Acordo entre Santa Sé e China: uma virada histórica, mas ainda mantida em segredo

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30 Abril 2021

 

As relações entre a Santa Sé e a China ao longo da história sempre foram muito complexas, mas com o acordo estipulado entre Roma e Pequim em 2018 parece ter finalmente alcançado um ponto de virada. Um acordo alcançado com dificuldade porque é fruto de quarenta anos de diálogo, crises, afastamentos e aproximações e, portanto, não pode ser considerado um resultado epifenomênico.

A reportagem é de Marco Corno, publicada por Notizie Geopolitiche, 28-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

O acordo é tão importante para ambas as partes que o conteúdo ainda é secreto precisamente porque regula a nomeação de bispos chineses, uma matéria muito delicada e uma das principais disputas que influenciaram as relações entre o Vaticano e a China desde 1949.

A “política concordatária” do Vaticano considera o tratado um objetivo intermediário para a estipulação de um acordo oficial com a China a longo prazo, que leve ao estabelecimento de relações diplomáticas oficiais entre Roma e Pequim. No curto prazo, o objetivo é, além de estabelecer um novo modus vivendi entre os dois estados, resolver o cisma interno da Igreja Católica Chinesa entre a Igreja Católica Patriótica leal ao Partido Comunista Chinês e a Igreja Católica Clandestina que reconhece apenas no Pontífice a autoridade espiritual e política da Igreja universal.

O acordo sobre os bispos visa evitar a perpetuação de tal impasse ao longo do tempo e dar uma resposta diplomática a um quebra-cabeça institucional que há muito tempo mantém as comunidades católicas chinesas e suas instituições em situação de discriminação e perseguição. O hiato da Cúria Romana em relação a Pequim também quer ser um credenciamento à "corte imperial dos mandarins" como entidade independente que prossegue a sua própria agenda internacional e não como a longa manus das potências ocidentais.

Este acordo, portanto, tem e terá efeitos geopolíticos muito importantes no equilíbrio do poder da ordem internacional, visto que a abertura sino-vaticana demonstra, ao contrário do passado, que é capaz de resistir às pressões das superpotências e às tentativas de sabotagem. De fato, por ocasião da renovação do acordo em outubro de 2020, os EUA pressionaram o Vaticano por meio de Mike Pompeo, ex-secretário de Estado da administração Trump, pela caducidade do tratado sino-vaticano, porque impede uma definitiva contenção do Império Celestial. O Cardeal Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, por ocasião do encontro pelo 150º aniversário da presença do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME) de Milão na China, declarou enfaticamente a intenção e a vontade da Santa Sé de renovar o acordo com a China por mais dois anos ad experimentum, indiretamente afirmando como esse acordo representa um novo começo nas relações entre essas duas grandes civilizações que custou inúmeros sacrifícios de ambos os lados.

Do lado chinês, a vontade de respeitar o tratado é funcional tanto por motivos internos quanto por interesses estritamente geopolíticos.

Do ponto de vista interno, Xi Jinping considera o catolicismo uma força social catalisadora, funcional para a conquista da chamada "sociedade harmoniosa" porque ajudaria o "regime dos mandarins", com seus próprios princípios de fraternidade e suas próprias instituições de caridade e o voluntariado, para combater a pobreza e as desigualdades sociais, graças ao envolvimento das comunidades católicas na saúde, educação e assistência social.

Quanto ao aspecto geopolítico, a entente com Roma poderia permitir a Pequim resolver pacificamente a questão de Taiwan, o estado-chave do desafio com Washington DC. O presidente Xi Jinping espera que um alinhamento da Santa Sé com Pequim possa permitir que Pequim inicie negociações diplomáticas com Taiwan, por meio da mediação pontifícia, para trazer a ilha de Formosa de volta definitivamente à soberania chinesa ou, em todo caso, aproximá-la ainda mais da China continental.

No entanto, apesar do importante marco alcançado, ainda existem muitos obstáculos entre a Santa Sé e a China, mas ao mesmo tempo há uma vontade e determinação comuns para realizar um acordo que, se respeitado e implementado, levará à superação de mútuas diferenças e para uma abertura que iniciará um grande intercâmbio cultural entre essas duas civilizações milenares.

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