Esquerda, Economia, Política: a Quarta Via

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

  • O Papa Franciso, mais uma vez, surpreende. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Movimentos no pós-pandemia. Artigo de Raúl Zibechi

    LER MAIS
  • “Não podemos mais ignorar o debate sobre a redução da jornada de trabalho porque funciona para muitas empresas”. Entrevista com Pedro Gomes

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


07 Mai 2021

 

“A ‘Quarta Via’ – em oposição à ‘Terceira Via’ propiciada por Tony Blair – reúne o núcleo central da política econômica, com o aval, além disso, de uma parte relevante das ciências sociais, com pesquisas empíricas, orientações para a classe política, junto a reflexões políticas profundas e de longo alcance”, avalia Carles Manera, professor de História e Instituições Econômicas, no Departamento de Economia Aplicada da Universidade das Ilhas Baleares, Espanha, em artigo publicado por Economista Frente a la Crisis, 05-05-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Cris Giles, reconhecido colunista do Financial Times, 29 de abril de 2021: a esquerda está vencendo a batalha econômica das ideias. Giles prossegue sem reservas, a partir desta manchete, e enfatiza algo que resulta excêntrico nas páginas dessa publicação: o modelo de capitalismo anterior ao coronavírus, com altos níveis de desigualdade, está perdendo apoio popular, o que sugere a necessidade de um mundo pós-Covid com mais apoio e dedicação aos setores mais vulneráveis e impostos mais altos, especialmente em níveis extremos de renda, riqueza e lucros.

Para alguns, isto era considerado extremista quando, em 2013, Thomas Piketty avançou na questão, com seu famoso livro sobre o capital (O Capital no século XXI). Mas que, em 2021, seja dito em uma arena tão significativa para o mainstream econômico – e não é a única – como o Financial Times não deixa de ser chamativo. É que os estragos do coronavírus arrastam não só as infraestruturas sanitárias e sociais, mas também parecem remodelar as ferramentas teóricas e práticas da economia como disciplina científica.

Um teste concreto para tudo isto, na economia aplicada mais próxima, é o plano de recuperação econômica traçado pela administração norte-americana. A afortunada chegada de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos está supondo, ao menos teoricamente, um giro copernicano no desenho da política econômica. O coronavírus contribuiu para estimular essa transformação.

Em síntese, 4 trilhões de dólares destinados a renovar e modernizar as infraestruturas – muito abandonadas -, aumentar salários, oferecer coberturas sociais, preocupar-se com a digitalização e a mudança climática, retornar às instituições internacionais, aumentar impostos para a parcela mais rica da população, etc. Enunciados impossíveis até pouco tempo atrás. Premissas que estão desconcertando acadêmicos e políticos convencionais.

Há um desejo, uma inquietação entre amplas camadas sociais, de que o sistema econômico deve ter resultados mais equitativos. O desafio é comprovar se esses anúncios se traduzirão em realidade. Porque se estes projetos forem traduzidos em leis efetivas, será difícil reverter todo o processo, conforme adverte Paul Krugman. E colocará os republicanos – e a direita econômica, empresarial e acadêmica – no contexto de ataque a um “governo intervencionista” que melhora de maneira efetiva as condições de vida da população.

Cita Giles: uma pesquisa realizada pela empresa Pew Research Center sobre as preferências da população em relação ao sistema econômico nos Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido, concluiu que a metade dos entrevistados requer reformas completas na economia. Sigamos com a pergunta anterior: tudo isto será reversível quando a recuperação econômica for duradoura? Temos experiências que apontam que sim. Aconteceu na Grande Recessão, quando foram conduzidas políticas de perfil keynesiano, entre 2008 e 2010, que foram retiradas em meados daquele último ano, com as consequências negativas conhecidas: aumentos da precariedade e da desigualdade, com dados da Oxfam.

Mas se a estratégia de Biden, alinhada à política monetária do Federal Reserve, se consolidar, será difícil que a União Europeia volte aos preceitos de uma austeridade que já se revelou letal para a macroeconomia do continente: fraco crescimento econômico e do emprego, segundo dados do Eurostat. A União Europeia deve perseverar para se alinhar a esse roteiro: acelerar os recursos e aumentá-los se necessário. Este deveria ser o caminho.

