Big data e informação não são sinônimos

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11 Novembro 2021

 

O conhecimento requer capacidades de julgamento e de análise, implica a capacidade de atribuir valor, classificar e interpretar os dados.

 

O comentário é de Anass El Fares, engenheiro mecânico italiano e pesquisador do Co.Mac - CFT, um importante grupo italiano que atua na área das plantas industriais. O artigo foi publicado em Apostolato Digitale, 05-11-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Nas bibliotecas bem variadas, dedica-se muito trabalho para organizar o patrimônio dos livros de forma a facilitar a sua consulta. A ordem na colocação dos livros, por sua vez, é o resultado de uma verdadeira competência científica, a “biblioteconomia”.

A organização das publicações científicas por meio de coletâneas e revistas também segue o modelo de uma rigorosa seleção e subdivisão com base na competência disciplinar. É essa estruturação dos assuntos que se perde na web. Os links seguem essencialmente a distribuição estatística do comportamento do usuário e, desse modo, reproduzem cadeias associativas cuja pertinência sistemática é bastante insignificante.

Os mecanismos de busca, que não revelam os seus algoritmos, ajudam a tornar a situação ainda menos clara, na medida que buscam interesses comerciais. Na web, faltam inúmeras funções de filtragem asseguradas pelos gatekeepers: figuras como os bibliotecários, os leitores nas editoras, os revisores nas revistas, os editores em jornais e canais de televisão.

Isso significa que se exige cada vez mais de cada usuário da rede uma capacidade de julgamento a ser exercido por conta própria. O simples fornecimento de dados não substitui a capacidade de avaliá-los, nem de saber avaliar se são confiáveis ou em que argumentos se baseiam.

A World Wide Web nos confronta com uma vasta multiplicidade de interpretações, teses, teorias e ideologias: torna-se cada vez mais difícil formar uma opinião. Os seres humanos que tendem a seguir crenças apresentadas de modo sugestivo ou que evitam fatos incômodos refugiando-se atrás de escudos ilusórios estão destinados a perder rapidamente a orientação no universo digital. Eles se trancam em bolhas dentro das mídias sociais ou são arrastados por fluxos de dados, o famoso Big Data, sem se aproximar – às vezes nem sequer minimamente – de modo crítico.

Big Data e “informação” não são sinônimos. O conceito de Big Data se refere ao fato de que hoje dispomos de uma enorme quantidade de dados em muitos campos e, por serem tantos e continuamente atualizados, podem ser muito úteis, assim como podem criar mera confusão. E é por isso que se tornou importante saber estudá-los e analisá-los.

Já informação é um conceito muito diferente e se coloca a jusante do de Big Data: analisando essa grande quantidade de dados, é possível extrair conhecimento dela.

Por exemplo, um dado é saber quantas pessoas neste momento apresentam sintomas como febre, calafrios e tosse. Informação é conhecer, compreender e avaliar se uma epidemia está em curso.

Na verdade, não vivemos em uma sociedade do saber (informação), mas em uma sociedade dos dados ou, melhor, em uma economia dos dados. A disponibilidade de dados, combinada com os algoritmos de inteligência artificial que descrevem o modo de se comportar dos indivíduos (a propensão a comprar, por exemplo), tornou-se um modelo de sucesso para fazer negócios, que faz os gigantes da internet prosperarem.

Essa sociedade do Big Data, cujo florescimento máximo chegará provavelmente com a expansão do setor das telecomunicações por meio do 5G, o setor laboral com o smartworking e o setor dos transportes e dos veículos autônomos, portanto, não é uma sociedade do conhecimento, porque o conhecimento consiste em crenças verdadeiras e fundamentadas.

O conhecimento requer capacidades de julgamento e de análise. O conhecimento implica a capacidade de atribuir valor, classificar e interpretar os dados.

O grande desafio que o sistema formativo na era digital tem pela frente é conseguir transformar a tendência atual da economia dos dados no desenvolvimento de uma sociedade do saber. Portanto, voltar a propor um modelo educativo que coloque no centro a capacidade de compreensão e de juízo dos dados, assim como a sua “ordem de colocação”, análoga à dos livros no sistema bibliotecário.

 

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