Relatório da visitação tem tom positivo em relação às religiosas norte-americanas

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17 Dezembro 2014

O relatório final de uma investigação controversa e sem precedentes do Vaticano, que durou seis anos, de dezenas de milhares de irmãs católicas dos Estados Unidos adota um tom redondamente positivo, mesmo laudatório, com relação às suas vidas e obras, mas também inclui várias críticas afiadas e bem formuladas.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 16-12-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Usando alguma forma da palavra "gratidão" oito vezes ao longo das 12 páginas, o relatório também reconhece a suspeita que muitas irmãs tiveram no lançamento da investigação e diz que o Vaticano está buscando um "diálogo respeitoso e frutífero" com aqueles que se recusaram a colaborar durante o processo.

A Congregação do Vaticano para a vida religiosa, que escreveu o relatório, afirma em um ponto: "Expressamos a esperança de que, juntos, possamos acolher este momento como uma oportunidade para transformar a incerteza e a hesitação em confiança colaborativa, para que o Senhor possa nos levar adiante na missão que nos foi confiada, em nome das pessoas que servimos".

A investigação do Vaticano, conhecida formalmente como uma "visitação apostólica", foi lançada pela congregação religiosa em 2008, com a aprovação do Papa Bento XVI. Provavelmente essa foi a maior investigação na história da Igreja, envolvendo cerca de 341 institutos religiosos femininos dos EUA, que incluem cerca de 50.000 mulheres.

Tanto as religiosas norte-americanas quanto os leigos estavam aguardando ansiosamente a liberação do relatório final da visitação depois de vários anos com pouca informação sobre o estado da investigação, uma das duas investigações diferentes de religiosas norte-americanas iniciada por diferentes escritórios do Vaticano nos últimos anos.

O Vaticano divulgou o relatório final da visitação na terça-feira de manhã em uma coletiva de imprensa com o prefeito da congregação religiosa, cardeal João Braz de Aviz, e seu secretário, Dom José Rodríguez Carballo.

O relatório divide os resultados da investigação em 11 áreas temáticas, primeiramente reconhecendo, sem rodeios, o declínio no número de irmãs católicas ao longo dos últimos 50 anos, mas diz que "os números muito grandes de religiosas na década de 1960 foi um fenômeno relativamente de curto prazo, não típico da experiência da vida religiosa durante a maior parte da história da nação".

O relatório, em seguida, fala longamente sobre as conclusões da visitação no que diz respeito aos carismas e identidades das comunidades femininas e da sua promoção e formação de novas vocações.

Na primeira área, o relatório redondamente elogia o trabalho das religiosas por viver os carismas dos seus fundadores. "As irmãs, hoje, colocam, generosamente e criativamente, seu carisma a serviço das necessidades da Igreja e do mundo", afirma.

O relatório também reconhece que as comunidades de muitas mulheres estão desenvolvendo programas para leigos, a fim dar continuidade a seus carismas em uma época de poucas vocações.

"Esta Congregação elogia estas formas criativas de compartilhar os dons carismáticos dados pelo Espírito Santo à Igreja e pede que a diferença essencial entre a religiosa consagrada e os leigos dedicados, que mantêm uma relação especial com o instituto, seja respeitada e celebrada", declara.

Na segunda área, novamente o relatório expressa a sua gratidão às mulheres pelo seu trabalho na promoção de novas vocações para a vida religiosa, mas também critica obliquamente as comunidades femininas dos EUA que optaram por não usar hábitos religiosos após as reformas do Concílio Vaticano II.

"As pessoas entrevistadas da área vocacional e formativa afirmaram que as candidatas, muitas vezes, desejam uma experiência de vida em comunidades formativas e muitas gostariam de ser externamente reconhecidas como mulheres consagradas", afirma o relatório.

"Este é um desafio específico dos institutos cujo estilo de vida atual não enfatiza esses aspectos da vida religiosa", ele continua.

O relatório também faz críticas semelhantes, mas afiadas, em outras áreas, especialmente em relação à vida de oração das comunidades religiosas.

Em uma seção intitulada "Rezar com a Igreja", o relatório afirma que o estudo das constituições e outros decretos das comunidades femininas "em geral, revelou que os institutos têm orientações por escrito para a recepção dos sacramentos e práticas espirituais sólidas".

Mas o relatório continua: "Esta Congregação pede que os membros de cada instituto avaliem a sua prática da oração litúrgica e comunitária. Pedimos a eles para discernir que medidas precisam ser tomadas para fomentar ainda mais uma íntima relação das irmãs com Cristo e uma saudável espiritualidade comunal baseada na vida sacramental da Igreja e da Sagrada Escritura".

Na próxima seção, "Chamados a uma vida centrada em Cristo", o relatório emite um aviso.

"Cuidado deve ser tomado para não deslocar Cristo do centro da criação e de nossa fé", afirma. "Este Dicastério apela a todos os institutos religiosos a avaliar cuidadosamente as suas práticas espirituais e seus ministério para garantir que estes estejam em harmonia com a doutrina católica sobre Deus, Criação, Encarnação e Redenção".

A visitação é uma das duas investigações das religiosas norte-americanas iniciadas por diferentes escritórios do Vaticano nos últimos anos. A outra investigação é uma avaliação doutrinal de um grupo guarda-chuva das irmãs norte-americanas, conhecido como Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas (LCWR), e está sendo conduzida pela Congregação para a Doutrina da Fé.

O relatório de terça-feira não se refere à investigação da LCWR.

