modo de ser que tenta impregnar todas as relações, mesmo dentro da atual ordem, que não é fraternal nem cooperativa, mas individualista e competitiva. Mas isso somente é possível na condição de cada pessoa ser humilde, de se colocar junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada pessoa um irmão e uma irmã, colocados sob o mesmo humus, onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos” (p. 72-73). Isso porque entre irmãos e irmãs vigora amor, cuidado e um profundo sentimento de pertença.

 

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