Ivan Illich, as profecias de um pária. Artigo de Donatella Di Cesare

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02 Junho 2020

"Seu ataque furioso à modernidade e às suas instituições, escola, medicina, transporte, está nos antípodas do progressismo em direção à boa e sombria fé pós-darwinista que ainda agora domina a "esquerda" europeia e, sobretudo, a italiana. Quem sabe, talvez seja precisamente de Illich que se deveria recomeçar hoje, dessa visão do mal cristalizada nas instituições, nos sistemas de serviços, nos especialistas", escreve Donatella Di Cesare, filósofa italiana, em artigo publicado por La Lettura, 31-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Foi publicado recentemente pela editora Neri Pozza o primeiro volume das obras completas de Ivan Illich, conhecido pelo público italiano por seus ensaios sobre o convívio, o elogio à bicicleta e a desocupação criativa. Com este volume é inaugurada a primeira edição mundial de todos os seus escritos, um projeto do qual se deve agradecer aos editores e curadores. Os escritos publicados, em parte inéditos, que cobrem o período de 1951 a 1971, coincidem com os anos da formação, o compromisso pastoral, primeiro em Nova York e depois em Porto Rico, participação no Concílio Vaticano II e fundação em Cuernavaca, no México, do Centro intercultural de documentación. É o tempo de sua atuação dentro da Igreja, mas também aquele sucessivo a 15 de março de 1969, a data em que ele abre mão "os privilégios e poderes que lhe foram conferidos pela Igreja" declarando renunciar ao exercício público do sacerdócio. Inicia-se assim a atividade de escritor e palestrante, graças à qual ele se tornará uma das principais figuras da cultura nos anos 1970. Sua perspectiva radical harmoniza-se com uma época que critica todas as instituições. Mas como a obra não pode ser relegada ao período da primeira recepção sensacional, é necessário reconhecer uma continuidade em toda a sua reflexão, antes e depois da saída da Igreja, o que torna esse volume ainda mais precioso, oferecendo ao leitor um percurso fascinante para redescobrir uma personalidade excepcional, um mestre do século XX, cuja hora de legibilidade pode ter chegado. Não há dúvida de que, após as catástrofes que já marcaram o século XXI, esse crítico radical da modernidade, esse arqueólogo singular do convívio tenha muito a nos dizer.

Celebrare la consapevolezza (Ivan Illich)

Mas quem era Ivan Illich? "Para defini-lo, não é fácil encontrar os termos apropriados", escreveu Erich Fromm em uma nota introdutória ao ensaio de 1970 que dá o título a este volume Celebrar a conscientização. Apelo para revolucionar as instituições. Em seguida, ele propõe a fórmula "radicalismo humanista" para indicar a capacidade de questionar tudo o que de outra forma seria aceito como uma obviedade, sem medo de alcançar ideias que poderiam parecer absurdas. E apresentando Illich como "um homem de rara coragem, grande carga vital, extraordinária cultura e inteligência e imaginação fértil", destaca o efeito libertador e o choque criativo transmitido por seus escritos.

A biografia de Illich, marcada pelas tragédias e triunfos do século XX, está intimamente ligada à sua atuação. Ele nunca havia esquecido um episódio da adolescência que voltou a contar em público, inclusive antes de morrer em 2002. Era a primavera de 1938 e ele, com seus onze anos, sentava-se entre seus colegas de classe em um renomado ginásio vienense. O professor de alemão, ao entrar na sala de aula, convidou-o a se levantar e mostrar de perfil o inconfundível nariz "judeu". Mesmo décadas depois, ainda ficava assombrado que os austríacos, e não apenas eles, pudessem ter acreditado em "tais bobagens".

