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06 Novembro 2021

 

Quem é Rudolf Jacobs? No livro contábil da história, o anti Eichmann: a mais flagrante ostentação de uma dívida de desonra. Porque a curta vida extraordinária desse capitão da Marinha nazista de trinta anos de idade inverte com o gesto final, a morte em batalha pelo lado certo, a extrema defesa banal do contador do Holocausto e de muitos algozes semelhantes a ele, assassinos com uniforme de todos os tempos e de todas as latitudes: eu era apenas um soldado, cumpria ordens.

 

A reportagem é de Goffredo Buccini, publicada por Corriere della Sera, 01-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O capitão Jacobs cumpre as ordens, sim, mas aquelas dadas por sua consciência incoercível. E essas ordens o afastam muito da disciplina hitleriana, em conflito com seus compatriotas: trincando a inevitabilidade da lei do sangue magistralmente denunciada por Johann Chapoutot, a criminosa "boa-fé" dos médicos prontos a eliminar crianças judias como "agentes de contaminação", a ferocidade "voluntariosa" que Daniel Goldhagen identifica no alemão comum, diríamos de rua, e na consequente colaboração "popular" no extermínio que se projeta, sombrio ponto de interrogação, sobre setenta milhões de cidadãos do Terceiro Reich nos anos trinta e quarenta do século passado.

Podia-se escolher diferentemente, era preciso desobedecer, a ponto de fazer prevalecer uma consanguinidade universal, o pertencimento superior a uma única raça, aquela humana. Em nome disso, o Capitão Jacobs, "o bom alemão", luta ao longo da Linha Gótica contra os alemães maus e contra os republicanos por eles mantidos (nada de "italianos brava gente") em uma metastoria onde o Bem e o Mal são independentes dos registros de nascimento e se baseiam no épico; e ao lutar é morto, na tentativa de levar a cabo um plano de batalha que ele próprio elaborado com seus companheiros da brigada da resistência Muccini: o assalto ao hotel Laurina em Sarzana, que naquele 3 de novembro de 1944 era o quartel dos fascistas torturadores de civis, uma das muitas Villas Tristes dos "brigantes negros" subservientes aos compatriotas de Jacobs.

Apenas setenta e sete anos se passaram. E essa formidável parábola de redenção pessoal mantém sua carga de resgate coletivo. Se um Schindler é suficiente, um Jacobs também deve ser suficiente para abrir um vislumbre de esperança em uma dimensão comum, para nos dizer que, no livro contábil citado acima, as dívidas são sempre individuais, assim como as escolhas.

Esta história do capitão da Kriegsmarine já foi contada, em contos e ensaios, longas-metragens e romances, e até celebrada, porque “o homem que nasceu morrendo” (é o título escolhido pelo diretor Luigi Faccini em seu filme de 2011) tem uma placa na cidade de adoção e de sacrifício, Sarzana, e, embora com grande atraso, também foi homenageado na cidade de origem, Bremen.

 

Il buon Tedesco

 

No entanto, é uma história ainda inédita e que deve ser contada muitas vezes, enriquecendo-a cada vez mais com rostos e nomes, com fragmentos que remetem a muitos Jacobs desconhecidos, mas vívidos na memória da Guerra da Libertação, no que resta de muitos caminhos personalíssimos de ninhos de aranha. Trata-se, portanto, de um desafio exigente, este que foi assumido por Carlo Greppi, pesquisador de 39 anos de Torino, com Il buon Tedesco (O bom alemão, em tradução livre), recém-publicado pela Laterza.

Aquele oficial, que seus companheiros da época lembram como "um homem triste, um homem ferido", destinado a nunca mais ver sua esposa e filhos em sua pátria, não foi apenas um encontro com a história, não foi uma exceção por mais comovente que tenha sido: centenas e centenas de alemães e austríacos (seu assistente Paulo era austríaco, ou talvez Kurt, que desertou com ele e lutou ao seu lado nos Alpes Apuanos), talvez mil só na Itália, talvez mais, deixaram suas marcas, muitas vezes fugazes no entanto, sempre profundamente enraizadas, no instante da escolha de campo, na memória das formações da resistência às quais se uniram e que se opuseram aos nazifascistas no momento mais sangrento. Por quê? "Porque vi o mal que os alemães fizeram", explica ao telefone, ainda comovido, Heinrich "Enrico" Rahe, 96 anos, (Überläufer, desertor, como Jacobs e na mesma frente) que, nota Greppi, fala dos "alemães como se ele mesmo não fosse um: "Eu vi quando os alemães matavam as mulheres e as crianças".

Portanto, a escolha individual se torna salvação para tantos Hans, Kurt, Wilhelm: pequenos soldados que colocam o lenço vermelho na jaqueta marrom virando a metralhadora para o outro lado, e que Greppi documenta com meticulosidade, agarrando-se a fragmentos de cartas, comunicações entre comandos da resistência, registros hospitalares quase inteligíveis ou de departamentos municipais que mal e mal conseguiram se manter de pé.

Mas é uma salvação moral que custa uma divisão profunda: "na Alemania", por tanto tempo, ninguém jamais agradeceu ao desertor Heinrich "Enrico" ou outros como ele por sua escolha, aliás, "você atirou nos seus Kameraden?" eles lhe perguntavam atônitos. Existe uma coragem que talvez faça realmente renascer, mas exige morrer duas vezes, e Erika von Brockdorff sabe muito bem disso subindo na guilhotina em 1943, quando escreve para sua filhinha "eles vão tentar me colocar numa péssima luz diante de seus olhos".

Assim, celebramos nosso "bom alemão", o fio vermelho visível através de tantas histórias desfocadas, mas ainda assim comoventes, mais e melhor do que seus compatriotas fizeram ao longo do tempo (a viúva esperou anos pedindo uma pensão). “Eu daria a minha vida apenas para abreviar em um único minuto esta guerra insensata”, diz ele aos companheiros da resistência, quando já lançou seu dardo, talvez movido pelo eco dos massacres de Santa Ana de Stazzema, San Terenzo Monti, Vinca, outra ignomínia em sua bandeira de nascimento.

"Rudolf foi um verdadeiro herói, ele quis morrer por sua verdadeira pátria alemã, para resgatar a dignidade de um povo oprimido pelo nazismo", escreve seu comandante da resistência já em 1945, quando o mito do capitão desertor começa a se formar nos vales recém libertados. Um herói da Europa que está nascendo. E que, atacando com nove companheiros o forte daqueles que queriam subjugar aquela Europa, morre traído pelo destino, porque sua arma emperra. No entanto, zomba do destino, porque "para a estrela sob a qual você nasceu e que pretende acompanhá-lo por toda a sua vida independentemente da sua vontade, você sempre pode virar as costas".

 

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