O celibato e a castidade do padre (Parte 1)

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14 Dezembro 2021

 

“Há anos, eu vivo a minha consagração e conheço cada vez melhor a realidade do sacerdócio nas várias realidades italianas. Também à luz do meu percurso e da minha experiência, estou cada vez mais convencido de que o celibato imposto aos Francesco Cavallini, celibato, castidade, padre, Igreja Católica, sacerdócio não é mais sustentável.”

 

A reflexão é de Francesco Cavallini, padre jesuíta natural de Bérgamo, na Itália. Ele aprofundou seu conhecimento das terras bíblicas e há mais de 20 anos acompanha os peregrinos à Terra Santa. Trabalhou muito com os jovens em Gênova, Pádua, Roma, Bolonha, Milão e hoje em Palermo.

 

O artigo foi publicado em La Barca e il Mare, 07-11-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O celibato e a castidade do padre caminham de mãos dadas. Na história, o convite à castidade chegou primeiro (a ser vivido pelos sacerdotes também no matrimônio) e só depois o celibato. No entanto, para um sacerdote, hoje, na Igreja do Ocidente, celibato e castidade se identificam.

Sabemos que a castidade é, acima de tudo, uma atitude do coração, que deveria fazer parte de todas as relações maduras. Mas aqui estamos falando da castidade sexual.

 

Castidade e celibato não escolhidos, mas sofridos

 

A minha experiência é que muitos sacerdotes não escolhem, mas sofrem. Pessoas que, com generosidade, querem doar a vida para dar a conhecer o Senhor, para servir a comunidade, para anunciar o Evangelho e, para fazer isso, também devem se encarregar do celibato/castidade.

No ímpeto inicial autenticamente generoso, pensaram que poderiam alcançar isso com o próprio compromisso e abnegação. Mas a realidade se mostra mais difícil.

A teoria é de que a Igreja Católica ordena pessoas que, entre várias características, já demonstraram viver positivamente a castidade. A realidade não é assim. E é preciso dizer isso. Muitas vezes, ela é sofrida como parte de um pacote que é preciso pegar como um todo.

E, se não for escolhida e sobretudo se não for um dom (“carisma”, costuma-se dizer) de Deus e nem mesmo particularmente desejada e invocada, em longo prazo, ela provoca muitos e diversos problemas.

São inúmeros os sacerdotes que têm histórias, aventuras, relacionamentos secretos, com os muitos sofrimentos que daí derivam. Outros têm modalidades de compensação insalubres: excesso de comida ou de esporte, hobbies vários. Às vezes, chega-se a fenômenos de pornografia ou a um apego excessivo a obras, ou a situações, ou a pessoas. Outras vezes, chega-se a situações de personalidades complexas e problemáticas.

 

Percurso educativo da vida de casal

 

A minha experiência é que um percurso de verdade, autenticidade, amadurecimento afetivo ocorre muito mais facilmente vivendo uma relação exigente de casal. É um cotejo profundo em uma relação de amor que não existe na vida do sacerdote e do religioso. E, dentro de uma relação de amor, viver a ternura e a paixão física gera muito mais ordem e harmonia na pessoa. No fim, essa harmonia é mais positiva do que muitos exercícios e ascetismos na vida de um sacerdote que não escolheu e não tem o dom da castidade.

É claro que a imaturidade afetiva e a fragilidade psicológico-afetiva não são redutíveis apenas à vida de solteiro do sacerdote, mas são um aspecto que perpassa toda a sociedade. É verdade. Isso remete ao fato de que há uma transformação antropológica, sociológica, psicológica em relação às gerações que nos precederam, que todos nós sentimos.

E isso afetou o modo como as pessoas vivem e expressam a própria afetividade. Pensemos em como as gerações anteriores eram carentes de gestos de afeto e como estavam acostumadas a viver colocando entre parênteses a própria afetividade.

 

Para ser padre, não basta ser celibatário

 

O celibato e a castidade do sacerdote: um binômio “necessário”. Mas, no sacerdote que não tem o dom da castidade e a “sofre”, esse binômio necessário gera mais problemas do que em outras camadas da sociedade.

Eu também conheci sacerdotes que não têm dificuldade para viver o celibato e a castidade. Mas são particularmente “apagados” em todo o restante também. Pouca iniciativa, pouca paixão e pouca capacidade de envolvimento... Não causam problemas em relação ao celibato... Mas acho que não são esses os sacerdotes de que a comunidade precisa.

Além disso, devido à estrutura clerical da comunidade cristã, quando um padre tem esses problemas, é toda a comunidade que sente isso excessivamente. Também por causa do clericalismo, infelizmente, em muitas dioceses, a fim de compensar a diminuição dos padres, admitem-se ao sacerdócio pessoas que causam problemas no âmbito da maturidade afetiva.

A castidade e o celibato certamente são um dom que muitos sacerdotes e religiosos vivem da melhor forma possível e são um presente para toda a comunidade, capazes de gerar muito bem para as pessoas. Eu conheço muitos deles que os vivem assim e tenho uma profunda estima por eles.

 

Minha convicção pessoal sobre o celibato

 

Mas, também por causa das transformações acima mencionadas, não posso deixar de constatar que são cada vez mais numerosos aqueles que, em vez disso, os vivem de um modo problemático e às vezes até desviado ou patológico.

Muitas motivações teológicas, administrativas e gerenciais nos séculos anteriores aconselharam a Igreja Católica a ordenar sacerdotes somente aqueles que prometiam celibato e castidade. Acho que hoje tais motivações não são nem mais sustentáveis nem capazes de manter ao longo do tempo a totalidade dos padres nessa escolha.

Em conclusão, creio que chegou a hora de abolir essa obrigação e acho que se pode desempenhar o serviço sacerdotal à comunidade em uma Igreja não clerical também como casado.

 

Leia a parte 2 aqui.

 

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