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22 Julho 2011

Na semana passada, foi publicado na Irlanda o Relatório Cloyne, o quarto relatório irlandês sobre os abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores, dedicado à diocese que havia sido guiada nos últimos anos pelo bispo John Magee, secretário de três papas.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 21-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A polêmica irrompeu muito além das próprias contestações dirigidas ao relatório, da qual transparecem atrasos e subestimação por parte de expoentes do clero irlandês, mesmo depois de o Vaticano ter emitido as novas normas antipedofilia. Ontem, o primeiro-ministro de Dublin, Enda Kenny, falando em um debate diante da Câmara Baixa do Parlamento irlandês, desferiu um ataque frontal sem precedentes (e sem que nenhum parlamentar o contestasse) contra a Santa Sé.

O relatório, segundo o primeiro-ministro irlandês, teria "evidenciado a tentativa da Santa Sé de bloquear uma investigação em um Estado soberano e democrático há não mais de três anos, não há 30 anos" e teria feito surgir "a disfunção, a desconexão e o elitismo que dominam a cultura do Vaticano. O estupro e a tortura de crianças foram minimizados para sustentar, ao contrário, o primado das instituições, o seu poder e a sua reputação".

Sobre esse assunto, o Vatican Insider entrevistou o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin (foto), na primeira fila da luta contra a pedofilia.

Eis a entrevista.

Ontem, o primeiro-ministro irlandês atacou fortemente o Vaticano depois da publicação do Relatório Cloyne. Como se explica esse ataque?


Acho que o primeiro-ministro estava se referindo principalmente às interações – das quais eu não tenho conhecimento – que ocorreram com o Vaticano durante a preparação do Relatório Cloyne e a alguma intervenção já "histórica" da Congregação para o Clero. O primeiro-ministro não nomeou o papa diretamente nem criticou as normas da Congregação para a Doutrina da Fé atualmente em vigor, que, sem dúvida, são de grande apoio e encorajamento para a Igreja na Irlanda e em outros lugares, na tentativa de continuar em uma linha clara e firme contra a pedofilia.

O Relatório Cloyne mostrou que, na Irlanda, houve bispos que, mesmo depois das diretrizes de 2001 da Santa Sé, continuaram subestimando o problema dos abusos e agiram sem dar respostas oportunas e adequadas. Por que isso ocorreu?


Ainda há alguns pequenos círculos que resistem às normas dos bispos irlandeses. Em torno da diocese de Cloyne, havia um grupo que, em nome de sua própria concepção do "direito canônico", até mesmo optou por não aplicar as normas da Congregação para a Doutrina da Fé, isto é, do então cardeal Ratzinger.

Em uma entrevista na televisão, o senhor disse que existe um grupo que faz resistência também no Vaticano à linha de Bento XVI. A quem o senhor se referia?

A esses círculos presentes na Irlanda e, talvez, atualmente dentro do Vaticano que ainda não dão plena adesão às normas em vigor, seja as da Igreja irlandesa, seja as da Santa Sé. É preciso uma mudança de mentalidade, e as mentalidades não mudam da noite para o dia.

O papa, com a sua decisão e o seu exemplo, está tentando mudar, além das normas, justamente a mentalidade. Como é recebida na Igreja, a seu ver, essa ação dele?

Na manhã de hoje, em uma rádio irlandesa, uma das vítimas mais conhecidas declarou que está confiante de que o papa quer erradicar definitivamente esse mal da Igreja. Infelizmente, o primeiro-ministro não mencionou a reforma radical introduzida nos procedimentos da Igreja liderada pelo papa. A Igreja irlandesa é hoje, sem dúvida, um lugar muito mais seguro para as crianças do que era há poucos anos.

Que impacto teve o Relatório Cloyne entre os fiéis irlandeses e sobre a opinião pública do seu país?

Ele despertou raiva e incompreensão pelo fato de uma diocese ter proclamado a sua adesão às normas da Igreja e, na prática, ter feito o contrário.

Segundo o senhor, em Roma, esse impacto é percebido em toda a sua gravidade?

Roma propõe uma linha que eu compartilho plenamente, e é a única linha a se seguir. Nesse sentido, Roma apoia e encoraja a linha que eu e o episcopado irlandês estamos seguindo. Talvez, em Roma, não se entenda o clima que existe na Irlanda, e em alguns comentários de Roma falta uma certa sensibilidade ao sentimento do povo irlandês. Quando se trata do sofrimento dos mais inocentes, até mesmo nas comunicações diplomáticas, nunca devemos deixar de transparecer os sentimentos do coração e a sensibilidade cristã.

Como a Igreja irlandesa pode sair dessa crise?


A crise da Igreja irlandesa não é simplesmente uma crise ligada aos abusos sexuais de menores. Esses são sintomas de uma crise mais profunda. A crise vai muito mais a fundo. É uma crise de fé, uma crise da transmissão da fé e, em muitos casos, de uma falta de compreensão da natureza da Igreja. A Irlanda é agora uma sociedade altamente secularizada, e muitos olham para a Igreja através de uma lente secularizada, a tal ponto que, em certo sentido, se poderia falar daquilo que eu chamo de "um clima de heresia não declarada", que permeia muitas dimensões da compreensão da fé entre os católicos.

 

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