A religião das vítimas. Artigo de Alberto Melloni

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24 Abril 2019

"Para não ter que chorar outros massacres, é necessário um profundo conhecimento e uma alta consciência da alteridade de que cada um é o guardião", escreve Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por la Repubblica, 23-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quem participou da liturgia da Páscoa cristã renovou a renúncia "ao Divisor" (o satanás) e "a todas as suas seduções". Seduções frequentemente reduzidas a sermões contra a moral individual, nesta Páscoa de sangue, com centenas de evangélicos e católicos assassinados no Sri Lanka. Todos experimentaram em primeira mão que, com elas, o Divisor tem uma ambição mais complexa: fazer as pessoas pensarem que se possam dividir os mortos por categorias, por religião, por origem ou com base em como os assassinos se definem.

Depois do assalto à sinagoga de Pittsburgh, do massacre nas mesquitas de Christchurch, a enésima carnificina de fiéis não é um capítulo distinto dos outros pela fé dos assassinados. Faz parte do sofrimento de milhões de crentes e também de milhões de cristãos no mundo: mas para nenhum deles pode falar o cinismo político que quer insuflar o ódio contra os muçulmanos pobres (em relação aos ricos há mais realismo, honestamente) e não compreende que a islamofobia é apenas uma variante do antissemitismo que mais uma vez assoma com angustiante pontualidade a cada crise das democracias europeias, e serve como fundo simplista para o projeto terrorista de tornar impossível a fraternidade entre as diversidades de um outro irredutível a si mesmo.

Uma firme "renúncia" deve ser oposta a essa divisão. A mesma que faz reconhecer como imundas no plano moral e historicamente insensatas as comparações entre as mortes dos gulags e aquelas do Holocausto, entre os massacres das foibas e os fuzilamentos da resistência, entre a limpeza étnica dos cristãos na ex-Iugoslávia e a dos budistas de Mianmar, entre a violência nacionalista dos católicos da Irlanda e aquela dos ortodoxos da Ucrânia. O que não significa travar as lágrimas diante do tormento daqueles que morrem por uma festa que para muitos é feita de turismo e chocolate. Significa reconhecer que a coabitação da diversidade - e das alteridades religiosas de forma particular - que o terrorismo quer que exploda é a medida da humanidade e da piedade aceita por Deus.

Na Bíblia hebraica e cristã, isso é explicado na história de Abel, quando Deus, depois de ter tentado em vão converter Caim, escuta a voz de Abel: no texto, não se fala a voz do "seu sangue", mas dos "seus sangues" (no plural) porque todos os crimes cometidos pelo ódio religioso são fratricidas. No Alcorão, é o próprio Deus que lembra aos seus fiéis que "se quisesse, teria feito de vocês uma única comunidade" e, portanto, a única resposta para a diversidade do outro é "competir em boas obras".

Para não ter que chorar outros massacres, é necessário um profundo conhecimento e uma alta consciência da alteridade de que cada um é o guardião. É preciso uma intensidade de diálogo que Francisco expressou justamente na véspera desses massacres e uma capacidade de saber isolar uma cultura [que] vangloria-se de valores de civilização e espiritualidade em que não acredita, depois os enrola e os usa como isca para deflagrar um incêndio. Infernal, obviamente.

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