Em memória de Giulio Girardi, perito conciliar e teólogo competente

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10 Abril 2012

A grande alma de Giulio Girardi o guiou a um amor cada vez mais profundo para com os pobres de toda a terra.

A opinião é de Giovanni Nicolini, publicada na revista Jesus, de abril de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos, com muito mais competência, poderiam fazer memória de Giulio Girardi. A sua passagem para o Pai, porém, suscitou em mim memórias afetuosas que eu tento comunicar. Pensando em uma hipótese de ministério sacerdotal, eu tinha me transferido da filosofia na Universidade Católica de Milão para a teologia na Gregoriana. Eram os anos do Vaticano II, e, em Roma, se escapava no fim da quarta lição para não perder a conferência que, na Sala de Imprensa do Vaticano, se apresentava sobre os trabalhos realizados na aula conciliar.

À tarde, depois, em alguns Colégios eclesiásticos romanos, se reuniam grupos de livre participação, onde se comentavam os trabalhos da assembleia e se refletia sobre os temas mais apaixonantes elaborados pelo Concílio. Eu frequentava o grupo que refletia sobre a Igreja dos pobres. Lá eu conheci o arcebispo de Bolonha, Giacomo Lercaro. Lá eu conheci Giuseppe Dossetti.

À noite, os encontros mais informais: um grupo belíssimo sobre o diálogo entre marxismo e cristianismo, liderado com sábia competência por Giulio Girardi. Lombardo Radice era o condutor da parte comunista, ele também sábio e corajoso.

Para nós, jovens – eu tinha 25 anos –, esses encontros eram substancialmente homogêneos e concordes. O poder de reflexão do Concílio encorajava a pensar e a buscar. Girardi, perito conciliar, era o sábio comentarista dos trabalhos do Vaticano II. Com emoção intensa, vinham a conhecer os grandes protagonistas da Igreja do Terceiro Mundo, de Hélder Câmara a Rugambwa, primeiro cardeal africano.

Giulio nos fazia entender como não era possível mais pensar na Igreja senão nas dimensões universais descobertas pelo Concílio, e como os pobres de todo o mundo deviam ser considerados como os verdadeiros protagonistas e a alta provocação para a reforma da Igreja do Senhor. Devo à paixão do padre Girardi o fato de ter visto com grande favor a proposta de pensar em Bolonha como a Igreja na qual passar a minha vida. Com quanta maravilha ouvimos e nos admiramos com o discurso de Lercaro sobre a Igreja dos Pobres, que não devia ser entendida só como Igreja mãe dos pobres, Igreja que ama e protege os pobres, mas também como "Igreja dos pobres"! Com muita delicadeza, Girardi observava que essas palavras passavam por uma concepção puramente socioeconômica da pobreza e propunham a pobreza como horizonte próprio da fé mesma.

Tudo nesse tempo breve e extraordinário era substancialmente concorde e feliz. O caríssimo e idoso padre Lyonnet devia pregar para nós um retiro sobre o Pai Nosso. Estando doente, ele nos confiou a um bravo padre jesuíta jovem que recém voltara da Alemanha: Carlo Maria Martini. Tempos maravilhosos que nos preservaram das tempestades da contestação global, sem perder também a substância dessa mensagem.

Depois, tudo ficou mais difícil. Para Giulio Girardi, ainda mais doloroso. Mas a sua grande alma o guiou simplesmente a um amor cada vez mais profundo para com os pobres de toda a terra. Para ele, no céu, nestes dias, prepararam uma grande festa.