Papa Francisco afirma a necessidade de cuidado pastoral com lésbicas e gays, e critica a “ideologia de gênero”

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25 Setembro 2021

 

Em uma entrevista publicada ontem, o Papa Francisco afirmou a necessidade de cuidados pastorais para com as pessoas lésbicas e gays, mas novamente atacou a chamada “ideologia de gênero”.

 

A reportagem é de Robert Shine, publicada por New Ways Ministry, 22-09-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

La Civiltà Cattoica, uma revista semi-oficial do Vaticano, publicou uma transcrição de uma recente conversa do Papa com os jesuítas na Eslováquia durante sua recente visita ao país. Em uma questão, Francisco foi perguntado sobre “que visão de Igreja nós podemos seguir”, com uma ênfase sobre diversidade na Igreja. O Papa respondeu, em parte:

“Você disse algo muito importante, que identifica o sofrimento da Igreja neste momento: a tentação de retroceder. Nós estamos sofrendo isso hoje na Igreja, a ideologia de retroceder...

“Isso é porque hoje nós olhamos para o passado para procurar segurança. Assusta-nos celebrar perante o povo de Deus que nos olha na cara e nos diz a verdade. Assusta-nos avançar nas experiências pastorais. Penso no trabalho que foi feito – o padre Spadaro esteve presente – no Sínodo sobre a Família para fazer compreender que os casais em segundas uniões ainda não estão condenados ao inferno. Assusta-nos acompanhar pessoas com diversidade sexual. Temos medo das encruzilhadas e caminhos de que falou Paulo VI. Esse é o mal deste momento, a saber, buscar o caminho na rigidez e no clericalismo, que são duas perversões”.

Em outra pergunta, Francisco é questionado sobre as formas de colonização ideológica sobre as quais tem falado repetidamente, incluindo a chamada “ideologia de gênero”. O papa respondeu:

“A ‘ideologia de gênero’ que você fala é perigosa, sim. Pelo que entendi, é assim porque é abstrato no que diz respeito à vida concreta de uma pessoa, como se uma pessoa pudesse decidir abstratamente à sua vontade se e quando ser homem ou mulher. A abstração é sempre um problema para mim. Isso não tem nada a ver com a questão homossexual, no entanto. Se existe um casal homossexual, podemos fazer um trabalho pastoral com ele, avançar no nosso encontro com Cristo. Quando falo sobre ideologia, estou falando sobre a ideia, a abstração em que tudo é possível, não sobre a vida concreta das pessoas e sua situação real”.

Esta entrevista com jesuítas eslovacos exemplifica a linha que o Papa Francisco segue quando se trata de questões LGBTQIA+, ou seja, afirmar a necessidade de cuidado pastoral enquanto critica a chamada “ideologia de gênero”. Ao fazer isso, o papa perpetua seu histórico misto. Para muitos católicos, Francisco está fazendo avanços sem precedentes para uma Igreja mais acolhedora. Para alguns, os ensinamentos condenatórios solapam qualquer declaração positiva. Para outros, a ambiguidade inerente à abordagem do papa apenas os deixa confusos. E para os conservadores, a mera sugestão de melhor cuidado pastoral é um anátema.

Para entender o Papa Francisco, devemos reconhecer que ele, como a Igreja, está processando o progresso social na igualdade LGBTQIA+ em tempo real. O desenvolvimento doutrinário é um processo perpétuo, e definir os ensinamentos é o resultado final do discernimento da Igreja sobre um determinado assunto, não o seu início. É um círculo em que as realidades vividas pelas pessoas são retomadas na reflexão teológica, depois definidas no ensino pelo magistério, e depois recebidas (ou não) pelo povo de Deus. Embora inoportuno, e às vezes um pouco grande demais, existe uma lacuna inerente a esse processo, entre a teoria e a vida à medida que se desenrola ao longo do tempo.

Francisco está incorporando essa lacuna. É claro que os fiéis leigos da Igreja sabem muito mais sobre as pessoas trans do que os líderes da Igreja, incluindo o Papa. Sabemos que as pessoas trans não fazem uma escolha aleatória, mas passam a se conhecer de maneiras mais profundas que, então, ganham expressão no mundo. Sabemos que há pouca ou nenhuma base para a “ideologia de gênero” sobre a qual falam os líderes da Igreja. E nesta mudança, a Igreja já está mudando, mesmo que os ensinamentos do magistério ainda não tenham mudado.

Portanto, embora Francisco se engane em alguns pontos, ele está criando espaço para que ocorra o discernimento e o desenvolvimento doutrinário. Não é sua posição sobre uma questão ou outra, embora a atenção a elas seja certamente importante, mas as mudanças estruturais e culturais mais amplas que ele busca que definem seu papado. O processo do Sínodo sobre a Sinodalidade, que deve começar em breve, exemplifica esse objetivo e pode ser revolucionário. Haverá lacunas à medida que avançarmos, mas esse é sempre o caso na história da Igreja. E é nessas lacunas que nós, como pessoas LGBTQIA+ e aliados, devemos continuar trabalhando por uma Igreja que é, nas palavras do Papa Francisco, “uma casa para todos”.

 

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