A direita cristã russa e as guerras culturais globais. Entrevista com Kristina Stoeckl

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02 Dezembro 2021

 

Família tradicional, aborto, cristianofobia: aqueles temas que desde os anos 1970 eram os temas da direita cristã estadunidense se tornaram hoje também o fulcro programático de muitos movimentos políticos europeus de direita.

Segundo Kristina Stoeckl, socióloga, coordenadora do Postsecular Conflicts Project (POSEC, ERC Starting Grant) e autora, junto com Dmitrij Uzlaner, do próximo livro “The moralist international: Russia in the global culture wars” [A moralista internacional: a Rússia nas guerras culturais globais] (Fordham, 2022), um dos atores-chave nesse processo foi a Rússia, que, em um lapso de tempo relativamente curto, se afirmou como líder dos ultraconservadores da Europa.

A entrevista foi concedida a Asia Leofreddi e publicada em Confronti, 05-11-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Nos últimos anos, principalmente durante o governo Trump, muitas vezes ouvimos falar da direita cristã estadunidense. Hoje, graças ao projeto de vocês, também se pode falar de uma direita cristã russa. De que movimento se trata?

Nas últimas duas décadas, na Rússia, assistimos ao surgimento de atores conservadores cristãos ortodoxos cujas ideias e estratégias são muito semelhantes às da direita religiosa dos Estados Unidos. A partir dos anos 1990, após a queda da União Soviética, alguns acadêmicos, ativistas e empresários russos de fé ortodoxa começaram a importar ideias e estratégias típicas da direita cristã estadunidense para a Rússia. O seu ativismo dizia respeito principalmente à defesa da família tradicional e à batalha contra o aborto, tanto que um dos fundadores do Congresso Mundial das Famílias (WCF), o encontro pró-vida e família que ocorreu em Verona em 2019, é russo.

 

E hoje?

Na última década, esses grupos adquiriram um poder político relevante, tanto em nível nacional quanto internacional. Na Rússia, eles estreitaram cada vez mais os seus laços com o Patriarcado de Moscou e com o Kremlin, ajudando a moldar a agenda política do país – assim como a sua política externa – a partir da defesa dos chamados valores tradicionais, contra os direitos de gênero e a democracia liberal. No exterior, graças a organizações transnacionais como o WCF, eles desenvolveram vínculos com atores de vários países, incluindo os Estados Unidos e a América Latina, e transformaram a Rússia em um modelo político para muitos atores de direita na Europa, não só na Europa central e oriental, mas também ocidental.

 

Qual é o papel da Igreja Ortodoxa Russa nesse movimento?

Até 10 anos atrás, a Igreja não desempenhava nenhum papel. O movimento pró-família russo surgiu da sociedade civil e do mundo acadêmico. Foi apenas por volta de 2010, com a chegada do Patriarca Kirill, que o tema dos valores tradicionais entrou plenamente na linguagem eclesiástica do patriarcado e, por volta de 2012, se tornou dominante na agenda do Kremlin. Hoje, assistimos a uma consolidação plena dele. Basta pensar que, em 2019, o jovem oligarca russo Konstantin Malofeev, financiador de muitas atividades russas do WCF e de outras organizações fundamentalistas cristãs, tornou-se o vice-presidente de uma organização chamada Conselho Mundial do Povo Russo, cuja sede jurídica é a mesma do Patriarcado de Moscou e cujo presidente é o patriarca atualmente no cargo, Kirill. Malofeev também fez atividades de lobby com sucesso para incluir a definição de casamento como a união entre um homem e uma mulher nas emendas à Constituição russa redigidas em 2020.

 

Qual é a relação entre a direita cristã russa e o “putinismo”?

Como eu disse, os valores tradicionais só começaram a fazer parte da agenda do Kremlin em 2012 [Putin está no cargo desde o ano 2000]. Naquele ano, houve protestos públicos de grande escala contra as eleições para a Duma, que foram percebidas como fraudulentas, e contra a terceira reeleição de Putin como presidente, que era questionável do ponto de vista constitucional. Naquele período, Putin estava em busca de um programa que legitimasse a sua presidência. Os “valores tradicionais” se tornaram hoje a espinha dorsal do seu sistema de governo.

