Argentina. “Os mais pobres sempre são postergados”, constatam os bispos

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13 Novembro 2018

Os bispos católicos utilizaram a assembleia realizada em Pilar, durante a semana que passou, para ratificar a mensagem que, através de diferentes porta-vozes e em diferentes ocasiões, expressaram nos últimos meses. Inquietação pela situação social, solidariedade aos mais pobres, busca de autonomia em relação ao governo e as forças políticas, apoio institucional à democracia, inquietação pela divisão e os enfrentamentos na sociedade e preocupação pelos ataques contra o Papa Francisco e seu ensino. Estes são os principais pontos de uma prédica que também incluiu a exaltação dos beatificados: o bispo Enrique Angelelli e seus companheiros mártires.

A reportagem é de Washington Uranga, publicada por Página/12, 11-11-2018. A tradução é do Cepat.

Também não foi menos expressivo o anúncio de que a Igreja Católica inicia o processo destinado a abrir mão dos fundos que agora o Estado lhe confere. Tudo isso no marco de uma mudança de estilo que mudou até mesmo a maneira de comunicação tradicional: não houve documento final da assembleia, mas, ao contrário, um vídeo divulgado pelas redes sociais no qual o Presidente da Conferência Episcopal Argentina (CEA), Oscar Ojea, e os vices, Mario Poli e Marcelo Colombo, se expressaram sobre todos estes temas.

“Nós queremos cuidar e fortalecer a democracia. A qualidade de vida está ligada à saúde das instituições”, disse Ojea, ao lado de seus dois vice-presidentes na mensagem gravada. E acrescentou, no entanto, que “reconhecemos que a democracia tem uma dívida social: os mais pobres sempre são postergados. Por isso, a enorme quantidade de problemas que temos no país está centralizada nesta dívida”.

Uma resposta institucional e direta para aqueles que acusaram os bispos de se embandeirar politicamente com a oposição por suas reivindicações em favor dos pobres e, de maneira muito particular, por ter patrocinado a cerimônia religiosa pela “paz, pão e trabalho”, celebrada no dia 20 de outubro passado, na basílica de Luján, com dirigentes sindicais, sociais e políticos. “Quando olhamos o país, agimos como pastores”, disse Ojea. “A Igreja não é um partido político, nem do governo, nem da oposição”. Mas, também acrescentou que a Igreja “olha” a realidade “a partir do Evangelho”. E dado que “no centro do Evangelho estão os pobres – afirmou o bispo – é natural que nós tenhamos, neste momento da vida nacional, uma preocupação particular por muitíssimos irmãos que não chegam ao fim do mês, por todos aqueles que estão fora do mercado de trabalho e pelos que mais sofrem”.

E não perdeu a oportunidade para reafirmar que os bispos terão “a coragem para dizer o que temos que dizer e estar ao lado dos que temos que estar”. Segundo Ojea, “esse é o lugar da Igreja”.

Os bispos entendem que no mundo, mas particularmente na Argentina, existe uma ofensiva de críticas contra Bergoglio. “Sentimos que há uma agressividade muito grande em diferentes meios de comunicação” contra o Papa, afirmou Ojea, e admitiu que “nunca como agora, por dentro da Igreja e por fora, se criticou de maneira tão intensa o Santo Padre, seguramente pela pregação social tão forte que pode tocar alguns interesses”. Com seu discurso, Francisco está advertindo sobre as ameaças que se encerram sobre a humanidade, os abusos do capital, a exclusão e a marginalização de grandes setores. No país, esses princípios se traduzem em críticas ao modelo econômico vigente que afeta os mais pobres. Não escapa também à hierarquia que tais resistências ao magistério pontifício não provêm só de fora da Igreja, mas também das próprias fileiras do catolicismo. Assim é o que também consideram grupos de fiéis como Cristãos para o Terceiro Milênio, que emitiu um documento no qual apoiam Ojea e, particularmente, a “grave denúncia” que ele faz “sobre o ocultamento do pensamento de Francisco e sobre os ataques que sofre de fora e de dentro da Igreja”.

Para completar sua mensagem, o Presidente da Conferência Episcopal Argentina ressaltou que, junto com o Papa, os bispos querem “estabelecer uma luta sem trégua contra a corrupção, no interior da Igreja e fora dela.

Nada do anterior pode ser lido à margem de outro dado: a Igreja institucional, a condução da Conferência Episcopal Argentina e boa parte dos bispos que compõem o episcopado católico atravessam um processo de reflexão interna, que é por sua vez autocrítica e que se expressa no reconhecimento de uma “mudança cultural” a qual eles devem se adaptar. Isto implica também assumir que a Igreja perdeu lugares de privilégio, que suas opiniões não têm o consenso que antes tinham, que surgem na sociedade outros atores protagonistas e novas agendas para as quais a Igreja deve dar resposta. Essa mesma realidade precipita debates, discussões e reformulações internamente. É uma realidade que alguns decidem enfrentar “com coragem e paciência”, como disse Ojea, e que outros resistem a partir de um ponto de vista mais conservador.

Parte integral do posicionamento da Igreja hoje é o anúncio acerca da decisão de ir se desprendendo, pouco a pouco, das contribuições do Estado. Uma mensagem que reúne as críticas daqueles setores que reivindicam a separação absoluta da Igreja e Estado, demandas que foram reiteradamente escutadas nas massivas marchas em meio ao debate sobre a descriminalização do aborto. Mas que também tem em conta a necessidade institucional dos bispos em “dizer o que temos que dizer e estar ao lado dos que temos que estar”, como enfatizou Ojea. Nesta linha, a condução do episcopado entende que interpreta o magistério de Francisco e se sente apoiada pelo Papa.

Também não se deve descuidar que parte integral da própria mensagem é a apresentação como exemplo de vida do assassinado bispo Enrique Angelelli e seus companheiros mártires, a quem Francisco decidiu levar aos altares das igrejas. Não por acaso, os bispos recordaram agora que a luta do bispo riojano e de seus companheiros foi “contra a tendência ao individualismo consumista, que acaba nos isolando na busca do bem-estar à margem dos outros”.

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