Se és humano, serás tentado

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28 Fevereiro 2020

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 1º Domingo da Quaresma, 1º de março de 2020 (Mateus 4,1-11). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com a Quarta-Feira de Cinzas, entramos na Quaresma, um tempo de 40 dias a ser vivido pelos cristãos, todos juntos, como tempo de conversão, de retorno a Deus.

Sempre, nós, cristãos, devemos resistir aos ídolos, sempre é o tempo favorável para a acolher a graça do Senhor. No entanto, a Igreja, conhecendo a incapacidade da nossa humanidade de viver com uma tensão constante o caminho para o Reino, oferece-nos um tempo “outro” para fazer convergir as nossas energias no esforço de conversão, para nos exercitarmos mais na arte da luta espiritual.

Essa “batalha” é tão necessária que nem Jesus se isentou dela, como nos mostra o Evangelho do Primeiro Domingo da Quaresma, o da sua luta contra as tentações.

A experiência de se sentir chamado pelo Pai de “Filho amado” (Mt 3,17), vivida por ele no batismo, não lhe abriu um caminho protegido das provações: não, logo depois de receber a imersão no rio Jordão, “o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo”.

Do mesmo modo, todo batizado deverá esperar uma dura oposição por parte do Adversário, que, mediante as suas astutas e sedutoras tentações, tentará dissuadi-lo do caminho de seguimento.

A primeira leitura deste Ano A, extraída do livro do Gênesis (Gn 3,1-7), constitui um interessante paralelo ao Evangelho e nos permite compreender a dinâmica da tentação. Depois de criar o ser humano à sua imagem e semelhança, Deus lhe dissera: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, com certeza morrerás” (Gn 2,16-17).

Esse limite, garantia da liberdade humana, é alavancado pela tentação da serpente: “Não, vós não morrereis. Mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus” (Gn 3,4-5).

Essa sugestão malvada, acolhida e elaborada no coração, leva a uma nova visão da realidade, caracterizada por três elementos: “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento” (Gn 3,6). O mundo aparece como uma presa a ser devorada, e, adquirida essa visão, o pecado já está consumado, e o gesto da mão que colhe o fruto é inevitável...

A Adão, contrapõe-se Jesus, ele também tentada como todo homem que vem ao mundo, mas “sem cometer pecado” (cf. Hb 4,15): onde Adão caiu, Jesus lutou e venceu.

Mateus nos mostra isso exemplificando as tentações sofridas por Jesus em três: transformar as pedras em pão, jogar-se do alto do templo para ser milagrosamente salvo, possuir os reinos da terra.

Mas Jesus reage a essas adulações mediante uma atitude de plena obediência a Deus e à sua própria criaturalidade: ele protege com força a sua própria humanidade, salvaguardando assim também a imagem de Deus revelada pela Escritura.

A arma com que Jesus combate é a submissão à Palavra de Deus, como mostra as suas respostas ao Adversário apenas com palavras da Escritura: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3); “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Dt 6,16); “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto” (Dt 6,13).

E Jesus obedece à Palavra no seu significado profundo, não na sua simples letra, como, por sua vez, faz o diabo, que usa a Escritura (cf. Sl 91,11-12) com malícia.

Se Adão considerou o ser como Deus uma presa a ser conquistada e estendeu a mão para a árvore para “sequestrar” a qualidade divina, Jesus percorreu o caminho oposto e, ao término da sua existência terrena, chegou a estender as suas mãos na cruz para oferecer a sua vida na liberdade e por amor a Deus e aos seres humanos.

É precisamente olhando como Jesus combateu contra as tentações que também nós, cristãos, podemos enfrentá-las. Ou, melhor, nossa tarefa é a de predispor tudo para que o próprio Jesus lute em nós, como Santo Agostinho entendeu inteligentemente: “Jesus Cristo foi tentado pelo diabo no deserto, mas em Cristo tu eras tentado: nele, foste tu a ser tentado, nele tu trazes a vitória”.

 

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