“Não há capitalismo sem extrativismo. E o capitalismo implica a reafirmação de uma estrutura colonial da economia mundial”. Entrevista com Horacio Machado Aráoz

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03 Fevereiro 2022

 

Horacio Machado Aráoz é autor do livro Potosí, el origen. Genealogía de la minería contemporánea (Editorial Mardulce), no qual traça a ligação do extrativismo desde a chamada “Conquista da América” até hoje, com exemplos específicos como a Minera Alumbrera (em Catamarca, Província da Argentina).

 

“Ser fornecedor de matérias-primas obedece a um padrão de divisão internacional do trabalho herdado da época colonial. O extrativismo é uma característica estrutural do capitalismo como sistema de acumulação global. Para que essa acumulação ocorra, é preciso haver zonas coloniais, de sacrifício, que forneçam os subsídios ecológicos para esse consumo desigual do mundo”, explica.

 

Horácio é pesquisador do Conicet, professor da Universidade de Catamarca, integrante das assembleias catamarcanas contra a megamineração e da organização Sumaj Kawsay (“bem viver”).



A entrevista é de Darío Aranda, publicada por Página/12 e reproduzida por Observatorio Plurinacional de Aguas, 18-01-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Com base no livro “Potosí, el origin”, que semelhanças há entre aquele modelo iniciado em 1492 e o atual?



O que aparece intacto sob a diversidade de formas de extrativismo é a figura do conquistador como protótipo dos humanos e como forma de se relacionar e conceber a relação com o mundo. O conquistador, desde Pizarro, Cortés, Pedro de Valdivia, são homens armados, violentos, em busca de enriquecimento rápido, que olham o mundo como puro objeto de posse e conquista e concebem a vida como uma infinita corrida de riquezas e poder.

Em termos subjetivos, o olhar de Colombo enviesado pelo brilho do ouro é o olhar do sujeito moderno contemporâneo, da racionalidade que pensa a conquista das riquezas e valores abstratos como o sentido último da existência, que é a matriz do extrativismo.

 

E as diferenças?



Há diferenças, grandes e múltiplas, especialmente nos modos de produção; o regime de dominação e destruição de hoje é infinitamente maior hoje. O poder também se tornou mais complexo, tem uma enorme capacidade de sedução, de persuasão, e o modo de vida imperial se impõe como matriz evolutiva. A capacidade de destruição associada à capacidade de sedução é o que Aníbal Quijano chama de “lógica da colonialidade”.

O modo de vida imperial, do conquistador, aparece também como desejado pelos conquistados e colonizados. Esse modelo nos levou a um limiar de desumanização, de naturalização da violência, a viver relacionando-nos com a Mãe Terra a partir da lógica do saque, com os efeitos sanitários e socioambientais que já conhecemos.

 

Mas também há resistências.



Esses cinco séculos de dominação extrativista colonial não foram em vão. Não foi uma dominação passiva. Há toda uma história de lutas, um aprender com as lutas passadas. Sementes de humanidade que nos restam. Se queremos sustentar e lutar pela sobrevivência da humanidade temos que ir ao banco de sementes da história, que são a resistência, a luta dos povos originários, das mulheres, a luta dos trabalhadores, de todos os oprimidos do mundo.

Existe um banco de saberes, de conhecimento, que está disponível hoje. Todas essas lutas, diferentes expressões contra a dominação patriarcal-colonial-capitalista, são todas necessárias, mas nenhuma delas é por si só. Estamos diante de um grande desafio de uma sinfonia de lutas populares: é a consciência que temos da integração das lutas, do ecologismo popular.

 

Extrativismo e capitalismo são sinônimos?



Não há capitalismo sem extrativismo. E o capitalismo implica a reafirmação de uma estrutura colonial da economia mundial. Por isso é incompreensível que, no século XXI, governos que dizem querer uma mudança progressiva insistissem com base em um modelo já fracassado, conhecido e debatido na América Latina, com consequências econômicas, políticas e sociais que consolidam a dependência.

Um aprendizado deveria ser que, como países herdeiros de um regime colonial, não podemos aspirar a um modelo de desenvolvimento igual ou equivalente ao dos países industrializados. Devemos aspirar a outro modelo, baseado em outra matriz de produção e consumo.

 

Um olhar recorrente é assinalar que o extrativismo é uma “contradição secundária” ou uma etapa anterior para alcançar o “desenvolvimento” posterior.



É uma posição totalmente equivocada, que reproduz velhos erros da esquerda ortodoxa do século passado, revela uma cegueira epistêmica que esses setores de esquerda têm em relação à natureza. Eles seguem sem entender que o capitalismo não é apenas a depredação da força de trabalho, mas também produz a depredação das fontes de vida, a natureza, das quais o trabalho é um aspecto a mais.

A velha esquerda é uma esquerda produtivista, pensa nos termos do capitalismo no que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico, tem fé cega na expansão das forças produtivas, acredita em um horizonte de crescimento infinito. Isso que poderia ser perdoado para Marx ou Engels, no século XIX, é incompreensível nos tempos atuais.

 

Que perspectivas alternativas existem?



A teoria social crítica latino-americana nasceu com questionamentos sobre as consequências desse modelo primário exportador. Houve teóricos e governos que propuseram um modelo diferente para a região entre as décadas de 40, 50 e 60 do século passado, muitos deles inspirados na chamada “escola da CEPAL” (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), onde o economista Raúl Prebisch foi uma das referências.

Há mais de meio século sabe-se que o extrativismo não é uma alternativa válida para o desenvolvimento. Essa matriz extrativista tem consequências em termos de classe social, gera uma distribuição de renda que tende à polarização social, consolida as elites e acarreta pouca redistribuição. Não temos a possibilidade de nos desenvolvermos nesses termos, e qualquer possibilidade de pensar e implementar outros caminhos, que sejam emancipatórios, torna-se inviável.

 

Como se sai do extrativismo?



Acho que não há saídas capitalistas para o extrativismo. Isso nos obriga a pensar radicalmente as alternativas. Como o extrativismo é uma dimensão intrínseca do capitalismo, sair dele é imaginar outros horizontes civilizatórios.

Existem muitas comunidades que vivem em territórios que fogem dos padrões do capitalismo, vivem na base do uso comunal de conhecimentos, saberes, terras e sementes. Na nossa América temos muitas comunidades que vivem fora desse padrão extrativista. Precisamos começar a imaginar essas saídas.

 

Como seriam essas opções?



São inúmeras as propostas, tanto de pesquisadores quanto de organizações sociais, que estão propondo políticas para modificar a matriz produtiva, alternativas construídas de baixo que constroem outras territorialidades e são essenciais para sair do extrativismo. Imaginemos sociedades baseadas na soberania alimentar, energética e hídrica como pilares fundamentais para pensar a independência econômica, política e cultural.

Há anos, organizações vêm pensando nisso e colocando em prática, como a Conaie (Confederação de Nações Indígenas do Equador), a Rede de Comunidades Atingidas pela Mineração no México, o Movimento Mundial contra Barragens na Mesoamérica e a própria UAC (União das Assembleias Cidadãs).

O futuro da espécie humana está em poder reaprender, em nos sentirmos novamente conectados à vida, ao ar, à terra, à água. E desconectar-nos do aparato tecnológico e financeiro que nos afastou do mundo, nos imergiu em um mundo de telas e conexões abstratas. Precisamos sair desse ambiente para ter alternativas, para ter outro futuro.

 

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