O que agora lemos no Financial Times e em outras plataformas, o que observamos do outro lado do Atlântico, o que percebemos de Bruxelas, constituem, em maior ou menor grau, abordagens que outrora eram consideradas progressistas, inclusive de esquerda (conforme define o já citado influente colunista do Financial Times). Progressividade fiscal, redistribuição de renda, investimentos produtivos, programas de formação, luta contra a desigualdade, educação e saúde garantidas... eram e são colunas essenciais nos programas econômicos das formações de esquerda.

Agora, estas ideias foram sendo acomodadas no ideário de governos, de consórcios empresariais e inclusive de bancos centrais (vejam, neste último ponto, o recente e inovador estudo, imprescindível no mundo financeiro, dos professores Simon Dikau e Ulrich Volz, da LSE, em Ecological Economics, n. 184, junho de 2021). Sua aplicação é o que dará a medida real dessas abordagens. Os grupos empresariais mais experientes, os acadêmicos ortodoxos mais atentos e os lobbies de pressão mais informados estão percebendo algo que, em certa medida, se assemelha ao vivido durante os anos 1930: a urgência de salvar o sistema econômico.

Naquela década, o problema imperativo estava centrado no colapso total da demanda agregada, no aumento do desemprego, na anemia comercial e no avanço de ideologias totalitárias. No presente, são reproduzidos alguns dos elementos descritos, embora com menor profundidade, mas são acrescentados outros cruciais: as consequências da mudança climática, as agressões ecológicas, os desafios demográficos, as lideranças econômicas emergentes, as novas revoluções industriais.

Estes fatores condicionam a evolução do capitalismo, cuja capacidade de mutação está historicamente demonstrada. Querer ver em tudo isto uma crise terminal, como muitas vezes se disse na esquerda, ao analisar outras crises, constitui um erro de diagnóstico e, portanto, oferece respostas erráticas. Este sistema de produção tem componentes observados na biologia, sendo seus tecidos formados por sociedades e economias: muda, adapta-se, transforma-se camaleonicamente conforme as novas realidades.

Não existem leis imutáveis nele, um fato que deveria fazer os economistas pensarem como cientistas sociais e, definitivamente, abandonar essa sentença de que, na economia, é preciso ser obscuro, já que não é possível ser profundo. A exploração dessa profundidade requer uma mudança noosférica, uma tentativa de compreensão holística do sistema econômico. Justamente para que o diagnóstico se aproxime mais da realidade. Isto pode estar acontecendo agora. Mas não está isento de resistências, ceticismos e imobilidades. Será uma dura batalha das ideias no tempo que vem.

Uma parte representativa das ciências sociais fez eco a esta situação. Proliferam os livros que traçam a evolução do capitalismo, embora as abordagens do tema possam ser diferentes. Mas, em síntese, ressalta-se que urgem mudanças em profundidade. Aqueles que escrevem isto – Thomas Piketty, Gabriel Zucman, Branko Milanović, Jeffrey Sachs, Angus Deaton, Robert Schiller, Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Steve Keen, Ann Pettifor, Mariana Mazzucato, entre outros autores –, em geral, não seguem os postulados da queda do sistema econômico.

A tese central radica em modulá-lo sobre fundamentos concretos: o avanço da equidade, o aumento dos compromissos climáticos - cúpula de Paris -, uma tributação realmente progressiva - que inclua renda e patrimônio -, a luta contra os paraísos fiscais - penalizando os movimentos especulativos do capital -, repensar os processos da dívida soberana e da dívida privada – contemplando inclusive quitações ou perdões -, a formação adequada para a mudança tecnológica, a transição para vetores energéticos sustentáveis, a mudança nos hábitos de consumo, etc. Eis, aqui, uma semelhança ao contexto no qual John Maynard Keynes escrevia: melhorar, para evitar o colapso.

