O Deus da Bíblia tem uma nova voz. Entrevista com Enzo Bianchi

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01 Dezembro 2021

 

Está escrito assim, sobrenome e nome às claras, no portão da bela casinha com uma pequena horta e gerânios nas janelas onde vive o fundador e ex-prior da comunidade de Bose, Enzo Bianchi. Não é uma cela, mas tudo é pequeno nesta casa térrea nas colinas de Turim que ele alugou desde que está em "exílio", como ele definiu esta nova fase da vida em um tweet de setembro. A entrada onde fica pendurado o hábito de monge é o centro da casa, daí vai-se para a cozinha, para a sala com o crucifixo na parede e para o gabinete com a escrivaninha, um vaso de manjericão e estantes simples sobre as quais vigiam três corujas de madeira, "um símbolo da vida monástica", explica ele. Mas o espaço de que mais se orgulha é a horta, muito arrumada, onde nos leva para ver os funchos e as alfaces, “especialmente esta fantástica do Canadá que resiste sob a neve e é deliciosa”. E uma vez que as verduras crescem generosamente e são demais só para ele, deixa as chaves para um casal de vizinhos gentis para que também desfrutem da horta; “Às vezes encontro um bilhetinho que diz 'Roubamos dois funchos' e eu respondo 'Santo roubo!'”.

 

O idílio agrícola, porém, não nos engana, pois a empreitada que ele acaba de concluir tem mais características de um épico. Daqui a alguns dias vai ser publicada pela Einaudi uma obra, intitulada "Bibbia" (org. Enzo Bianchi, M. Cucca, F. Giuntoli, L. Monti), que vai ser um evento cultural, uma nova tradução da Bíblia projetada e dirigida por ele e elaborada por doze especialistas. Um trabalho imenso, iniciado há muito tempo.

 

A entrevista é de Sara Ricotta Voza, publicada por Tuttolibri, 27-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini

 

Eis a entrevista. 

 

Dez anos de trabalho e quase 4 mil páginas. Está feliz?

Eu diria realmente que sim porque no início a empreitada parecia quase impossível, tanto que não houve tentativas nas últimas décadas na Itália; e depois a tradução foi entregue a especialistas específicos dos textos, consequentemente um bom número de pessoas que deveriam ser coordenadas e com as quais trabalhar em equipe de forma extremamente sinfônica. E isso aconteceu.

 

Uma Bíblia Einaudi e na série I Millenni, aquela de Voltaire. Foi anunciada como a primeira Bíblia "não confessional", para os cristãos de todas as confissões, mas também para o leitor leigo. Em que sentido, visto que permanece uma mistura de humano e divino e que para os cristãos também está envolvido o Espírito Santo?

É uma Bíblia cujos exegetas e tradutores são certamente crentes, mas a tradução não passou a nenhuma censura eclesiástica, por isso procurou ser fiel às regras exegéticas e hermenêuticas dos últimos tempos e às descobertas filológicas sobre os textos originais; onde as notas não têm nenhum tributo à doutrina de uma igreja - católica, ortodoxa ou reformada - mas obedecem ao texto, não à fé do tradutor; portanto, podem lê-la leigos não crentes, sabendo que estão diante de um texto que não tem os interesses doutrinários de uma igreja, e ao mesmo tempo os crentes, que através de sua leitura da fé e com a ajuda do Espírito Santo podem encontrar nela aquele conteúdo que é a palavra de Deus.

 

Bíblia, de Enzo Bianchi. Curadoria de Mario Cucca, Federico Giuntoli e Ludwig Monti (Foto: Divulgação/Einaudi)

 

 

Quando alguém decide começar uma nova tradução da Bíblia, é preciso uma permissão? Os problemas não são apenas linguístico-literários, mas hermenêuticos.

Não é necessário porque fomos aos textos originais assim como a crítica literária nos entregou nas últimas edições, e na escolha dos livros não nos detivemos no cânone de uma igreja, mas colocamos na tradução todos aqueles que em 20 séculos nas diferentes igrejas foram considerados textos nos quais a revelação estava contida.

 

Você o curador e mais outros especialistas, 12 como os apóstolos. É uma coincidência?

É realmente uma coincidência, nós os identificamos por suas competências; reunimo-nos várias vezes para discutir como proceder de acordo com critérios comuns para que fosse uma tradução de diferentes tradutores nos livros individuais, mas uma tradução sinfônica.

 

Por ser uma obra com premissas também politicamente corretas, vão apontar que entre os tradutores só há uma mulher ...

É verdade, mas outras exegetas que consultamos não estavam disponíveis porque já estão ocupadas traduzindo o Novo Testamento para outra editora.

 

A cada um seu próprio livro. Você reservou o Cântico dos Cânticos para si mesmo. O preferido?

Eu também teria adorado os Salmos que traduzi várias vezes, mas um coirmão tinha feito um comentário sobre eles e me pareceu justo deixar o lugar para o Saltério.

 

Vamos examinar os méritos de algumas "discordâncias" da versão da CEI. A primeira é na datação, não se fala de "antes/depois de Cristo", mas da era medieval.

Existe o Antigo Testamento que é antes de Cristo e os livros são dos judeus, que não aceitam Jesus Cristo; portanto, a outra forma de datação nos pareceu a mais adequada.

 

Outra diferença macroscópica está no índice: Torá em vez do Pentateuco, e depois "Profetas anteriores e posteriores" ...

Sim, optamos por não seguir àquela divisão que existe nas Bíblias e depende sobretudo da tradução grega dos LXX depois repetida pela Vulgata, quisemos obedecer àquele que é o cânone hebraico primeiramente para o Antigo Testamento e depois ao cânone do Novo Testamento que é cristão, de modo que houvesse profundo respeito por aqueles que são as duas partes, que têm autonomia própria e não podem ser confundidas quando é a fé cristã que as une.

