A Encarnação Segundo Mancuso. Artigo de Gilberto Borghi

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13 Janeiro 2026

Em sua jornada teológica, a encarnação desempenha um papel central, mas um papel que se transforma progressivamente em comparação com a tradição cristã.

O artigo é de Gilberto Borghi, teólogo leigo, filósofo e psicopedagogo clínico italiano, publicado por Vino Nuovo, 12-01-2026.

Eis o artigo.

O segundo modelo interpretativo da encarnação que gostaria de apresentar, depois do da "encarnação profunda", é o de Vito Mancuso. Em sua trajetória teológica, a encarnação desempenha um papel central, mas que se transformou gradualmente em relação à tradição cristã.

Nas primeiras obras de Mancuso, Il dolore innocente (2002) e L'anima e il suo destino (2007), o significado original da encarnação surge como resposta ao escândalo do mal inocente. Sua reflexão parte de uma questão moral radical: pode um Deus que permite a dor dos justos, das crianças, dos inocentes, ser digno de fé? Nesse contexto, a encarnação é concebida como a solidariedade de Deus com o sofrimento do mundo. Deus não domina a realidade de cima, não a governa por meio de uma providência onipotente e frequentemente incompreensível, mas "encarna" na limitação, na fragilidade, na condição criatural. A encarnação torna-se, assim, o caminho para salvar Deus da acusação de imoralidade: Deus não quer o mal, Ele o sofre.

Numa fase posterior, ao escrever Deus e eu: um guia para os perplexos (2011) e Obediência e liberdade (2012), essa ideia se aprofunda a ponto de se tornar ontológica. A encarnação não diz respeito mais apenas a Jesus, mas à própria estrutura do ser: a realidade é intrinsecamente marcada por um princípio de imanência, de interioridade, de uma lei moral inscrita em seu âmago. Nessa perspectiva, Cristo não é mais simplesmente aquele que "assume" a carne, mas aquele que manifesta de forma paradigmática aquilo que é sempre verdadeiro: o sentido da vida só é dado pela encarnação, emerge somente na materialidade concreta das coisas. A encarnação torna-se, assim, universal, replicável, inscrita no próprio ser.

O resultado final dessa trajetória é reduzir Cristo a uma ideia ético-espiritual incarnada. Em Jesus Cristo (2021) e Jesus e Cristo (2025), Mancuso não vê mais Jesus de Nazaré como o Filho unigênito do Pai, um evento salvífico irrepetível, mas apenas como uma forma plenamente realizada de humanidade, uma realização exemplar da encarnação que se configura como uma possibilidade sempre aberta a todo ser humano, e não como um evento ontológico exclusivo.

Dessa forma, Mancuso consegue libertar a encarnação das interpretações mitológicas ou sacrificiais que a tornaram inaceitável para muitas consciências modernas. Sua proposta restaura a dignidade moral de Deus, liberta o cristianismo da lógica da chantagem (culpa, castigo, inferno) e reafirma a centralidade da consciência e da responsabilidade humana. Mas a que custo? Essa ideia busca curar as feridas causadas por uma teologia percebida como violenta e abrir um espaço de fé para a humanidade contemporânea. Contudo, é justamente aqui que emergem as limitações estruturais de sua concepção da encarnação.

A primeira questão diz respeito à perda do evento. No cristianismo, a encarnação não é apenas uma verdade universal sobre o ser, mas um evento singular, narrativo e escandaloso: Deus entra na história com uma face concreta, em um momento específico, por meio de relacionamentos, conflitos e decisões. Em Mancuso, no entanto, Cristo tende a se tornar uma figura exemplar, uma "ideia ético-espiritual encarnada", em vez da irrupção imprevisível de Deus na história. A singularidade dá lugar ao paradigmismo; o escândalo, à coerência.

Uma segunda limitação diz respeito à relacionalidade. O amor é frequentemente descrito em Mancuso, especialmente em suas obras da maturidade, como uma estrutura ontológica impessoal, uma lei da realidade em vez de uma dinâmica relacional concreta. Isso o distancia não apenas da Trindade, mas também da Bíblia, onde o amor é sempre eletivo, assimétrico e pessoal: Deus ama alguém, chama-o pelo nome e forma alianças. A Encarnação, esvaziada dessa profundidade relacional, corre o risco de se tornar um princípio ético abstrato válido para todos, mas que deixa o homem sozinho diante do dever ético.

Uma terceira limitação diz respeito à relação entre espiritualidade e ética. Em Mancuso, a espiritualidade é claramente uma função da ética: Deus, Cristo, a fé e a encarnação são valiosos na medida em que possibilitam uma vida boa. No cristianismo, porém, o movimento é inverso: a ética é fruto de uma transformação espiritual, efeito de uma relação que precede e transcende a ação moral. Essa mudança faz com que a encarnação, de um evento salvífico, se torne um critério moral. O risco é uma redução ética do cristianismo, por mais elevado e nobre que seja, enraizada no estoicismo em vez do Evangelho.

Mas, acima de tudo, e aqui reside a maior limitação, a proposta de Mancuso permanece ancorada a um sujeito moderno, que percebe sua própria consistência existencial, centrada na consciência, na reflexão racional e na coerência ética. Mas o sujeito contemporâneo, na condição pós-moderna, não busca mais fundamentos conceituais; não possui mais consistência existencial suficiente. Em vez disso, busca práticas que unam corpo, afetos, narrativa e pertencimento, numa tentativa de se reunificar internamente. Nesse contexto, a encarnação como ideia moral universalizável corre o risco de parecer abstrata e carente de poder gerador existencial, porque não responde à questão central da atualidade, que precede a questão do valor ético das ações: Eu realmente existo?

Se sua intenção original era reinterpretar a Encarnação para que o homem contemporâneo a sentisse em consonância com seu próprio horizonte de significado, deve-se dizer que ela chega tarde e a um custo muito alto para a essência da fé cristã. Ele se dirige a um homem hoje raro, altamente culto e certamente um tanto "idoso", propondo uma redução da fé cristã a uma moralidade estoica revisitada, na qual Cristo é meramente uma personificação ideal dela. Se substituíssemos Cristo por um herói estoico, seria a mesma coisa. Cristo é uma oportunidade para explicar a visão de ética de Mancuso, a serviço da qual, na verdade, ele coloca uma espiritualidade não cristã, que se baseia no budismo oriental e no hinduísmo.

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