O divisor de águas católico da Irlanda

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26 Julho 2011

A crítica do primeiro-ministro irlandês ao Vaticano expõe uma realidade constatada por grande parte do povo católico do mundo: o nosso atual modelo de Igreja é disfuncional e requer uma renovação radical.

A análise é de Gerry O`Hanlon, SJ, do Centro Jesuíta Fé e Justiça da Irlanda, autor de A New Vision of the Catholic Church: A View from Ireland (Dublin: Columba Press, 2011). O artigo foi publicado no sítio Eureka Street, revista eletrônica dos jesuítas da Austrália, 25-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O primeiro-ministro irlandês Enda Kenny surpreendeu muitas pessoas na Irlanda, e de muito mais longe, com a sua contundente declaração no parlamento sobre o relatório da Comissão de Investigação sobre a diocese católica de Cloyne na semana passada.

A surpresa foi que o seu foco principal não era tanto os principais culpados irlandeses criticados no relatório (Dom John Magee e seu vigário-geral, Mons. Denis O`Callaghan, encarregado de investigar as denúncias de abuso sexual clerical de crianças), mas o próprio Vaticano.

Em uma linguagem nada diplomática, Kenny afirmou que o relatório "escava a disfunção, a desconexão, o elitismo [e] o narcisismo [...] que dominam a cultura do Vaticano hoje [...] O estupro e a tortura de crianças foram subestimados ou `administrados` para sustentar, ao contrário, a primazia da instituição, seu poder, status e `reputação`".

Ele defende essa esta grave acusação pela afirmação de que "pela primeira vez na Irlanda, um relatório sobre abuso sexual infantil expõe uma tentativa por parte da Santa Sé de frustrar um inquérito em uma república soberana e democrática [...] há apenas três anos, não há três décadas".

É claro que, independentemente das nuances das acusações feitas – há, por exemplo, uma certa perplexidade com relação à sua referência à interferência do Vaticano "há apenas três" –, Kenny articulou bem a raiva do povo irlandês perante o Vaticano.

Seu discurso foi uma declaração de atitude clara e que divide águas – esse novo governo está adotando uma atitude menos condescendente para com a Igreja e o Vaticano. Isso tem sido bem recebido não só pelas vítimas de abuso sexual clerical, mas também, ao que parece, nesta fase inicial, pela maioria do público em geral.

É verdade, como alguns têm alegado, que Kenny não precisou de uma grande coragem política para articular essa nova posição – na Irlanda, a Igreja já bastante enfraquecida é um alvo fácil, e um ataque contra ela obrigatoriamente irá angariar apoio popular. No entanto, a sincera posição de Kenny como um católico praticante compensa as acusações de oportunismo político.

Também é verdade que, como alguns críticos do discurso de Kenny observaram, o próprio Relatório Cloyne não é em nada tão crítico ao Vaticano quanto o próprio Kenny, limitando-se, principalmente, a comentários sobre a resposta de 1997 do Vaticano ao Framework Document de 1996 dos bispos irlandeses.

O relatório observa que essa resposta foi "inteiramente inútil" e "confortou e apoiou aqueles que [...] discordavam da política oficial declarada da Igreja irlandesa". A questão em jogo aqui era a insistência sobre a denúncia obrigatória às autoridades civis, e o porta-voz papal, Federico Lombardi, observou que a denúncia obrigatória naquele tempo não era – e ainda não é – exigida pela lei civil irlandesa.

O próprio Vaticano esteve em uma curva de aprendizado sobre essas questões. Parece que foi apenas em 2010 (bons 14 anos depois que os bispos irlandeses esclareceram a sua posição) que ele chegou à recomendação inequívoca de que a plena cooperação com as autoridades civis era necessária.

O fato de o Vaticano não poder confessar seu próprio atraso e deficiências nesses assuntos (por causa do medo de processos judiciais, com os resultantes compromissos financeiros?), mas parece lavar-se as mãos e culpar as hierarquias locais, subjaz a grande parte da raiva que se sente na Irlanda.

Isso aponta para a questão mais profunda que subjaz a toda essa saga, na Irlanda e em outros lugares da Igreja. Parece que o Vaticano apoia o princípio de subsidiariedade quando convém – por isso, as Igrejas locais são autônomas e responsáveis em suas próprias regiões nessa matéria de abuso. Mas em muitas outras áreas – por exemplo, a tradução do Novo Missal, o papel das mulheres na Igreja, os poderes de tomada de decisão dos leigos – há poucas evidências de efetiva subsidiariedade.

Brendan Hoban, membro fundador da Associação de Padres Católicos da Irlanda, observou que "Kenny articulou uma outra verdade óbvia sobre a Igreja Católica irlandesa: que a dominação de Roma está estrangulando o surgimento de uma Igreja do povo na Irlanda".

Há, naturalmente, um papel importante de Roma e do papado, mas não às custas de uma autonomia local e regional vigorosa: e a base para isso, como Hoban continua dizendo, "deve ser encontrada não em algum manual revolucionário, mas sim nos documentos do Concílio Vaticano II".

Talvez, apesar de todas as qualificações levantadas pelos críticos, o povo irlandês – e muitos outros de mais longe – concorda com Kenny, porque eles também sentem que o nosso atual modelo de Igreja é disfuncional e requer uma renovação radical.

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