A mãe Ellen Rose Regenstreif vinha de uma família de judeus convertidos ao protestantismo que pertenciam à burguesia vienense culta. Para se casar com Ivan Petar Ilic (de acordo com a grafia original), o filho mais velho de uma família dálmata de língua italiana que residia em Split, Ellen teve que se converter ao catolicismo, religião que permaneceu o ponto de orientação dos filhos. Mas também é verdade que, devido à longa e tácita separação de seus pais, Ivan e seus dois irmãos permaneceram por anos na casa materna de Viena, onde ainda se respirava aquele judaísmo culto e radical que estava prestes a ser aniquilado.

Ele tinha 11 anos quando a Áustria foi anexada ao Terceiro Reich - um evento que marcou sua vida. Após a morte prematura de seu pai, a família, perseguida pelas leis de Nuremberg, encontrou abrigo em Florença. Illich manteve a memória dos verões passados na propriedade paterna na ilha de Brac, onde os habitantes viviam em casas construídas por eles mesmos, percorriam estradas desgastadas pela passagem de seus animais e viviam naquele compartilhamento de bens que em inglês ele chamou de commons. A ordenação sacerdotal seguiu o estudo de teologia na Universidade Gregoriana em Roma. Ele nunca soube o porquê: “Não sei. E eu poderia responder o mesmo pelas decisões mais importantes da minha vida”. O que Illich procurara na Igreja? Por que a entrada e depois a saída? Por que essa relação sempre tensa, nunca realmente dissolvida?

Os textos publicados nesse primeiro volume, uma "pré-história do autor Illich", como escreve o curador Fabio Milana, são o testemunho da vida e da reflexão de um pensador incômodo, que nunca se curvou, mas aluno de Arnold Toynbee, o grande e esquecido filósofo da história, a quem é dedicada a tese de doutorado, oportunamente republicada. Para quem conhece Illich, essa leitura é uma maneira de descobrir aspectos inéditos; para quem não o conhece, é o caminho para se aproximar de seus pensamentos graças a escritos curtos e simples. "Não estrangeiros, mas estranhos" - o que Illich diz em defesa dos imigrantes porto-riquenhos em Nova York poderia ser dito sobre ele, que falava fluentemente onze idiomas, mas não se sentia em casa em lugar nenhum. Sua condição de pária, na fronteira entre mundos diferentes, já não era um freio, mas a alavanca de um olhar crítico e radical que o levou a levantar questões capazes, hoje mais do que nunca, de causar polêmica. Descolarizar a sociedade, porque a escola, além de homologar e achatar as diferenças, direciona para o sucesso e o desempenho, reduzindo o saber a um instrumento. Libertar-se da medicina, ou melhor, do sistema higiênico-sanitário, uma instituição criada com o único objetivo de tornar mais dependentes aqueles que o usam e que são de fato chamados pacientes.

Seu ataque furioso à modernidade e às suas instituições, escola, medicina, transporte, está nos antípodas do progressismo em direção à boa e sombria fé pós-darwinista que ainda agora domina a "esquerda" europeia e, sobretudo, a italiana. Quem sabe, talvez seja precisamente de Illich que se deveria recomeçar hoje, dessa visão do mal cristalizada nas instituições, nos sistemas de serviços, nos especialistas. Ainda mais radical que Foucault, com sua arqueologia do convívio, aquele modo de viver irremediavelmente perdido, Illich não pretende, de maneira alguma, voltar às origens. Ele não é um reacionário. Cada rótulo é quase uma violência em direção a um pensamento complexo e poliédrico. Seria forçado demais, inclusive, lê-lo como um pensador cristão que, diante da corrupção atual, olha para o cristianismo primitivo. Para Illich, a Igreja é a mãe de todas as instituições. E o espírito do cristianismo é o espírito da modernidade do qual ele foi o grande crítico. Talvez tenha chegado a hora de interpretar seus escritos sem pretender confiná-lo a um daqueles recintos que ele próprio contribuiu a instalar em torno de si. Que o olhar, como sugere Giorgio Agamben no prefácio, não esteja voltado para a história da salvação, deve nos fazer refletir. Mas, então, quanto messianismo judaico ressoa no "aqui e agora" de um reino que não busca a salvação do depois, mas pede agora um resgate?

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