 

Qual é o papel da opinião pública russa nessa virada conservadora?

As posições da opinião pública têm muito pouco a ver com isso. Trata-se, mais do que qualquer outra coisa, de uma mudança política imposta de cima. Analisando os dados disponibilizados pelo European Value Study, fica evidente que os russos não se tornaram mais conservadores, embora isso possa ter ocorrido, mas as suas opiniões sobre os direitos reprodutivos e sexuais se tornaram mais polarizadas. Quanto ao aborto, por exemplo, vemos que aumentou o percentual em ambos os campos, tanto no campo daqueles que acreditam que o aborto nunca é legítimo, quanto daqueles que acreditam que é sempre legítimo. O mesmo vale para a homossexualidade. Isso significa, por um lado, que a informação pública russa está esmagada em posições conflitantes e não dá espaço para reflexões complexas sobre questões de natureza ética e moral; por outro lado, que, embora a Rússia ainda seja uma sociedade predominantemente conservadora, ela está se tornando gradualmente mais permeável aos valores progressistas e liberais.

 

Um dos aspectos centrais dessa nova direita russa é o seu ativismo transnacional e o seu impacto nas guerras culturais europeias. O que você entende pela expressão “guerras culturais”?

O termo “culture wars” foi cunhado nos anos 1990 pelo sociólogo estadunidense James D. Hunter, que descreveu o aumento do confronto entre liberais e conservadores estadunidenses em questões como o aborto, o casamento igualitário, a liberdade religiosa ou o homeschooling. Nas últimas décadas, esse fenômeno assumiu uma dimensão global, envolvendo inúmeros países e organizações supranacionais, como a ONU, e instituições internacionais, como as da União Europeia. Porém, se até uma década atrás, do lado conservador, os protagonistas indiscutíveis desse confronto ideológico eram os Estados Unidos e o Vaticano, a novidade de hoje é a entrada em cena da Rússia, que, em muito pouco tempo, se tornou uma espécie de líder nas guerras culturais europeias.

 

Como a liderança conservadora russa está redefinindo as relações entre política e religião na Europa?

Graças ao seu ativismo e aos seus laços transnacionais, a direita cristã russa está pressionando por um recentramento do papel da religião na esfera pública, em uma chave antissecular e antiliberal. Não é por acaso que os partidos de direita europeus estão se tornando cada vez mais “religiosos”. As direitas europeias, mesmo as pós-fascistas, não eram cristãs, pelo contrário. Hoje, no entanto, os líderes populistas não fazem nada além de enfatizar a sua adesão aos valores cristãos.

 

Quais são as suas previsões? Essa “Internacional moralista”, que reúne russos, europeus e estadunidenses, está destinada a perdurar ou a desaparecer?

Por enquanto, continuam subsistindo todas as condições para que ela perdure. Mas estamos diante de um fenômeno complexo, e eu não descarto que, em algumas questões, pode-se chegar a atritos entre a Rússia e os seus parceiros ocidentais.

 

Por exemplo?

Um primeiro exemplo é a liberdade religiosa. A defesa da liberdade religiosa e dos direitos dos cristãos sempre foi um dos temas da direita cristã estadunidense. No entanto, na Rússia, os cristãos não ortodoxos, especialmente quando se trata dos grupos protestantes de origem estadunidense, continuar encontrando obstáculos à sua liberdade de culto. Outro tema é o nacionalismo. Na Rússia, a ideia de uma identidade ortodoxa russa “pura” é central para o discurso conservador, assim como a luta para defendê-la das influências ocidentais. Os contatos transnacionais, se visíveis, podem causar muitos problemas, portanto. E isso não vale só para a Igreja Ortodoxa Russa, na qual os mais fundamentalistas abominam qualquer contato estrangeiro como uma potencial heresia, mas também para a direita cristã dos Estados Unidos, onde qualquer aceno a um conluio com a Rússia é motivo de suspeita.

 

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