Chile. Elisa Loncón e o fim do colonialismo florestal em Wallmapu

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10 Julho 2021

 

“Frente às palavras da nova presidenta dessa nova Convenção Constituinte, Elisa Loncón Antileo, ressaltando a necessidade de “fundar um novo Chile plural, plurilíngue, com todas as culturas, com todos os povos, com as mulheres e com os territórios”, é indispensável que isso seja colocado em prática, não só por meio da criação formal de um Estado Plurinacional, mas colocando fim a um modelo florestal de morte”, escreve Andrés Kogan Valderrama, sociólogo, em artigo publicado por OPLAS, 08-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

A instalação da nova Convenção Constituinte no Chile, no último dia 4 de julho, talvez seja não apenas um dos momentos mais importante em nível institucional do país, após mais de 200 anos de constituições redigidas de forma antidemocrática, mas também o início de um processo inédito que pode transformar as próprias bases coloniais, patriarcais e capitalistas do Estado-Nação.

Parece-me que a eleição da acadêmica, filósofa e sentipensante mapuche, Elisa Loncón Antileo, como presidenta desta Convenção Constituinte, é um grande sinal, já que além de tremendamente simbólico em nível de reconhecimento institucional, pela negação histórica do Estado do Chile aos povos originários como sujeitos políticos, certamente, também abrirá debates que foram vetados pela elite política, econômica e intelectual do país, nos últimos 30 anos.

Um desses debates tem relação com o chamado, de maneira racista, conflito mapuche na Araucanía, abordado pelo Estado, seja a partir de um enfoque de segurança, militarizando os territórios de Wallmapu, ou no melhor dos casos, a partir de políticas sociais focalizadas, com uma visão neoliberal e paternalista, que através da CONADI se dedicou a comprar e entregar terras de forma dispersa, bloqueando a possibilidade de autonomia e autodeterminação do povo mapuche.

Por isso, fomos testemunhas de um discurso de redução da pobreza, de fomento ao empreendimento e de respeito à ordem pública, por parte do Estado do Chile, que não só invisibilizou a voz mapuche, como também se dedicou a estigmatizar, criminalizar, perseguir, reprimir, encarcerar e até assassinar uma longa lista de ativistas de diferentes organizações do plural movimento mapuche.

Destaco o plural, já que dentro do povo mapuche, assim como no chileno ou outros, existem diferentes visões políticas que refletem uma diversidade que enriquece o diálogo e a busca por um país que deixe para trás séculos de monoculturalidade e de imposição de uma visão de mundo particular sobre outras.

Pela mesma razão, apesar das diferenças legítimas no interior do povo mapuche, há algo que os une, que é a experiência do colonialismo histórico do Estado do Chile, que foi aprofundada, da ditadura até a atualidade, por meio do extrativismo florestal em Wallmapu.

Um tipo de extrativismo florestal que começou a assentar suas bases no ano de 1974, através do Decreto Lei 701, promovido pelo economista Fernando Leniz e colocado em prática por Julio Ponce Lerou (genro de Pinochet, diretor da CORFO e dono da corrupta empresa SQM), com o Estado passando a subsidiar o negócio florestal, usando o argumento de que era para desenvolver aquela região do país.

Isso será complementado com a aprovação do Decreto Lei 2.568, de 1979, que buscou acabar para sempre com a propriedade comum de parte das comunidades mapuche, com uma divisão de terras que só buscou destruir a identidade de um povo originário, que não vê o território como um mero espaço para a extração de matérias-primas.

Os resultados das duas leis foram fatais para Wallmapu e a Mãe Terra, tornando o Estado do Chile partícipe de um processo de acumulação por expropriação, o que gerou uma expansão desenfreada da monocultura de pinus e eucalipto em espaços sagrados mapuche e uma concentração brutal de terras por grupos econômicos como Matte (CMPC) e Angelini (ARAUCO), para promover o seu negócio de celulose e papel.

Calcula-se que tais grupos econômicos concentram mais de 3 milhões de hectares e aproximadamente quatro vezes mais que a totalidade das terras mapuche, sendo uma verdadeira catástrofe socioambiental e um terricídio sem precedentes, já que gerou um dano irreparável para a Ñuke Mapu no que diz respeito à disponibilidade de água nos territórios, afetando diretamente os solos, a mata nativa, a biodiversidade (Itrofill Mongen) e o aumento dos incêndios.

O mais grave de tudo isso é que os diferentes governos, desde o retorno à democracia, tanto da direita como da esquerda de mercado existente, em vez de discutir o modelo de desenvolvimento florestal imperante, completamente insustentável, dedicaram-se a aplicar leis antiterroristas e a reprimir aqueles que se opuseram de maneira ativa, construindo assim a ideia de um inimigo interno.

Não obstante, apesar disso, o movimento mapuche também se fortaleceu com o passar dos anos, já que sua luta está totalmente conectada com as demandas centrais da Revolta Social de 2019 e com o que começará a ser debatido na Convenção Constituinte, mesmo que as elites não queiram enxergar, já que tem relação com descolonizar e desmercantilizar as próprias condições de vida em que todos e todas nós estamos, no plano da saúde, educação, alimentação, moradia, energia, água, para assim construir um país realmente sustentável.

O positivo de tudo isso é que as diferentes lutas em defesa dos territórios, frente ao extrativismo, entrelaçam-se de forma muito forte politicamente, através de um processo interseccional, no qual a crítica anticolonial, antipatriarcal e anticapitalista abriu novos horizontes de Bons Viveres ou Küme Mongen, de acordo com a filosofia mapuche.

Por tudo o que foi destacado, frente às palavras da nova presidenta dessa nova Convenção Constituinte, Elisa Loncón Antileo, ressaltando a necessidade de “fundar um novo Chile plural, plurilíngue, com todas as culturas, com todos os povos, com as mulheres e com os territórios”, é indispensável que isso seja colocado em prática, não só por meio da criação formal de um Estado Plurinacional, mas colocando fim a um modelo florestal de morte, que se tornou o coração do colonialismo atual, não só contra o povo mapuche, mas também contra a vida em geral.

 

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