“Decisão sobre Santa Sofia é insulto de um líder em crise de consenso.” Entrevista com Claudio Monge

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25 Julho 2020

“O insulto de Erdogan é, mais do que qualquer outra coisa, contra Santa Sofia como uma maravilha arquitetônico-artística, testemunha tangível de uma história complexa e estratificada, atingida também como inesgotável fábrica de pesquisa, encruzilhada de artes, fés e culturas. O resto é retórica de propaganda que usa instrumentalmente o sagrado e os seus símbolos, provocando reações emocionais, que alimentam uma polarização Islã-Ocidente (cristão, subentenda-se), que é uma vulgar simplificação.”

O padre Claudio Monge, 52 anos, vive em Istambul há 17 anos e é responsável pelo Centro Dominicano para o Diálogo Inter-Religioso e Cultural.

A entrevista é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 24-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Padre, você acha que as lentes com as quais se olha para Santa Sofia no Ocidente estão erradas?

Em boa parte, sim. Muitos caíram na armadilha da instrumentalização religiosa. Uma grande parte do Islã no Oriente e no Ocidente condenou a iniciativa. Quem fala em insulto à cristandade parece não ter a menor ideia de que, em Santa Sofia, os cristãos lutaram entre si duramente durante séculos.

Devemos preferir uma chave de leitura político-estratégica?

Certamente bem mais do que religiosa, mesmo que o discurso político de Erdogan sempre se alimentou também de retórica islamista. No pano de fundo do desafio para o Ocidente, está a necessidade de recompactar uma base eleitoral em diminuição (embora seja mais o partido do que a sua pessoa que sofre uma queda de consenso), desviando a atenção de dossiês bem mais cruciais, como a situação econômica já difícil e tornada ainda mais dramática pela pandemia. Erdogan joga a carta do “orgulho soberanista”, acentuando a polarização identitária do “nós contra todos”, que não admite ingerências. E encontra um alvo perfeito em um certo Ocidente, onde estão mais vivas do que nunca as lógicas de cruzada, de “torcida”, facilmente excitáveis com a ostentação blasfema dos símbolos religiosos usados como espadas a serem brandidas! É o mesmo mecanismo seja em estilo islâmico ou cristão.

No Islã, muitos parecem ter entendido essa lógica.

É um mundo longe de ser monolítico. Para que fique claro: as facções respondem, também aqui, acima de tudo a lógicas político-estratégicas, assim como à histórica suspeita que um certo mundo árabe sempre alimentou contra a “hegemonia turco-otomana”. Mas a censura que vem do Cairo e de Riad também sabe se revestir de motivações mais “teológicas”: ela infringiria a sacralidade de um local de culto dos fiéis das Religiões do Livro, que o Profeta do Islã intimou a respeitar.

Os bispos estadunidenses convocaram um dia de luto.

Estou surpreso que tenham tempo para se ocupar disso, dados os relevantes problemas que o país deles está enfrentando. Gostaria de destacar que, há 560 anos, Santa Sofia não é um lugar de oração cristã! Entendo o que a decisão de Erdogan pode representar para Atenas e para o mundo ortodoxo. Mas, se formos a um nível de fé, a grande pergunta que resta é quem são os fiéis: guardiões do templo ou testemunhas de uma fé viva?

Alguns disseram que Santa Sofia, ao se tornar mesquita, é o fracasso de Abu Dhabi

Francisco sabe muito bem que não há diálogo sem fraternidade e que não há fraternidade sem conhecimento mútuo. O diálogo não pode ser invalidado pelo uso instrumental dos símbolos religiosos, e o caso de Santa Sofia evidencia a necessidade de mais respeito à complexa história de cada um para poder conviver.

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