 

A tradução: o primeiro versículo do Gênesis: "No princípio Deus criou ..." torna-se "Quando Deus começou a criar ...", da proposição principal à temporal; Qoheleth: a famosa “vaidade das vaidades tudo é vaidade” torna-se “Absoluto sopro, tudo é sopro”. No prólogo de João “No princípio era o Verbo” é deixado “Logos”. Quando as traduções se tornaram "clássicas", por que alterá-las?

Havia a vontade de permanecer o mais fiel possível ao hebraico no Antigo Testamento; "vaidade das vaidades" tornou-se justamente outra coisa do hebraico hevel hevelim, que é sopro leve, daí a inconsistência das inconsistências; existem muitas formas de traduzir, mas quisemos dar o máximo possível o sentido que vem do texto original e não das traduções, mesmo que estas se tenham imposto.

 

Os títulos dos parágrafos: são, digamos, discursivos...

Os títulos muitas vezes se tornam uma chave hermenêutica que leva o leitor a uma leitura em determinado sentido, mas assim se evoca a passagem, mas não se fornece um sentido antecipado do trecho.

 

Sua tradução do Cântico dos Cânticos: as principais diferenças dizem respeito às imagens eróticas. As traduções atuais usam termos genéricos, você nomeia glúteos, púbis, virilha ...

Sim, traduzo o texto hebraico em sua carnalidade porque hoje podemos ler o Cântico dos Cânticos como um hino ao amor humano em que a tradição também viu uma grande metáfora do amor de Deus, mas o texto em si é um cântico de amor erótico de um jovem e de uma jovem.

 

A parte iconográfica é importante, tanto a estritamente artística como a "de serviço".

Com muito cuidado nós mesmos compomos mapas e cronologia para ajudar o leitor, para as ilustrações procuramos François Boespflug, um dos maiores especialistas da arte religiosa cristã atualmente no mundo.

 

Jó: o tradutor Borgonovo - que é arcipreste da Catedral de Milão - explica que correrá o risco de ousar uma versão poética em hendecassílabos. A obra também tem valor literário?

Tentamos isso, que houvesse qualidade literária dentro da tradução, depois houve uma revisão total para que tudo se harmonizasse.

 

Cada vez que a Bíblia é mexida e revisada, ela não se torna um pouco menos Palavra de Deus, é um pouco mais a palavra do homem do tempo que a traduz?

A Bíblia tem esse status de ser junto a palavra de Deus e a palavra do homem, aliás é uma palavra humaníssima que contém a palavra de Deus, não é diretamente a palavra de Deus, isso é dito por uma posição fundamentalista alheia à grande tradição católica, segundo a qual, ao contrário, a Escritura contém a palavra de Deus e pode tornar-se palavra de Deus quando é lida com a ajuda do Espírito Santo. Os fundamentalistas fazem: Escritura = Deus, com todos os problemas que surgem disso. Não esqueçamos o que Paulo diz: a letra mata, é o espírito que vivifica.

 

Como abordá-la, com o "tolle lege" agostiniano?

Não há nada mais errado do que o tolle lege, porque se um leitor se depara com o Levítico, pega a Bíblia, a coloca de volta na estante e nunca mais a lerá. Jerônimo que foi um exegeta sábio e inteligente dizia que existe uma gradualidade na leitura dos livros e com muito humor especificava ‘os livros difíceis depois dos 25 anos e o Cântico dos Cânticos depois dos 60 anos’.

 

Então, por onde iniciar?

Para o Antigo Testamento, os primeiros 11 capítulos de Gênesis, depois os primeiros 24 do Êxodo, depois Profetas como Isaías e Jeremias; para o Novo Testamento será bom começar com um evangelho como Marcos, passar por uma epístola de Paulo, mas que seja como a primeira Coríntios e deixando para o final João, o quarto Evangelho e o Apocalipse que são muito difíceis”.

 

Esta Bíblia alcançará novos leitores. Podemos dizer que também haverá um resultado "apostólico", mesmo que não estivesse nas intenções?

O importante é que a Bíblia seja lida e conhecida. Por três razões: porque é um código de humanidade; porque, gostemos ou não, estamos em uma cultura que é cristã; porque é uma biblioteca, mais de 70 livros escritos ao longo de 1000 anos, e nos dá a possibilidade de nos enriquecermos com visões, imagens, interpretações, é verdadeiramente algo que não pode faltar num verdadeiro humanismo. Se, além disso, provocar um encontro com a fé judaica ou com a fé cristã, não me compete. Creio que o nosso serviço seja sobretudo naqueles três pontos que lhe falei.

 

Você gosta de acrescentar, ao lema beneditino, "ora, LEGE et labora" ...

A coisa mais importante que um monge faz durante o dia é a lectio divina, que é essencialmente uma leitura da Bíblia. Se falta a leitura, falta também o pensar e o orar; sem o pensar, corre-se o risco de só falar à toa diante de Deus.

 

No Twitter, você convidou as pessoas para jantar segurando nas mãos uma travessa de pimentões recheados. Alguém aceitou o convite?

Tive quase 3000 pedidos e aquele tweet 200.000 acessos.

 

O seu Monferrato, voltará para lá?

Recentemente fui lá procurar um túmulo, porque quero ir para a terra e finalmente encontrei um quadrado e vou acabar assim, a 20 metros da minha mãe e do meu pai, na minha cidade.

 

O Papa Francisco também tem origens da mesma região, vocês falavam em piemontês? Na carta que lhe escreveu, publicada no site silerenonpossum, ele se define como seu "filho espiritual" ...

Ele continua meu amigo, gosta de mim e manda me dizer isso por todo bispo. Ele é um homem evangélico.

 

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