Vaticano adotou "posição calculada e enfraquecedora" perante a pedofilia na Irlanda

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21 Julho 2011

O primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, acusou o Vaticano de adotar uma "posição calculada e enfraquecedora" acerca dos abusos após a publicação um relatório judicial que acusou a Santa Sé de ser "inteiramente inútil" na tentativa dos bispos irlandeses de lidar com os abusos.

A reportagem é de Michael Kelly e Thais John, publicada no sítio National Catholic Reporter, 20-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante um debate parlamentar no dia 20 de julho, Kenny disse que uma investigação judicial independente sobre o tratamento dado ao abuso sexual por parte do clero na diocese de Cloyne "expõe uma tentativa por parte da Santa Sé de frustrar um inquérito em uma república soberana e democrática há apenas três anos".

"E, ao fazê-lo, o Relatório Cloyne escava a disfunção, a desconexão, o elitismo e o narcisismo que dominam na cultura do Vaticano até hoje", disse.

Um dia antes, uma autoridade da Igreja rejeitou as duras críticas feitas ao Vaticano depois do Relatório Cloyne.

O padre jesuíta Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse à Rádio do Vaticano no dia 19 de julho, que grande parte da crítica não levou em conta os esforços do Papa Bento XVI e de outras autoridades da Igreja para evitar futuros casos de abuso sexual de crianças e para tratar de casos passados com abertura e determinação.

Lombardi disse que o Vaticano estava preparando uma resposta mais detalhada ao Relatório Cloyne, e que seu próprios comentários à Rádio do Vaticano não constituíam uma reação oficial do Vaticano.

O Relatório Cloyne, publicado no dia 13 de julho, revelou que o bispo de Cloyne, John Magee, ex-secretário de três papas, prestou "pouca ou nenhuma atenção" à salvaguarda das crianças em 2008. O texto diz que ele contou falsamente ao governo que a sua diocese estava denunciando todas as alegações de abuso sexual infantil clerical às autoridades civis. Ele também descobriu que o bispo deliberadamente desviou outra investigação e seus próprios assessores, criando dois relatos diferentes – um para o Vaticano e outro para os arquivos diocesanos – de um encontro com um padre suspeito.

O relatório acusa o Vaticano de ter sido "inteiramente inútil" aos bispos que queriam implementar plenamente as linhas diretrizes de 1996 intituladas Abuso sexual infantil: Marco para uma resposta da Igreja.

Kenny disse que "essa posição calculado e enfraquecedora" era "o total oposto do radicalismo, da humildade e da compaixão sobre os quais a Igreja Romana foi fundada".

Ele disse que "o povo irlandês, incluindo os muitos fiéis católicos que – como eu – ficaram chocados e consternados com os repetidos fracassos das autoridades eclesiásticas para enfrentar o que era necessário, merecem e exigem a confirmação do Vaticano de que eles realmente aceitam, endossam e exigem o consentimento de todas as autoridades da Igreja aqui com as obrigações de denunciar todos os casos de suspeita de abuso, sejam atuais ou históricos, às autoridades do Estado".

Referindo-se à tendência identificada no Relatório Cloyne de pôr os direitos dos clérigos acusados acima do das vítimas, Kenny disse que o "clericalismo tornou relutantes ou incapazes de abordar os horrores [do abuso] alguns dos homens mais brilhantes, privilegiados e poderosos da Irlanda".

Ele disse que esse "clericalismo romano deve ser devastador para bons padres, alguns deles antigos, outros lutando para manter a sua humanidade, até mesmo a sua sanidade, enquanto eles trabalham tão duro para serem os guardiões da luz e da bondade da Igreja dentro de suas paróquias, comunidades e do coração humano".

Kenny disse que a Igreja precisa, "verdadeira e profundamente, arrepender-se dos horrores que ela perpetrou, escondeu e negou".

Resposta "não oficial" do Vaticano

Em sua entrevista à Rádio do Vaticano no dia 19 julho, Lombardi disse que as acusações de que o Vaticano foi responsável, de algum modo, pelo que aconteceu na Irlanda foram muito além da linguagem do próprio relatório, que foi cuidadosamente redigido ao falar de responsabilidades.

As acusações "não mostram nenhuma consciência do que a Santa Sé, de fato, realizou ao longo dos anos para ajudar a enfrentar esse problema efetivamente", disse.

Ele indicou as normas sobre padres sexualmente abusivos que foram introduzidas em 2001 e atualizadas no ano passado. Ele também citou as fortes declarações do Papa Bento XVI sobre o abuso sexual clerical na Irlanda, o encontro do papa com os bispos irlandeses em 2010 e a sua decisão de ordenar uma visitação apostólica à Irlanda para investigar a situação.

Os resultados dessa visitação estão em "um estado avançado de estudo e de avaliação", afirmou.

Lombardi abordou duas questões em particular que surgiram no Relatório Cloyne:

-- Uma carta de 1997 da Congregação para o Clero do Vaticano ao núncio papal da Irlanda atraiu fortes críticas por parte de alguns porque indicava a inquietação vaticana acerca do documento de ações políticas dos bispos irlandeses de 1996, Abuso sexual infantil: Marco para uma resposta da Igreja e sua compatibilidade com a lei da Igreja.

Lombardi disse que, como os bispos irlandeses declararam na época, o documento esteve "longe de ser a última palavra sobre como abordar as questões". Nesse contexto, disse, as observações críticas do Vaticano foram legítimas e refletem a preocupação de que as políticas e sanções irlandesas contra os abusadores seriam em vão se estivessem, no fim, em contradição com a lei da Igreja.

Mesmo que "seja possível debater a adequação da intervenção de Roma naquela época com relação à gravidade da situação irlandesa", disse, a carta do Vaticano não deveria ser interpretada como um esforço para ocultar os casos de abuso sexual sacerdotal.

-- Sobre a questão da denúncia obrigatória das alegações de abuso às autoridades civis, o Vaticano também levantou objeções. Mas Lombardi indicou que isso não significa que as autoridades da Igreja não deveriam respeitar as leis da Irlanda, que, na época, não obrigavam a denúncia de tais casos. A denúncia obrigatória era uma questão muito debatida até na sociedade civil naquele momento, afirmou.
Lombardi disse que é injusto criticar a Igreja por não insistir na denúncia obrigatória em um país que não tinha considerado necessário torná-la parte do direito civil.

Ele disse que o Relatório Cloyne constitui "um novo passo no longo e difícil caminho da busca da verdade, da penitência e da purificação, da cura e da renovação da Igreja na Irlanda". Ele disse que o Vaticano está participando desse processo com um sentimento de solidariedade e compromisso.

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