O relatório da visitação é assinado por Dom Braz de Aviz e Dom Rodríguez e é datado de 8 de setembro, dia da festa católica da Natividade da Virgem Santa Maria.

Além deste relatório geral, está previsto que relatórios individuais sejam enviados aos institutos que sediaram uma visitação in loco e aos institutos cujos relatórios individuais indicaram áreas de preocupação.

Também estiveram presentes e falaram durante a coletiva de imprensa de terça-feira, três mulheres religiosas: Madre Mary Clare Millea, que conduziu a visitação em nome da Congregação; Irmã Sharon Holland, presidente da LCWR; e Madre Agnes Donovan, chefe de um grupo menor de irmãs norte-americanas conhecido como Conselho de Superioras Maiores de Mulheres Religiosas.

Millea, superiora geral das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, disse durante a conferência que ela "de cara sentiu-se assoberbada", quando foi convidada para liderar a visitação, mas a realizou com "plena consciência das minhas próprias limitações".

Ela também disse que as líderes de congregações teriam dito a ela que o processo "produziu resultados positivos surpreendentes", tais como um "confronto honesto com o poder transformador da Palavra de Deus" e um "aprofundamento sério dos documentos da Igreja sobre a vida consagrada".

Holland, vice-superiora das Irmãs Servas do Coração Imaculado de Maria, de Monroe, Michigan, afirmou claramente que ela e outras religiosas ficaram chateadas com o anúncio original da visitação.

"O propósito expresso [da visitação], 'de olhar para a qualidade de vida das religiosas nos Estados Unidos' era preocupante", disse ela. "Algumas congregações relataram que suas irmãs mais velhas sentiram que toda a sua vida tinha sido julgada e considerada em falta".

No entanto, disse a líder da LCWR, a visitação resultou em um "relatório afirmativo e realista".

"O relatório que estamos recebendo hoje reflete nossa realidade - em sua uniformização e diversidade", disse ela. "Nossas conquistas foram reconhecidas com gratidão, bem como foi revista a natureza de nossos desafios".

Holland também disse que estava falando para as mulheres religiosas que estavam assistindo a coletiva de imprensa ao vivo pela internet. "Ocorreu-me que, enquanto o relatório era lido, muitos puderam reconhecer expressões no documento que poderiam ter sido copiadas de documentos dos Capítulos de seus institutos", disse ela.

"Há um tom encorajador e realista neste relatório", continuou ela. "Os desafios são compreendidos, mas não é um documento de culpa, ou de soluções simplistas. Pode-se ler o texto e se sentir amado, com confiança para seguir em frente".

A congregação religiosa, conhecida formalmente como Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, lançou a visitação apostólica, em 2008, sob o comando do cardeal Franc Rodé.

Rodé, que era o chefe da congregação, e posteriormente, se aposentou, inicialmente disse que seu objetivo seria estudar a vida apostólica, de oração e comunitária das ordens femininas.

Mas depois de quase um ano de estudo, Rodé disse à Rádio Vaticano que o inquérito foi em resposta às preocupações, incluindo "um importante representante da Igreja dos Estados Unidos" a respeito de "algumas irregularidades ou omissões na vida religiosa norte-americana".

"Acima de tudo, pode-se dizer, isso envolve uma certa mentalidade secular que se espalhou nessas famílias religiosas e, talvez, também um certo espírito 'feminista'", disse Rodé na época.

O relatório de terça-feira não reconhece essas preocupações de Rodé, dizendo em vez que a visitação foi iniciada pela Congregação "por causa de nossa consciência de que a vida religiosa e apostólica nos Estados Unidos está passando por tempos difíceis".

"Embora soubéssemos que qualquer iniciativa dessa magnitude teria suas imperfeições, queríamos ganhar um conhecimento mais profundo das contribuições das religiosas à Igreja e à sociedade, bem como aquelas dificuldades que ameaçam a qualidade de sua vida religiosa e, em alguns casos, a própria existência dos institutos", afirma o relatório.

Ao explicar o processo da própria visitação - que incluiu um questionário feito às superioras e visitas in loco às cerca de 90 comunidades em todo o país - o relatório diz que a investigação "buscou obter dos líderes e membros dos institutos uma descrição sincera e transparente de sua realidade vivida".

Em uma seção posterior sobre a colaboração na missão evangélica da Igreja, o relatório assinala que muitas religiosas têm trabalhado em diversas áreas da vida - desde a educação, aos cuidados de saúde, do ministério pastoral às obras de justiça social.

O relatório afirma que a Congregação "deseja exprimir a profunda gratidão da Sé Apostólica e da Igreja nos Estados Unidos ao serviço dedicado e abnegado das religiosas em todas as áreas essenciais da vida da Igreja e da sociedade".

Em uma seção sobre a comunhão eclesial, o relatório afirma: "Um número de irmãs expressaram ao Visitador Apostólico um desejo de maior reconhecimento e apoio da contribuição da mulher religiosa para a Igreja por parte de seus pastores".

"Elas observaram a necessidade permanente de um diálogo honesto com os bispos e o clero, como forma de clarificar o seu papel na Igreja e fortalecer seu testemunho e eficácia como mulheres fiéis ao ensino e à missão da Igreja", afirma. "Algumas falaram de sua percepção de não ter uma participação suficiente nas decisões pastorais que lhes dizem respeito ou sobre os quais elas têm experiência e conhecimento considerável".

"Esta Congregação está empenhada em colaborar com o desejo do Papa Francisco de que "o gênio feminino" encontre expressão nos vários locais onde são tomadas decisões importantes, tanto na Igreja quanto nas estruturas sociais", afirma o relatório.

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