Francisco deverá levar à ONU suas preocupações e propostas pós-pandemia

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01 Setembro 2020

Quando discursar, via videoconferência, à Assembleia Geral das Nações Unidas em 15 de setembro, o Papa Francisco deverá falar sobre o uso da crise do coronavírus como uma oportunidade de repensar as diretrizes econômicas, políticas e ambientais para que beneficiem a humanidade e a terra.

A reportagem é de Cindy Wooden, publicada por Catholic News Service, 28-08-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Desde que se reconheceu oficialmente a covid-19 como uma pandemia no começo de março, o papa vem pedindo que as pessoas, as organizações e os governos reconheçam as desigualdades que a pandemia tem sublinhado na economia e no acesso à saúde e educação, bem como os modos como os padrões atuais de produção e consumo têm prejudicado o meio ambiente.

O Papa Francisco iniciou uma série de audiências gerais em 5 de agosto sobre os princípios do ensino social católico que podem ajudar o mundo a se recuperar da pandemia e seguir em frente de um modo que seja melhor para os seres humanos e o meio ambiente.

Ele falou sobre “transformar as raízes das nossas enfermidades físicas, espirituais e sociais. Poderemos curar profundamente as estruturas injustas e as práticas destrutivas que nos separam uns dos outros, ameaçando a família humana e o nosso planeta”.

Durante uma coletiva de imprensa em 26 de agosto em Rieti, na Itália, para o lançamento de eventos em torno da vida de São Francisco de Assis, Dom Domenico Pompili respondeu a um comentário sobre a cooperação inter-religiosa dizendo que o Papa Francisco prepara uma nova encíclica sobre a “fraternidade humana”, frase empregada num documento sobre o diálogo inter-religioso e cooperação assinado em 2019 pelo Papa Francisco e pelo Xeique Ahmad el-Tayeb, grande imã de al-Azhar.

O Vaticano não confirmou que uma encíclica esteja sendo elaborada, mas faria sentido que uma encíclica social sobre uma visão pós-covid-19 seja feita com base na afirmação de que todos os seres humanos foram criados por Deus com igual dignidade e que as soluções para os problemas mais prementes do mundo devem ser encontradas em conjunto e beneficiar a todos.

Em longa entrevista publicada dia 27 de agosto, perguntaram ao Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, que princípios do ensino social católico poderiam ajudar a economia mundial na recuperação da pandemia.

“A prioridade não é a economia como tal, mas o ser humano”, respondeu a Carlo di Cicco, ex-editor assistente do jornal vaticano L’Osservatore Romano.

A entrevista foi publicada em Riparte L’Italia, revista on-line italiana de um instituto voltado a temas econômicos e sociais.

“A covid-19 não só causou uma crise sanitária, mas também afetou muitos aspectos da vida humana: família, política, trabalho, negócios, comércio, turismo, etc.”, disse o Parolin.

“A natureza expansiva e interconectada da pandemia nos lembra constantemente a observação do Papa Francisco de que ‘tudo está conectado’”.

Segundo também o cardeal, a aceitação da ideia de que a economia não é tudo é a única explicação por que tantos governos nacionais e locais ordenaram períodos de confinamentos para impedir a disseminação do coronavírus. “Isso significa que a prioridade não é a economia, mas a pessoa”.

No entanto, continuou o religioso, para a Igreja Católica não basta se preocupar com a saúde física do indivíduo. “A atenção deve ser dada à integridade da pessoa humana”, o que significa um cuidado também pela saúde espiritual, política e econômica também.

Segundo Parolin, desde o ensino de São João XXIII a respeito da construção da paz em face da corrida armamentista nuclear, o ensino social católico vem enfatizando a interdependência dos povos.

A pandemia revelou “tanto a nossa interdependência como a nossa fraqueza comum, a fragilidade compartilhada”, afirmou ele na entrevista. “Porém, ao invés de fomentar a cooperação para o bem comum universal, vemos cada vez mais muros se erguendo ao nosso redor, exaltando as fronteiras como garantia de segurança e praticando violações sistemáticas do direito, mantendo uma situação de conflito global permanente”.

“Como recordou o Papa Francisco em Nagasaki (em novembro), o gasto com armamentos atingiu seu pico em 2019, e agora existe o sério risco de que, após um período de diminuição, também devido às restrições relacionadas à pandemia, continue a aumentar”, disse.

No entanto, a pandemia mostra a necessidade de “semear amizade e benevolência, em vez de ódio e medo”

O ensino social católico, disse o cardeal, possui firmes fundações bíblicas, teológicas e antropológicas e pode ser “continuamente atualizado” para responder às novas necessidades e situações.

Quando se fala de economia, disse o religioso italiano, as duas últimas encíclicas sociais papais são fundamentais: a Caritas in Veritate (“A caridade na verdade”), de Bento XVI publicada em 2009, e Laudato Si’– sobre o cuidado da casa comum, de Francisco, publicada em 2015.

Bento XVI falava de uma economia na qual deve encontrar espaço a lógica da doação, o princípio da gratuidade, que expressa não só a solidariedade, mas ainda mais a fraternidade humana”, disse o cardeal. “Francisco relançou o tema do desenvolvimento humano integral no contexto de uma ‘ecologia integral’, ambiental, econômica, social, cultural e espiritual”.

“Hoje a pandemia traz uma sacudida formidável para todo o sistema econômico e social e suas alegadas certezas, em todos os níveis. Os problemas de desemprego são e serão dramáticos, os problemas de saúde pública exigem a revolução dos sistemas sanitários e educativos como um todo, e o papel dos Estados e das relações entre as nações muda”, disse o Cardeal Parolin.

“A Igreja sente-se chamada a acompanhar o complicado caminho que se apresenta diante de nós como família humana. Deve fazer isso com humildade e sabedoria, mas também com criatividade”, declarou. “Em suma, existem princípios de referência sólidos, mas hoje é urgente a criatividade corajosa, para que a crise dramática da pandemia não termine em uma terrível tragédia, mas abra espaços para a conversão humana e ecológica de que a humanidade necessita”.

Os leitores de língua italiana poderão saber mais sobre o que o Papa Francisco pensa quando o fundador italiano do movimento Slow Food apresentar um livro de três longos diálogos que teve com o papa em torno do significado de “ecologia integral”.

O livro, “TerraFutura”, deve sair em início de setembro e contará com os diálogos que Carlo Petrini, agnóstico, teve com o Papa Francisco sobre o cuidado da terra e de todos os que nela vivem, promovendo justiça aos humanos e a preservação da natureza.

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