As esquerdas estão nesse caminho. Com as gradações que se advertem e as nuances que se queiram: social-democracia, ecologismo político, esquerda socialista, para apontar apenas três famílias que trabalham na Europa no marco das instituições e, em alguns casos, na gestão governamental. Elas possuem em seus portfolios, alguns, boa parte, todos ou elementos mais fatores que os descritos anteriormente.

Isto vale até mesmo para os setores que poderíamos qualificar como mais radicalizados. Nota-se, por exemplo, o texto de Yanis Varoufakis, James Galbraith e Stuart Holland, com a proposição de um New Deal europeu e a utilização do Banco Central Europeu, Banco Europeu de Investimento, Fundo Europeu de Investimento e o Mecanismo Europeu de Estabilidade como alavancas ativas para esse objetivo, com a finalidade de superar os problemas existentes. Mas não se sugere assaltar nenhum palácio de inverno, nem são abordados céus distantes, mas presumivelmente alcançáveis.

Essas esquerdas, em todo o seu espectro, portanto, questionam o sistema econômico não para o substituir de forma abrupta por outro cuja essência é desconhecida, mas para estimular mudanças estruturais – um conceito que, como vimos, sim, se enche de conteúdo, contrariamente ao que costuma acontecer com muitas das retóricas econômicas que o utilizam – peremptórias para tornar mais justa socialmente a economia e mais habitável ecologicamente o planeta. Isso também nos leva a um cenário que abraça a ciência política: os instrumentos necessários para alcançar essa agenda.

Em geral, os perfis eleitorais na Europa não arbitram maiorias absolutas ou predomínios avassaladores de umas ou outras opções políticas. Isso abriu possibilidades de colaborações e cumplicidades no campo da esquerda, com os complexos estratos que apontamos. Seria, em certa medida, a configuração de uma 'Quarta Via' que reuniria os eixos essenciais a serem aplicados na política econômica com a capacidade para desenvolvê-los, caso sejam selados acordos programáticos, quando o mosaico eleitoral permitir. O atomismo político cedeu lugar a um certo holismo, um universo mais “líquido” – na concepção de Zygmunt Bauman – que, nesses casos, teria a positividade de romper postulados pétreos e inegociáveis.

Vimos ou estamos vendo tudo isto em governos nacionais e/ou regionais na Espanha, em Portugal, na Alemanha. Essa 'Quarta Via' – em oposição à 'Terceira Via' propiciada por Tony Blair – reúne o núcleo central da política econômica – mais acima destrinchamos alguns de seus componentes -, com o aval, além disso, de uma parte relevante das ciências sociais, com pesquisas empíricas, orientações para a classe política, junto a reflexões políticas profundas e de longo alcance. Também se inscrevem, aqui, as lições inestimáveis de Tony Judt.

Entre essas contribuições, trabalhos recentes ressaltam a revisão profunda e radical de axiomas considerados como císticos: que a histerese, a permanência de altas taxas de desemprego no tempo, é condição básica para manter a inflação controlada. Os professores Walter Paternesi, Davide Romaniello e Antonella Stirati demonstram, empiricamente, que essa tese não é permanente e que o desemprego de longa duração pode ser revertido sem um aumento significativo da inflação. Outro carro-chefe do mainstream que pode se desmoronar.

Neste contexto, os think tanks que geram argumentos, discursos e narrativas, na perspectiva progressista – em uma ampla acepção que inclui as formações de esquerda com vocação de governar e transformar –, devem reativar suas análises, suas pesquisas rigorosas e sua capacidade, com a modéstia e a checagem dos dados, para incidir nos policy makers.

Estas contribuições, às vezes construídas na solidão, remando contra a corrente, podem ser eficazes quando a realidade impõe, teimosamente, a incapacidade da economia escolástica em resolver os problemas da população: seu acesso a um posto de trabalho, à saúde universal, a uma ampla educação, a uma moradia digna, a algumas infraestruturas bem equipadas, a uma cultura edificada sobre bases democráticas.

Esta é a essência dessa 'Quarta Via', que permeabiliza, de modo poroso, o ideário econômico – com medidas plausíveis, distante de imaginários utópicos – com a possibilidade de articular experiências conjuntas que tenham esses mínimos denominadores comuns.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Esquerda, Economia, Política: a Quarta Via - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV