Sobre o papa na Grécia, a sombra do cisma

Foto: Vatican Media

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07 Dezembro 2021

 

Uma nuvem escura e não nominada pairou sobre a viagem do papa nos mundos da ortodoxia cipriota e grega, embora iluminada por palavras importantes e cortantes pronunciadas por Francisco: o cisma iminente entre as Igrejas irmãs de Moscou e Atenas. Igrejas muito divididas devido à "autocefalia" (independência canônica) da Igreja Ucraniana.

 

O comentário é de Luigi Sandri, publicado por L'Adige, 06-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini

 

O pontífice - que regressou na segunda-feira a Roma depois de uma viagem que começou quinta-feira – visitando no domingo a ilha grega de Lesbos, passagem fronteiriça com a Turquia, onde milhares de pessoas que buscam chegar à Europa Ocidental estão confinadas em situações precárias, recordou as pessoas, entre as quais muitas crianças, que morreram no mar nos últimos anos enquanto tentavam chegar a uma nova pátria: “O Mediterrâneo, que por milênios uniu povos diferentes, torna-se um frio cemitério sem lápides. Esta grande bacia de água, berço de muitas civilizações, parece agora um espelho de morte”. E, ao encontrar um grupo de migrantes: “Irmãs, irmãos, os vossos rostos, os vossos olhos pedem que não nos viremos para o outro lado”.

 

Mas, junto com os problemas humanitários dos países visitados, Bergoglio abordou também os problemas eclesiais, partindo do pressuposto de que Chipre e Grécia são maciçamente ortodoxos.

 

Pois bem, tanto encontrando-se com o arcebispo de Nicósia (Crisóstomos II) como com o de Atenas (Ieronymos II), com os seus Sínodos, disse: “Acabámos de iniciar, como católicos, um itinerário para aprofundar a sinodalidade e sentimos que temos muito a aprender com vocês". Referência ao fato de que, tendo em vista o Sínodo dos Bispos de 2023, o próprio Pontífice pediu a mais ampla participação dos fiéis para bem prepará-lo. Mas com o primaz grego tocou outro ponto, mais delicado: “A história tem seu peso e hoje sinto a necessidade de renovar o pedido de perdão a Deus e aos irmãos pelos erros cometidos por tantos católicos”. Quais "erros"? Nas escolas gregas é lembrado que em 1204, durante a IV cruzada, soldados ocidentais - entre eles os venezianos - assaltaram e conquistaram Constantinopla, realizando um massacre e transformando as igrejas em estábulos para os cavalos. Foi então que, até mesmo na consciência dos simples fiéis ortodoxos, os católicos foram considerados bárbaros violentos. E assim a divisão entre latinos e bizantinos, formalmente iniciada em 1054, tornou-se uma realidade que nunca mais foi superada.

 

No entanto, outra cisão muito recente e mais complicada, embora nunca formalmente mencionada, dominou as conversas "religiosas" do papa: o severo contraste entre a Igreja russa e aquela de Constantinopla. A primeira considera totalmente ilegal a proclamação da "autocefalia" ucraniana, pretendida pela segunda em 2019, e apoiada por Ieronymos. Portanto, a Igreja de Moscou rompeu a comunhão eucarística e proclamou o cisma com a outra. Francisco se manteve neutro; mas, na verdade, o cisma intraortodoxo também enfraquece o papado, impossibilitado de desatar um intricadíssimo nó canônico e histórico que fere todo o mundo cristão.

 

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